A “vaca leiteira” secou? Dividendos da Petrobras dividem analistas após balanço

Saiba por que alguns especialistas estão preocupados com os proventos da estatal e quanto é possível ganhar com os repasses ainda em 2026

Leonardo Guimarães

Ativos mencionados na matéria

(Foto: Pedro Teixeira/Agência Brasil)
(Foto: Pedro Teixeira/Agência Brasil)

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O balanço da Petrobras (PETR3, PETR4) no primeiro trimestre agitou o mercado acionário brasileiro novamente. O resultado abaixo do esperado desanimou investidores e ajudou a derrubar o Ibovespa nesta terça-feira (12): a ação da estatal foi a mais indicada por corretoras para receber dividendos em maio, mas agora preocupa quem busca renda passiva em PETR4.

“O trimestre teve dois lados”, observa Rodrigo Caetano, gerente de investimentos no Sicredi Soma. “Pelo lado positivo, a Petrobras bateu recorde de produção própria”, mas ressalta que o lucro líquido de R$ 32,66 bilhões “precisa ser analisado com mais cuidado”, já que foi fortemente impactado pelo câmbio.

O principal alerta fica para o fluxo de caixa livre, que caiu quase 23%. O executivo conclui que “a empresa produziu mais, continuou lucrativa, mas sobrou menos caixa para dividendos”. 

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“O primeiro trimestre foi operacionalmente forte, mas financeiramente abaixo do que o mercado esperava em alguns pontos”, resume Ramiro Gomes Ferreira, cofundador do Clube do Valor ,destacando que o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) entregue pela petroleira ficou abaixo até das projeções mais conservadoras do mercado. 

Leia também: Ação da Petrobras cai após balaço do 1T; JPMorgan recomenda comprar na baixa

Preocupação com os dividendos

João Daronco, analista da Suno Research, afirma que não há um abalo nos fundamentos, mas “muito mais uma questão de frustração de expectativa; dado que a gente teve um trimestre com o preço do Brent bem elevado por conta do conflito, era esperado que a Petrobras pudesse gerar uma quantidade de caixa significativamente maior”.

Essa frustração de expectativas desaguou diretamente nas estimativas de dividendos da estatal. A empresa anunciou a distribuição de cerca de US$ 1,8 bilhão – ou R$ 9,03 bilhões –, valor abaixo do consenso de mercado, que apontava para algo próximo a US$ 2,4 bilhões.

Olhando para o futuro e para o plano de investimentos da estatal, Caetano adverte: “se petróleo, dólar ou eficiência não compensarem, os proventos podem continuar abaixo das expectativas”. Daronco faz coro a essa tese, lembrando que “com pressões dentro do fluxo de caixa livre, há uma diminuição da capacidade de pagar dividendos” e que projetar o futuro da companhia é complexo, pois “o longo prazo de uma empresa estatal muda a cada quatro anos.”

Dada a flutuação do petróleo, diretor-executivo Financeiro e de Relacionamento com Investidores, Fernando Melgarejo, afirmou em teleconferência com investidores nesta terça que, se existe uma possibilidade de pagar dividendos extraordinários neste ano, ela é muito baixa.

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Por outro lado, Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, pondera que o anúncio da véspera não é um desastre, argumentando que “o governo, o principal recebedor desses dividendos, também está precisando do dinheiro pra fechar suas contas, e para o investidor não é um dividendo ruim”. O que pesa mais, segundo Sant’Anna, é o investidor perceber que a empresa não repassará as margens no curto prazo, limitando a possibilidade de escalar os ganhos.

A Ibiuna também está mais otimista. Em entrevista ao InfoMoney antes do balanço, o gestor de renda variável da casa, André Lion, disse que um preço do petróleo estruturalmente mais alto, e que ainda não foi refletido no resultado, “muda completamente a história da Petrobras: a empresa volta a gerar muito caixa e pagar dividendos”. De olho na oportunidade, a gestora “aumentou bastante” a posição no papel.

Quanto é possível ganhar com os dividendos da Petrobras?

Para entender o retorno imediato, Régis Chinchila, analista de research da Terra Investimentos, simulou uma alocação inicial em papéis preferenciais da companhia. Considerando o preço do fechamento de segunda-feira (R$ 46,43) para PETR4, um investimento de R$ 1 mil permite a compra de aproximadamente 21 ações da empresa.

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Com a distribuição recém-anunciada de R$ 0,70097272 por ação, esse investidor terá direito a receber cerca de R$ 14,72 brutos em dividendos e juros sobre capital próprio (JCP). Esse valor representa um retorno bruto de aproximadamente 1,47% apenas com o anúncio desta remuneração específica.

Para ter direito aos proventos, o investidor precisa estar posicionado nas ações até o fechamento do pregão do dia 1º de junho. A partir do dia 2 de junho, as ações passarão a ser negociadas na condição “ex-direitos”. O depósito na conta da corretora ocorrerá de forma fracionada, em duas parcelas iguais: a primeira agendada para 20 de agosto e a segunda para 21 de setembro.

Apesar dos desafios operacionais, o potencial da Petrobras como uma “vaca leiteira” na distribuição de lucros continua forte. Expandindo o horizonte de simulação para o mesmo investimento de R$ 1 mil, Chinchila desenhou o acúmulo de capital do acionista com base nas estimativas de dividend yield (rendimento do dividendo) para os próximos anos.

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Considerando um yield projetado de 11% para 2026, o investidor embolsaria cerca de R$ 110 em proventos ao longo de um ano. Esticando o cenário para uma janela de três anos e somando as projeções até 2028, o montante acumulado chegaria perto de R$ 320.

O ganho se mostra ainda mais expressivo na simulação de cinco anos. Incorporando a projeção de 13,2% de yield para 2029 e assumindo uma média semelhante para os anos subsequentes, o acionista poderia acumular algo próximo de R$ 580 em pagamentos.

Vale ressaltar que a simulação foi feita em cima de projeções e considera que o investidor manterá o capital inicial de R$ 1 mil e não fará o reinvestimento dos dividendos recebidos para comprar novas cotas. 

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Vale a pena investir em PETR4 para dividendos?

Os analistas recomendam ajustes nas estratégias envolvendo a Petrobras. João Daronco acredita que a empresa está bem precificada e que não há motivos para tirá-la da carteira, mas pontua que “a oportunidade de compra já ficou para trás”.

Rodrigo Caetano aconselha o investidor a ajustar as expectativas: “acredito que a Petrobras continua operacionalmente muito forte, mas o foco em dividendos extraordinários pode estar ficando mais moderado”.

Mais cético em relação à estratégia de renda passiva, Ferreira alerta que “investir só por apostar na média de payout (parte do lucro líquido distribuído aos acionistas) recente dos últimos anos pode ser uma estratégia muito arriscada”. Ele defende que, ao filtrar as melhores pagadoras da Bolsa de forma sistemática e ponderada, a petroleira não figura mais no topo das opções.

Contudo, Felipe Sant’Anna mantém uma visão favorável para o papel, desde que o investidor aceite os riscos embutidos. “(A ação da Petrobras) ainda vale como renda passiva, é uma boa pagadora de dividendos, uma empresa sólida, perene e está no top 5 papéis para exposição no Brasil”.