A resiliência da pessoa física

Apesar de forte queda com crise do coronavírus, Bolsa ganha 440 mil novos investidores em dois meses

Produtos de renda variável conquistam espaço na carteira de investidores em um cenário com preços mais atrativos e Selic na mínima histórica

The businesswoman in glasses standing near the display
(Artem Peretiatko/ Getty Images)

SÃO PAULO – Diante da forte volatilidade do mercado acionário, sob os efeitos da epidemia do coronavírus e o aumento das tensões no cenário político brasileiro, o comportamento do investidor pessoa física na Bolsa tem surpreendido. Em dois meses, enquanto o Ibovespa caiu 22,7%, a B3 registrou o aumento de 440 mil CPFs cadastrados em corretoras, elevando o total de contas para perto de 2,4 milhões.

Apenas em março, mês completamente atípico para o mercado financeiro, com seis circuit breakers e queda da ordem de 30% do Ibovespa, foram 300 mil novos investidores, praticamente o dobro do aumento registrado em fevereiro. Em abril, entraram outros 140 mil. No ano, enquanto a Bolsa perde 30,4% em retorno, acumula 704,3 mil novos cadastros (lembrando que um investidor pode ter conta em mais de uma corretora).

“Havia muita expectativa quanto aos números pós-carnaval e sobre como os investidores reagiriam. O resultado surpreendeu com esse crescimento recorde e com crescimento contínuo em abril. Ainda é muito cedo para concluirmos se será contínuo, mas, de qualquer forma, traz um quadro positivo e sinais que talvez estejamos tendo uma mudança geracional quando falamos de investimentos no Brasil”, afirma Felipe Paiva, diretor de relacionamento com clientes da B3.

E não é apenas a compra direta de ações em Bolsa que tem se destacado. Apesar de a turbulência dos mercados em março ter levado a resgates líquidos da ordem de R$ 31,2 bilhões em fundos de investimento, a classe de renda variável registrou captação de R$ 8,3 bilhões, com o melhor desempenho entre as opções disponíveis na indústria de fundos local, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Em abril, até o dia 29, a classe sofreu resgate da ordem de R$ 693 milhões, mas o desempenho foi melhor do que o encontrado nos fundos de renda fixa e multimercados, com retiradas líquidas de R$ 55,4 bilhões e R$ 14 bilhões, respectivamente.

No acumulado do ano, a captação das estratégias com ações chega a R$ 44,4 bilhões, enquanto a indústria de fundos tem resgates de R$ 56,4 bilhões.

O número de investidores nos fundos de ações, que começou o ano na casa dos 5,7 milhões, ultrapassava os 6 milhões em abril, segundo dados da Economatica. Desde o início da crise, em 21 de fevereiro, há perdas, contudo, de 128 mil cotistas em carteiras de ações.

Outro ativo que tem caído no gosto da pessoa física é o ETF, especialmente o que visa replicar o desempenho do Ibovespa, que vem ganhando espaço nas carteiras em meio à pandemia, pela facilidade de o investidor em se desfazer da posição de forma mais prática e rápida.

Sorte de principiante?

O médico Gabriel Glebocki, 35, decidiu entrar na Bolsa via compra do fundo de índice BOVA11, depois da forte queda dos mercados. Na época, o principal índice da B3 operava próximo dos 68 mil pontos.

Ele já estava planejando destinar parte do patrimônio à renda variável, após a consolidação de sua reserva de emergência e de uma previdência com foco no longo prazo, na aposentadoria.

De olho no noticiário e em informações financeiras, mas com pouco tempo para a análise, dado seu envolvimento no combate do coronavírus, Glebocki resolveu ingressar na Bolsa a partir do lote mínimo exigido pelo ETF, de dez cotas.

Embora o momento possa ser uma oportunidade para a compra de ações, o médico conta que a crise em curso o assustou bastante e o impediu de fazer um investimento mais expressivo por medo das incertezas e também por razões de ordem prática.

“É um momento em que, como não sabemos o que vai acontecer, fico mais confortável em ter meu dinheiro em algo mais conservador para estar disponível se precisar”, diz. “A crise me fez botar o pé no freio e deixar o resto do dinheiro no CDI.”

