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SÃO PAULO – Na década entre 2000 e 2009, o Ibovespa se mostrou a melhor métrica de investimento por nada menos do que seis anos. O rendimento acumulado nestes dez anos é de impressionantes 301% – o que mostra o vigor da renda variável brasileira. Apesar de expressiva, a marca não garante ao investimento em ações a aposta mais acertada da década.
Isto porque o menos badalado CDI, benchmark da renda fixa cuja evolução é balizada na taxa Selic, e que nestes dez anos teve o melhor desempenho anual apenas em uma oportunidade (2000, com 17,25% de retorno), acumulou na década nada menos do que 339%. Em outras palavras, entre 2000 e 2009, investir em renda fixa, na média, rendeu mais do que em renda variável.
Até mesmo se supormos que um fundo DI remunera ao pequeno investidor 95% do CDI, esta aplicação rendeu mais que investir regularmente na carteira proposta pelo Índice Bovespa ao longo destes dez anos. E na cola do investimento em ações aparece a pouco popularizada – ao menos no Brasil – aplicação em ouro.
A poupança acumulou de 2000 a 2009 rentabilidade de 126,75%, aquém das opções até aqui expostas e um pouco inferior à inflação acumulada neste período pelo IGP-M (127%) – o que significa que, considerando o poder de compra da moeda, quem apostou na tradicional caderneta de poupança perdeu dinheiro nestes anos.
Desvantagem mesmo foi apostar no dólar: tanto o Ptax quanto o dólar comercial carregam sinal negativo tanto em termos nominais, quanto em reais.
Um juro historicamente alto
Um olhar mais calculista para estes dados compilados não surpreende como à primeira vista. Até o mais leigo em finanças e investimentos já ouviu por aí que o Brasil tem das maiores taxas de juros de todo o mundo.
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Mesmo a Selic estando atualmente em seu menor patamar da história, 8,75% ao ano, ainda é bem elevada quando pensamos em investimentos de renda fixa. Se pensarmos nos títulos que remuneram juros + um índice de inflação – como é o caso das NTB-B, ajustadas pelo IPCA, ou das NTN-C, ajustadas pelo IGP -, estamos falando de retorno líquido elevado com baixíssimo risco.
Mas estamos falando de um período de dez anos, no qual a Selic esteve em patamares bem superiores aos atuais. A taxa, que começou a década em 19%, chegou ao patamar de 26,50% em 2003 – no qual ficou entre fevereiro e junho. É uma marcada por juro elevado (para conferir o histórico da Selic, clique aqui).
A mesma lógica que explica o CDI no mais alto posto no ranking de melhores investimentos da década é aplicada ao segundo lugar deste ranking, já que assumimos que um fundo DI remunera ao pequeno investidor, na média, aproximadamente 95% do CDI. Nem este desconto aplicado ao benchmark deixou a aplicação em bolsa com a medalha de prata.
A lógica que vale nas aplicações de renda fixa é a rentabilidade garantida. A relação de retorno real (descontado da inflação) mostra que apenas em 2002, quando o IGP-M acumulou alta nos preços de 25,30%, é que o retorno real do CDI e dos fundos DI não foi positivo. No caso da poupança, que tem o cálculo de sua remuneração diferente – não acompanha o CDI, mas sim a Taxa Referencial – esta afirmação não se aplica.
A década da Bolsa
Os primeiros três anos desta década não foram dos mais favoráveis para o investimento em ações. O sinal negativo do Ibovespa reflete uma mal recebida sequência de sequência de crise financeira na Rússia e nos emergentes asiáticos, ataque das Torres Gêmeas em 2001 e estouro da bolha .com e tensão com as eleições presidenciais de 2002. O saldo: 34% de baixa acumulada no intervalo 2000-2002.
Eis que para se aproveitar das oportunidades surgidas com estes três anos de turbulências, o mercado foi agressivamente às compras e praticamente dobrou o valor de mercado da Bovespa em 2003. O que se viu daí em diante foi uma sequência de anos positivos na renda variável, a melhor escolha de investimento entre 2003 e 2007.
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Injusto atribuir esta sequência positiva como mera correção às perdas anteriores, já que o mercado acionário brasileiro construia uma melhor reputação: a evolução tanto do cenário econômico quanto do corporativo nestes cinco anos foram traduzidos em valorização das ações listadas em bolsa.
Até que a maior crise desde 1929 acabou com a farra. A queda de 41,22% do Ibovespa simbolizou o pior ano do índice desde 1972. A memória recente nos traz à mente os fatos por trás deste percentual: estouro da bolha do mercado imobiliário norte-americano, congelamento dos mercados globais de crédito, avalanche no setor financeiro com sucessivas quebras de bancos e resgates públicos – entre os principais marcos, a quebra do Lehman Brothers e o resgate da AIG nos EUA -, sem contar os impactos do sumiço do crédito na economia e nos balanços corporativos.
