25 ações dominam os fundos de dividendos – mas algumas estão longe de ser boas pagadoras; veja lista

Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4) se destacam entre as maiores posições, enquanto Lojas Renner (LREN3) e BTG (BPAC11) aparecem como apostas para futuro

Mariana Segala

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Um grupo formado por 25 ações domina as carteiras dos fundos de dividendos. Entre elas, estão empresas tradicionais na distribuição de proventos, como as companhias do setor elétrico CPFL Energia (CPFE3), Engie (EGIE3) e Cemig (CMIG4). Há ainda companhias de commodities, recém-promovidas ao posto de destaques em dividendos, como Petrobras (PETR4).

Mas também constam entre as preferências dos gestores empresas que estão longe de ser vistas como boas pagadoras de dividendos. É o caso de Lojas Renner (LREN3), BTG Pactual (BPAC11) e outras.

A lista de ações mais representativas nas carteiras dos fundos de dividendos foi elaborada pela Economatica, a pedido do InfoMoney. Os dados se referem a 61 fundos identificados nessa categoria. As posições são as que os fundos possuíam em maio de 2022, as mais recentes disponíveis (as gestoras têm prazo de até 90 dias para informar à CVM a composição de suas carteiras). O levantamento considerou tanto fundos disponíveis para os investidores em geral quanto fundos exclusivos – em geral, voltados para fundações de previdência complementar.

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Confira a lista completa abaixo:

Ação Ticker Dividend yield em 5 anos (mediana em % ao ano) Posição dos fundos de dividendos na ação (R$ mil)* Nº de fundos de dividendos com o papel na carteira
Vale ON VALE3 8,18 695.306 27
Petrobras PN PETR4 4,36 595.076 23
Itaú Unibanco PN ITUB4 3,49 488.230 18
B3 ON B3SA3 4,12 253.798 22
Bradespar PN BRAP4 8,88 240.278 15
Telefônica Brasil ON VIVT3 7,63 225.505 24
Banco do Brasil ON BBAS3 5,99 222.022 25
Lojas Renner ON LREN3 1,17 214.655 17
Itausa PN ITSA4 5,44 209.725 18
Bradesco PN BBDC4 3,55 204.597 21
Equatorial ON EQTL3 1,99 183.077 17
Klabin Unit KLBN11 3,26 180.814 9
Vibra Energia ON VBBR3 7,27 169.975 22
Energisa Unit ENGI11 3,31 163.835 14
Eletrobras PNB ELET6 4,56 148.262 10
Bradesco ON BBDC3 3,62 148.034 11
BTG Pactual Unit BPAC11 2,32 143.019 34
Gerdau PN GGBR4 2,47 125.924 19
BB Seguridade ON BBSE3 7,81 124.673 21
Weg ON WEGE3 1,67 122.361 12
Cemig PN CMIG4 6,03 118.997 15
CPFL Energia ON CPFE3 5,67 113.694 16
Engie Brasil ON EGIE3 5,91 106.349 18
Ferbasa PN FESA4 7,17 105.093 6
Tupy ON TUPY3 1,40 99.523 4

Fonte: Economatica. Considera a posição dos fundos de dividendos em maio de 2022. Dividend yield calculado até 24/10/2022.

O destaque absoluto fica com as ações da Vale, que somavam uma posição total de R$ 695 milhões mantida pelos fundos de dividendos. Os papéis da mineradora são seguidos pelos da Petrobras, que respondiam por uma posição de R$ 595 milhões. Além de somarem um valor financeiro elevado, elas também estão disseminadas entre os fundos: 27 carteiras possuem VALE3 e 23 têm PETR4.

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Não por acaso, ambas são as ações com maior peso na composição do Idiv, índice da B3 que reúne os papéis das empresas com maior pagamento de dividendos nos últimos anos. Juntos, eles representam 12,5% do indicador. Se somadas as ações ordinárias da Petrobras, o número passa de 17%.

As tradicionais empresas do setor elétrico também aparecem na lista, mas com bem menos destaque, assim como algumas small caps tidas como boas pagadoras, caso de Ferbasa (FESA4), que explora ferro-ligas, e Tupy (TUPY3), metalúrgica que fabrica componentes para a indústria automotiva.

Commodities na carteira

Embora estejam distribuindo dividendos polpudos atualmente – VALE3 tem um dos mais altos dividend yields (taxa de retorno com dividendos) dentre as 25 ações identificadas e Petrobras se tornou a maior pagadora de proventos do mundo no segundo trimestre deste ano – alguns analistas questionam se produtoras de commodities são boas alternativas para estratégias focadas em dividendos no longo prazo. Isso porque se trata de um setor cíclico, que ora se beneficia dos preços em alta das matérias-primas nos mercados – e ora sofrem com a queda das cotações.

Rogério Poppe, CEO da ARX, gestora que tem o fundo de dividendos ARX Income, explica que a análise envolve tanto os aspectos macroeconômicos quanto também os micro, relacionados à situação específica de cada ação considerada para entrar no portfólio.

“Tínhamos uma posição na Vale no passado, que reduzimos em 2016, porque a demanda por minério de ferro havia piorado e havia muita produção no mundo por conta do boom de demanda verificado em 2007 e 2008, que levou muitas empresas a investir na exploração”, explica. Entre o fim de 2019 e o início de 2020, no entanto, o fundo voltou a ampliar a exposição à mineradora, dado que a demanda pela matéria-prima dava sinais de recuperação.

