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Com Bolsa em alta desde 2016, há ainda ações baratas para comprar?

Otimismo dos investidores já provocou forte reprecificação das ações. Crescem teses vinculadas à qualidade das empresas e mais independentes do ritmo de retomada da economia

Bolsa
(Shutterstock)

SÃO PAULO – Três anos e meio de alta. Tem muito novato na Bolsa encantado com o avanço do mercado brasileiro neste ano, em contraposição aos ganhos cada vez mais minguados da renda fixa. Mas não foi hoje que o ciclo positivo começou.

Depois da queda registrada entre os anos de 2013 e 2015, a Bolsa brasileira tem sustentado uma valorização desde 2016. Só naquele ano, a alta se aproximou dos 40%, seguida pelo avanço de 27% do Ibovespa em 2017, e de 15%, em 2018. Este ano, o índice acumula ganho da ordem de 14%.

Passada a euforia inicial com a pauta liberal defendida pelo novo governo, o mercado tem oscilado ao sabor das notícias políticas e econômicas (leia-se, os conflitos entre o Executivo e o Legislativo e a tramitação da reforma da Previdência) e dos eventos internacionais, principalmente o aparente interminável conflito comercial entre Estados Unidos e China.

Apesar da volatilidade, que tem exigido dos investidores mais sangue frio, a Bolsa tem a seu favor um fator preponderante para o otimismo: o patamar do juro básico da economia. Não só a taxa Selic de 6,5% ao ano tem “obrigado” os brasileiros a olharem para além da renda fixa, como as perspectivas de que juros reais da ordem de 2% a 3% serão sustentáveis no longo prazo têm levado o mercado a acreditar que o chamado “bull market” tem fôlego para continuar.

O único porém é que a seleção de ações não é óbvia há algum tempo. O otimismo dos investidores já provocou forte reprecificação dos ativos e o garimpo dos papéis está mais exigente, segundo gestores. Teses vinculadas à qualidade das empresas ganham espaço, assim como cresce a demanda por ações que sustentem crescimento ainda que a economia como um todo patine.

Companhias elétricas, com um perfil tradicionalmente mais defensivo, seguem entre as preferências, e gestoras também apontaram nomes de small caps que começaram a compor seus portfólios, para driblar as apostas mais conhecidas. “Pode haver diversas razões para se comprar ações no Brasil, mas não é mais pelos múltiplos baratos”, argumenta André Vainer, sócio fundador e gestor da Athena Capital.

Novos múltiplos

Em sua avaliação, o Brasil viveu por um bom tempo um mercado em que o nível de desconto precificado era tão grande que havia espaço para “aturar desaforo”. “O mais importante do investimento era a reprecificação de múltiplo, não os resultados em si.”

A situação, contudo, mudou e, desde o segundo turno das eleições presidenciais, Vainer assinala que o Brasil deu início a um processo de fechamento do mercado de desconto, o que abriu espaço para duas teses.

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A primeira está ligada ao atual custo de oportunidade, com um juro real da ordem de 2% ao ano, que leva a uma exigência de menor retorno em Bolsa e a múltiplos em patamares naturalmente mais altos, o que deve levar o investidor a não se pegar aos históricos. Nesse caso, assinala o gestor, é feita uma aposta direcional de que o Brasil vai dar certo.

Já a segunda tese – defendida pela Athena – está calcada no crescimento dos resultados corporativos. “Se você está comprando empresas hoje com múltiplos mais justos, o que vai ditar retorno é o resultado que elas entregam”, afirma Vainer.

Por isso, a Athena tem focado em companhias com as quais está mais confortável com o crescimento, como as de locação de veículos Localiza e Locamerica, e focado em setores que não são tidos como uma barganha.

Nessa segunda seara entram empresas de shoppings, diante da visão de que as empresas fizeram ajustes nos últimos anos, de que o setor está menos alavancado, conta com um mix de lojistas de maior qualidade, aumento das taxas de locação e uma melhora do balanço de oferta e demanda. Há ainda uma expectativa de consolidação (com operações como a fusão de Aliansce e Sonae Sierra) e a expansão do segmento.

Juntos com elétricas (como Cesp), as ações de shoppings (Aliance e Jereissati Participações) respondem pelas principais posições da Athena.

Embora ressalte sua visão construtiva de Brasil, Vainer diz que prefere ter ativos com bons retornos que não dependam de o país “dar certo”. “Não queremos ficar reféns do Brasil”, disse o gestor, para quem o mercado precisa estar sempre preocupado com uma eventual assimetria de riscos.

Caro ou barato?

Cesar Paiva, sócio fundador e gestor da Real Investor, vê mais dificuldade para encontrar boas oportunidades na Bolsa hoje, diante da valorização dos ativos. Ainda assim, hesita em dizer que o mercado está caro ou barato.