Coronavírus x Subprime

Ainda que os preços sejam um atrativo, o que mais tem levado investidores a se manterem fieis à Bolsa e até darem o primeiro passo ao risco justamente em um momento tão conturbado? A pessoa física aprendeu que ações são um investimento para o longo prazo ou está apenas aproveitando as oportunidades momentâneas, de olho em valorizações de curto prazo?

Em 2008, durante a crise do subprime nos Estados Unidos e quando o Ibovespa caiu 41,2%, a Bolsa brasileira terminou o ano com 536 mil CPFs cadastrados, 80 mil a mais que em 2007. Em 2009, contudo, o ritmo caiu, com um aumento de 15,9 mil cadastros.

“Em 2008, o país passava por um cenário de taxas de juros muito diferente do que temos hoje, com rendimentos altos garantidos. Hoje, o cenário é totalmente diferente, o que faz com que as pessoas tenham que se movimentar”, afirma Paiva, da B3. Ao fim de 2008, a taxa Selic estava no patamar de 13,75% ao ano, dez pontos percentuais acima do referencial atual.

Visão míope

Na avaliação de Juliana Inhasz, coordenadora do curso de graduação em Economia do Insper, uma parte muito significante dos novos entrantes são investidores apenas com foco no curto prazo.

Em um cenário em que os retornos na renda fixa estão cada vez mais baixos, diz, muitos dos que não conseguiram comprar ações antes, por conta dos preços mais elevados, têm aproveitado a queda para dar o pontapé inicial. “Muita gente olha para a Bolsa, vê que está barata e acredita que o tombo é temporário e que, assim que as coisas voltarem ao normal, as empresas vão reagir e as ações, subir.”

Segundo ela, o movimento de entrada era esperado – dado o cenário de Selic no menor patamar histórico –, mas é preocupante, devido ao período de forte volatilidade dos mercados. “É perigoso, porque estamos falando de um investidor que não conhece muito as regras do jogo, não sabe como o cenário macro pode influenciar as empresas, e acaba entrando em uma companhia como Petrobras achando que nunca vai ter perdas.”

A visão é compartilhada por Claudia Yoshinaga, professora de carreira na Fundação Getulio Vargas e coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV EAESP. Para ela, muitos investidores que têm fôlego e liquidez consideraram entrar agora assumindo que o pior já passou, atentos à chance de recuperação dos mercados.

“Há essa expectativa de que vai existir uma recuperação, o problema é que ninguém sabe quando. Mas aquele investidor que tem fôlego para esperar o médio prazo, aproveitou”, afirma.

No escritório de agentes autônomos Guelt Investimentos, por outro lado, as sócias Patrícia Bittencourt e Ana Paola Guetta destacam que têm se surpreendido positivamente com a reação de seus clientes. “Eles já estão mais preparados, entendendo que Bolsa é para o longo prazo e que, com a queda da Selic, vão precisar de novas fontes de investimento para manter uma renda pensando na aposentadoria”, diz Patrícia.

Pesquisa encomendada pela Alta Vista Investimentos com 314 clientes mostra que 65,6% percebem oportunidade para investir neste momento, pela baixa do mercado e por ofertas específicas. Homens estão mais inclinados a tomar decisões financeiras, dado que 71,9% notam oportunidades para investir, contra 46,1% nas mulheres. A pesquisa foi realizada de forma online pela Midas Marketing entre os dias 8 e 18 de abril.

Primeira experiência negativa

Após registrar alta de 32% em 2019, completando quatro anos consecutivos de valorização, o Ibovespa iniciou 2020 no vermelho. Até abril, o principal benchmark de renda variável acumulava perdas de 30,4% no ano.

“Muitos investidores que entraram antes da crise pegaram períodos muito positivos para a Bolsa. Estávamos em uma época em que se falava de romper a barreira dos 100 mil pontos, depois batemos os 120 mil; então muita gente criou a expectativa de que investir em renda variável era algo quase certo e de rentabilidade muito boa”, afirma Claudia, da FGV, ressaltando que a atual crise está sendo a primeira experiência negativa de muito investidor.