E assim como se viu no início da década, passado o período turbulento e de fortes perdas no valor dos ativos de renda variável, ao primeiro sinal de luz no fim do túnel o fluxo volta para este mercado, em busca das barganhas. Resultado: Ibovespa em alta de 82,66% em 2009, novamente o melhor investimento do ano.
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Confira o desempenho das principais métricas de investimento no Brasil ao longo desta década:
| Investimento | Acumulado | 2009 | 2008 | 2007 | 2006 | 2005 | 2004 | 2003 | 2002 | 2001 | 2000 |
| Ibovespa | 301,31% | 82,66% | -41,22% | 43,66% | 32,92% | 27,21% | 17,81% | 97,34% | -17,01% | -11,02% | -10,72% |
| CDI | 339,14% | 9,81% | 12,27% | 11,72% | 14,97% | 18,92% | 16,02% | 23,10% | 18,90% | 17,12% | 17,25% |
| Fundo DI* | 309,94% | 9,31% | 11,65% | 11,14% | 14,22% | 17,98% | 15,22% | 21,95% | 17,95% | 16,27% | 16,39% |
| Ouro | 269,05% | -3,05% | 32,13% | 11,26% | 12,69% | 2,93% | -2,85% | -0,77% | 80,93% | 20,79% | 5,95% |
| Poupança | 126,75% | 6,92% | 7,90% | 7,70% | 8,33% | 9,18% | 8,10% | 11,10% | 9,14% | 8,59% | 8,39% |
| Dólar Ptax | -2,67% | -25,49% | 32,00% | -17,19% | -8,66% | -11,82% | -8,78% | -17,64% | 52,27% | 18,67% | 9,30% |
| Dólar Comercial | -2,57% | -25,42% | 31,59% | -16,89% | -8,01% | -12,44% | -8,58% | -18,23% | 53,30% | 18,39% | 9,30% |
| IGP-M | 127,06% | -1,72% | 9,82% | 7,75% | 3,83% | 1,21% | 12,41% | 8,69% | 25,30% | 10,37% | 9,95% |
* Supondo um rendimento médio anual de 95% do CDI
Se considerarmos os retornos reais, ou seja, descontados da inflação no período, o desempenho foi o seguinte:
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| Investimento | Acumulado | 2009 | 2008 | 2007 | 2006 | 2005 | 2004 | 2003 | 2002 | 2001 | 2000 |
| Ibovespa | 76,74% | 85,85% | -46,48% | 33,32% | 28,02% | 26,19% | 4,80% | 81,56% | -33,77% | -19,38% | -18,80% |
| CDI | 93,40% | 11,73% | 2,23% | 3,69% | 10,73% | 17,50% | 3,21% | 13,26% | -5,11% | 6,12% | 6,64% |
| Fundo DI* | 80,55% | 11,23% | 1,67% | 3,14% | 10,01% | 16,57% | 2,50% | 12,19% | -5,87% | 5,34% | 5,85% |
| Ouro | 62,53% | -1,35% | 20,31% | 3,26% | 8,54% | 1,71% | -13,58% | -8,71% | 44,39% | 9,44% | -3,64% |
| Poupança | -0,13% | 8,79% | -1,75% | -0,04% | 4,34% | 7,88% | -3,84% | 2,22% | -12,90% | -1,61% | -1,42% |
| Dólar Ptax | -57,14% | -25,49% | 20,19% | -23,15% | -12,03% | -12,87% | -18,86% | -24,23% | 21,52% | 7,51% | -0,59% |
| Dólar Comercial | -57,09% | -24,11% | 19,82% | -22,87% | -11,40% | -13,48% | -18,68% | -24,77% | 22,35% | 7,26% | -0,59% |
| IGP-M | 127,06% | -1,72% | 9,82% | 7,75% | 3,83% | 1,21% | 12,41% | 8,69% | 25,30% | 10,37% | 9,95% |
* Supondo um rendimento médio anual de 95% do CDI
Dólar & Ouro
Não à toa, os anos de alta do dólar foram os de queda da bolsa. Além de refletir o fundamento de um cenário econômico debilitado no período de 2000-2002 e 2008, o que acarreta em perda de valor do real frente frente às divisas de economias mais maduras, precifica também o menor fluxo de dólares para o País, seja via comercial, seja financeira.
O ouro também carrega esta relação entre oferta e demanda, até porque se trata de um ativo físico – embora um baixo percentual dos negócios realizados com commodities nas bolsas de valores e mercadorias em todo o mundo efetivamente tenha por finalidade a entrega do produto físico. Mas também carrega a fama de ser um investimento defensivo – ou seja, mais procurado em períodos de maior turbulência e aversão ao risco -, atrativo também em períodos de ameaça inflacionária. Olhar para o desempenho da commodity metálica nestes 10 anos associa os números ao histórico do mercado de capitais.