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Por que Eneva está entre as preferências do mercado, mesmo após dobrar de preço em 12 meses?

Potencial de crescimento com a produção de energia em andamento e com novas descobertas são pontos a favor da empresa, cujas ações mais de 40% só em 2019

Eneva
(Divulgação)

SÃO PAULO – Derrocada do grupo EBX, desmoronamento da imagem de Eike Batista – que reinou como um dos principais empresários brasileiros durante bons anos –, dívidas acumuladas, ações que viraram pó. Quem diria que uma história recheada de fracassos envolvendo a antiga MPX, companhia de energia do conhecido “Império X”, poderia ter uma reviravolta e transformar as ações em uma das pérolas da Bolsa no momento? 

Este é o caso da Eneva (ENEV3), nome da antiga MPX desde 2013, que, depois de mudar de controle, saldar dívidas, passar por uma reestruturação financeira e fazer uma “nova” abertura de capital, vem conquistando um lugar cativo nas carteiras das mais diversas gestoras de fundos de ações e multimercados. Só para se ter uma ideia, os papéis da empresa estão no portfólio de 11 casas consultadas pelo InfoMoney.

Os números, ou melhor, os preços, provam o sucesso. Depois de ser vendida para a alemã E.ON em 2013, no auge dos problemas do grupo EBX, as ações da então MPX caíram naquele ano e em todos os seguintes até 2016, quando a recuperação, enfim, começou. Depois de avançarem 17%, em 2017, e 14%, em 2018, os papéis acumulam alta da ordem de 90% nos últimos 12 meses, com aumento de 58% somente em 2019.

eneva

Por que subiu... 

O ano de 2019 está propício para as elétricas. Enquanto Eneva dispara na Bolsa, ações de empresas como Engie (EGIE3) e Energias do Brasil (ENBR3) sobem 42% e 39%, respectivamente. 

Em relatório sobre o setor elétrico, a XP Investimentos pontuou, em maio, o risco-retorno atraente das companhias do segmento, citando perspectivas econômicas de longo prazo ainda positivas, bem como uma demanda futura por novos investimentos em geração, transmissão e distribuição. Mas o que levou as ações ENEV3 a se destacarem entre os pares?

A diminuição do risco da falta de estoque de gás da companhia e o início do projeto batizado de Parnaíba V (conhecido como "fechamento de ciclo"), que amplia a capacidade da termoelétrica sem aumento da queima de gás, foram apontados como as principais justificativas para a alta das ações por Fernando Sampaio, sócio responsável pelo setor de utilities da Brasil Capital. 

Sampaio destaca ainda a vitória da Eneva em leilão realizado no fim de maio para abastecimento de energia em Roraima, a partir do gás produzido pela empresa no campo de “Azulão”, no Amazonas. 

Demais argumentos incluem o aprimoramento operacional dos ativos a carvão e uma reestruturação societária da empresa, que, segundo Sampaio, reforçou a importância do aumento da liquidez dos papéis e gerou maior atratividade do ativo entre investidores.

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Eneva também está entre as maiores posições da Dahlia Capital, gestora que destaca os projetos em desenvolvimento da companhia, que têm permitido destravar cada vez mais valor de mercado. “A empresa fez a lição de casa, conseguiu recuperar sua capacidade de investir e o crescimento, e é uma boa geradora de caixa”, afirma Felipe Leal, sócio da Dahlia.

E por que pode subir mais? 

Além do potencial de crescimento da companhia com a produção de energia em andamento, os gestores destacam o aumento da capacidade com os leilões recentes dos quais a Eneva participou e o upside por meio de projetos ainda não emplacados.  

“A empresa tem uma exploração de gás e projetos importantes no setor a serem descobertos. Se a companhia achar mais gás, consegue estender os contratos atuais – e isso não está na conta do mercado”, afirma Sampaio, da Brasil Capital. 

ENEV3 está presente na carteira da Brasil Capital desde 2017, com uma posição aumentada ao longo do tempo. O limite para crescimento de participação, contudo, esbarra na ainda baixa liquidez dos papéis. 

“É uma empresa que negocia com um desconto positivo, com taxa interna de retorno de 11% real, enquanto os pares negociam com uma TIR entre 7% e 8%”, afirma Sampaio. A gestora tem preço-alvo de R$ 26,00 para as ações ao fim de 2019. 

Com Eneva como uma das cinco maiores posições da Velt Partners, Francisco Lara Resende, sócio-diretor da Velt, afirmou em maio que a companhia poderá se beneficiar do setor em que atua, na indústria térmica, explorando gás natural interno e gerando energia a um custo mais competitivo no mercado.  