Administrador de empresas aposentado Aderson Romano, 60, decidiu dar o primeiro passo em Bolsa justamente em fevereiro, antes da derrocada gerada pela epidemia de coronavírus. “Comecei em uma hora errada, esperei vir a crise para entrar”, brinca.

Até então adepto de investimentos conservadores e líquidos, topou colocar uma parte do dinheiro em ações e fundos por conta dos rendimentos pífios da renda fixa. Agora, Romano calcula que as perdas já cheguem a cerca de 40% do patrimônio investido.

Sem mexer no investimento, o plano é aguardar o tempo necessário para recuperar o capital inicial para, então, possivelmente, sair da Bolsa.

“Mesmo que eu não ganhe nada, minha briga é em cima disso. Acho que daqui para frente a recuperação vai ser lenta, mas acredito que vá acontecer. E, quando acontecer, não pretendo continuar mais na Bolsa”, diz o aposentado. “A experiência não foi das melhores e a gente fica mais arisco.”

Investidor mais jovem ganha espaço

De acordo com a B3, a fatia majoritária de investidores em Bolsa possui hoje entre 26 e 35 anos e representa 33% do total, ganhando mais espaço na comparação com o mesmo período de 2019, quando respondiam por 27% do total.

Entre os principais motivos para este aumento, Paiva, da B3, cita as iniciativas dos intermediários, como corretoras e casas de análise, que, cada vez mais, têm contribuído para que informações e novos serviços cheguem na pessoa física, com plataformas mais amigáveis, formas de se comunicar mais próximas, além da forte atuação da imprensa e de influenciadores.

“É a geração que cresceu nas redes sociais e no mundo digital; está muito mais informada e com várias fontes de dados sobre o mercado financeiro e de capitais”, aponta o executivo.

O estudante de medicina da Universidade de São Paulo Pedro Simoes, 24, faz parte da nova leva de investidores na Bolsa, e decidiu entrar no dia 12 de março, após o Ibovespa acionar, pela segunda vez no dia, o mecanismo de circuit breaker.

Simoes, que investia desde 2012, com a ajuda da mãe, em Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio (LCI e LCA), conta que já queria diversificar sua carteira por conta dos rendimentos irrisórios na renda fixa, e aproveitou a crise para dar o primeiro passo, dados os preços mais atrativos.

Com a ajuda do assessor de investimentos, de cursos online e vídeos no YouTube, bem como de análises e relatórios de corretoras na internet, Simoes começou com as blue chips Petrobras e Itaú e depois partiu para nomes de outros setores, como Via Varejo. “A empresa despencou, estava sendo vendida abaixo do valor de mercado, então vi oportunidade”, diz.

Com o investimento, o estudante planeja manter os recursos aplicados com foco no longo prazo: “Quero tirar apenas em caso de necessidade, ou se for comprar uma casa, por exemplo.”

Ainda somos poucos na Bolsa

Um ano depois de comemorar a marca do primeiro milhão de investidores na Bolsa, a B3 registrou em abril mais de 2,4 milhões de investidores. Apesar de o número ter mais que dobrado no período, o caminho pela frente ainda é longo.

“Tivemos um aumento considerável, mas a porcentagem em relação à população ainda é muito pequena. Dois milhões em cerca de 200 milhões é muito pouco”, frisa Claudia, da FGV.

A pouca participação dos investimentos na vida dos brasileiros, segundo ela, tem uma relação histórica. “Sempre tivemos um paraíso da renda fixa no Brasil. E com a Selic pagando 15% ao ano, era uma boa decisão ficar na renda fixa; era um incentivo muito razoável para não correr risco”, destaca.

Problemas mais graves, estruturais, também contribuem para esse atraso, como a baixa alfabetização, falta de educação financeira e pouca bancarização, diz.

Em relação a economias mais maduras, como a dos Estados Unidos, Juliana, do Insper, avalia que incertezas que vão além da volatilidade natural do mercado, envolvendo preocupações de cunho econômico e político, pesam sobre o ímpeto do brasileiro de investir. “O mercado de ações brasileiro é uma montanha russa. O americano, um carrossel”, brinca.

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