O maior apetite dos investidores, gerado pelos baixos retornos da renda fixa, é um fator positivo para o mercado, mas o tamanho da Bolsa brasileira ainda é um inibidor, aponta Paiva.

O fundo de ações da Real Investor tem mantido uma posição mais alta que a média em caixa, à procura de oportunidades. “Estamos gastando muito tempo para encontrar empresas com bom potencial de retorno à frente. A festa já não está tão interessante”, diz Paiva.

As maiores posições da gestora estão nos papéis da Energias do Brasil, que sobem 30% neste ano, mas seguem atrativos, em sua visão. Há ainda uma preferência por Bradespar, conhecida como um jeito mais barato para se comprar ações da Vale. Assim como os papéis da mineradora, os da Bradespar estiveram sob pressão depois da tragédia de Brumadinho, mas, para Paiva, a alta do preço do minério de ferro tem praticamente compensado a menor produção da empresa.

A baixa dos papéis da Suzano também foi tida como oportunidade para um aumento das posições. “Parte da queda foi gerada pela baixa dos preços da celulose no mundo, mas a gente acha que o mercado exagerou e que a ação está num preço interessante.”

Ações fora do radar. Dos outros

Empresas menores também têm sua fatia no portfólio, especialmente as de autopeças, como Tupy, Mahle Metal Leve e Schulz. “O setor ficou num preço interessante, e as empresas são bem geridas, com baixo endividamento, e têm dado bons resultados”, diz Paiva.

A busca por small caps não reside na preferência pelo segmento como um todo, explica o gestor, mas, em meio à necessidade de ser mais seletivo, o mercado se abre a nomes de menor liquidez, em busca de retornos. “Mas, dependendo do tamanho, você não consegue montar uma posição interessante em small caps, não consegue comprar tudo que queria”, frisa.

A Constância Investimentos também tem estudado o setor industrial, com nomes como Tupy, Iochpe Maxion, Cristal e Mahle Metal Leve. Com uma carteira de cem ações, a diversificação é imprescindível.

Segundo o gestor Julio Erse, os setores elétrico (com Energias do Brasil, Equatorial, Eletrobras, a “queridinha” Eneva, Taesa, Alupar e Cteep), industrial e de construção, seguidos pelo financeiro, respondem pelas maiores posições da Constância, que não tem um histórico de alta rotatividade.

Além do elétrico, o setor de construção ganhou maior peso neste ano, com MRV, Direcional, JHSF e Trisul no portfólio, que conta ainda com uma pequena exposição em Cyrela.

“O setor estava bem fora do radar, mas, como resultado da melhora das empresas, apareceu no screening [triagem]. A razão está menos ligada a preço, e mais a queda de juros, melhoras operacionais e alguma recuperação do setor”, diz Erse.

O gestor conta que, nos últimos 12 meses, ações de shopping e do setor financeiro geraram os melhores resultados, mas empresas de energia têm se destacado em 2019. Por ora, consumo tem uma posição pequena na casa, assim como grandes bancos são vistos como já bem precificados.

Perspectiva para a Bolsa

Para Erse, os fundamentos das empresas justificam o avanço da Bolsa. “Ao olharmos a mediana de lucro de todas a empresas da bolsa, não víamos uma tendência tão boa desde 2011. O mercado está numa tendência de crescimento bem clara”, diz o gestor, para quem a alta do ano está condizente com a melhor dos lucros corporativos. “Quando a demanda real da economia voltar, ainda haverá bastante espaço para crescimento de lucro.”

Também em busca de uma carteira de ações diversificada e com uma rotatividade baixa de papéis, a Leblon Equities mostra otimismo parecido. “Temos uma visão super otimista para os próximos três a cinco anos, com uma perspectiva de crescimento com o juro seguindo baixo ou até menor que o patamar atual”, comenta Pedro Chermont, sócio fundador da Leblon Equities e cogestor dos fundos da casa.

Para ele, há uma euforia natural anterior à aprovação da reforma previdenciária, mas é importante que o mercado tenha a consciência de que o movimento não pode parar nesse ponto para estimular o desenvolvimento da Bolsa.

A gestora segue confiante no potencial de estatais, embora menos que no ano passado. Petrobras e Banco do Brasil respondem juntas por 15% das posições da casa, patamar que já chegou a 30%.

A busca recai sobre empresas de qualidade, tidas como vencedoras independentemente da performance da economia – entram nessa seara os papéis da Lojas Renner e B3.

E assim como outros gestores mencionaram, há uma demanda por companhias de menor capitalização, como Mills, em meio à retomada de investimento em infraestrutura e construção civil, um balanço considerado sólido e à aquisição da então concorrente Solaris. As ações da empresa acumulam alta de quase 40% em 2019.

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