“Oportunidades de crescimento não vão faltar”, disse Resende, durante a 12ª edição do congresso "Value Investing Brasil", ao reforçar que o papel poderá oferecer ganhos interessantes no longo prazo. 

Gustavo Heilberg, sócio da HIX Capital, é outro entusiasta de Eneva. Durante sua participação no podcast do InfoMoney “Stock Pickers”, ele destacou que a companhia está negociando a taxas de retorno extremamente atrativas.

“Tem um upside de preço, a empresa está comprando os fluxos de caixa garantidos por preços atrativos e ainda tem a opcionalidade de estar comprando uma companhia que tem provado a capacidade de criar valor para os acionistas através de novos projetos e da alocação de capital constante”, afirmou. 

Pedras no caminho 

Mesmo com a recuperação da Eneva e sua disparada na Bolsa nos últimos anos, Leal, da Dahlia, afirma que muitos investidores ainda associam a empresa ao passado no "grupo X", o que pode atuar como um entrave inicial. Mas, segundo ele, conforme as pessoas compreendem a história da companhia e passam a enxergar a possibilidade de crescimento, conseguem ver que a “arrumação da casa” foi bem-feita e que a diretoria está focada em conseguir bons retornos. 

Além disso, Eneva tem um negócio híbrido, uma vez que mistura a exploração e a produção de gás com a geração de energia (termoelétrica), o que pode gerar dúvidas para investidores com menor conhecimento do mercado. “Quem olha muito para o setor elétrico vê na exploração de gás algo muito arriscado. E quem acompanha petróleo e gás não entende o setor elétrico, como os leilões e as regulações”, afirma Leal. 

Conforme já apontado, a questão da liquidez também é citada como um dos principais entraves para os papéis, essencialmente para o aumento de posição de gestores. “Mas esse ponto tem melhorado, principalmente depois do follow-on deste ano", afirma Sampaio, da Brasil Capital. 

Segundo dados da Economatica, enquanto Eneva teve volume médio diário de negociações de ações de R$ 30,4 milhões nos últimos três meses, EDP girou R$ 46,6 milhões e Engie, R$ 61,4 milhões. 

Linha do tempo: MPX no passado

A história da Eneva no mercado de capitais remonta ao ano de 2007, quando a antecessora MPX estreou na Bolsa como uma empresa do então bilionário Eike Batista. Considerada a “joia da coroa” quando o império implodiu, a companhia elétrica passou rapidamente para as mãos da E.ON, no auge dos problemas do grupo EBX. 

A vida da empresa estrangeira não foi nada fácil, com problemas como o atraso na operação de usinas, que contribuíram para um balanço negativo em 2013, e dívidas elevadas, que levaram a elétrica a entrar com pedido de recuperação judicial em 2014. 

No ano seguinte, logo após receber um aumento de capital de R$ 2,3 bilhões, a Eneva passou por mudanças significativas em sua estrutura acionária, em que o BTG Pactual passou a deter 49,6% da empresa. Atualmente, tanto o BTG quanto a Cambuhy Investimentos detêm cerca de 23% cada da termoelétrica. 

O processo de RJ se estendeu até 2016, quando a companhia conseguiu renegociar as dívidas, reduzindo o montante de R$ 2,4 bilhões para R$ 1 bilhão, e fez uma reestruturação financeira. Foi naquela época, inclusive, que houve a fusão das áreas de energia e produção de gás, quando a Eneva passou a deter 100% da Parnaíba Gás Natural (PGN). 

Em 2017, visando captar recursos para destravar uma reestruturação fiscal e financeira, além de permitir uma redução dos custos de dívidas e impostos, a empresa de energia fez um “re-IPO”, captando R$ 835 milhões com uma nova oferta de ações e contribuindo para uma melhora da liquidez dos papéis. 

O “turnaround” da companhia, entretanto, só foi concluído em 2018, quando a Eneva conseguiu aumentar suas reservas de gás e vencer o Leilão de Energia Nova A-6, com o projeto termoelétrico Parnaíba V, no Maranhão. 

“Isso abriu os olhos de outros fundos, que passaram a aumentar a posição na companhia e a colocaram em um ciclo positivo, o que contribuiu para o aumento de preço e levou vários dos acionistas que tinham recebido a ação no processo de recuperação judicial a vender, aumentando a liquidez”, lembrou Heilberg, da HIX Capital.

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