Os reflexos do movimento apareceram nas curvas de preços internacionais. O minério de ferro avançou paulatinamente ao longo de 2021, dados os estímulos econômicos lançados por vários países para superar os efeitos da pandemia de coronavírus, até atingir um recorde acima de US$ 200 por tonelada em junho do ano passado. Empresas como a Vale se beneficiaram.

O cenário, neste ano, é diferente, ressalta Poppe. Com a esperada desaceleração da economia da China, que luta para atingir a meta de crescimento de 5,5% estabelecida pelo governo para 2022, o maior consumidor de minério do mundo deve demandar menos o produto. Os preços já baixaram para a casa dos US$ 95 atualmente.

“Hoje temos a ação porque, embora o macro esteja pior, o micro da Vale é bom. No Brasil, o custo de produção é baixo, então qualquer dinâmica favorável para o setor se torna muito positiva para as empresas”, avalia. Nos últimos cinco anos, o dividend yield mediano da mineradora superou 8% ao ano, segundo os dados da Economatica.

Estranhos no ninho

Poppe ressalta que muitos fundos de dividendos adotam como o dividend yield métrica preferencial, senão única, para realizar a seleção das ações que entram na carteira – o que, em sua visão, é um problema. “O fundo pode acabar exposto excessivamente a um setor só”, diz. É o caso das companhias do setor elétrico. Alguns dos dividend yields elevados dentre os papéis mais presentes nos fundos são de empresas deste setor. Pudera: trata-se de companhias robustas e que demandam pouco investimento. O caixa sobra para ser distribuído aos acionistas.

A concentração, no entanto, é um problema quando o inesperado acontece. As sucessivas crises hídricas da última década abalaram as ações do setor todas de uma vez, assim como mudanças regulatórias – a exemplo da renovação antecipada das concessões estabelecida pela ex-presidente Dilma Rousseff em 2012.

Por isso, gestores como Poppe olham não apenas para o histórico ou o pagamento atual de dividendos pelas empresas, mas também para a perspectiva de geração de caixa das companhias no futuro. “Se a empresa está crescendo e consumindo caixa agora, mas tem potencial de parar de crescer e continuar gerando caixa no futuro, pode nos interessar”, explica.

Essa é a lógica para o fundo da ARX – e outras 33 carteiras consideradas no levantamento da Economatica – estar investindo nas ações do banco BTG Pactual, por exemplo. Nos últimos cinco anos, o dividend yield da instituição foi de apenas 2,3% ao ano, considerado baixo perto de outras empresas. Mas há uma explicação. “O BTG está num ciclo de investimento forte, aumentando exposição ao varejo, criando iniciativas digitais”, diz Poppe. Desde o ano passado, a cotação do papel caiu para patamares atrativos, na visão do gestor. “Para frente, vemos que o banco tem uma capacidade grande de geração de caixa, está desalavancado na comparação com os bancos tradicionais e tem oportunidade para crescer na carteira de crédito sem necessidade de capital novo”, diz.

Os papéis também estão na carteira do fundo de dividendos da BB Asset, assim como os de Lojas Renner – que não é um player de dividendos clássico, admite Marcelo Collaço, gestor de fundos de ações. “Estamos no fim do ciclo de alta dos juros, a inflação está mais controlada no Brasil, enquanto há perspectiva de recessão na Europa”, diz. “A expectativa global é mais negativa, enquanto para o Brasil, está mais positiva. Queremos pinçar alguns papéis voltados para o ciclo doméstico brasileiro, e é aí que entra o consumo e o varejo, mas ativos de qualidade”.

Na visão de Collaço, esse é o caso das ações da Renner. O dividend yield não é alto (de 1,17% na mediana dos últimos cinco anos, o menor da amostra levantada pela Economatica), mas a execução da estratégia da empresa é considerada boa e o potencial de geração de caixa, também – ao contrário das companhias de e-commerce, que poderiam ser alternativas no varejo. “Na composição do fundo, buscamos o tema central, que são os dividendos, mas também procuramos agregar ações que possam trazer upside [ganho de capital]”.

As menos populares – mas não menos interessantes

Para alguns gestores, algumas das opções mais interessantes de ações com boas perspectivas de dividendos não constam entre as ações mais populares entre os fundos dedicados.

É o caso dos papéis da TIM TIMS3) e da Alupar (ALUP11), segundo Fernando Luiz, gestor da Trópico Investimentos, que também possui um fundo de dividendos. “Não temos principais apostas na carteira, normalmente investimos em 15 a 20 papéis, mas gosto muito das duas”, diz o gestor.

A TIM ainda deve colher os frutos da compra, em conjunto com a Claro e a Vivo, dos ativos de telefonia móvel vendidos pela Oi, acertada há pouco menos de dois anos. “A operação reorganizou o mercado e vai fazer as três operadoras ganharem muito mais do que antes”, avalia. Luiz projeta que a margem Ebitda (que reflete a geração de caixa operacional da empresa) passe dos atuais 22% para 29% como resultado da aquisição.

“A empresa tem por regra pagar aproximadamente R$ 2 bilhões em dividendos por ano, e já tem R$ 6 bilhões separados para isso”, afirma o gestor. Não se sabe quando a distribuição acontecerá, mas dado que o controlador da empresa (a Telecom Italia) provavelmente demandará recursos dada a recessão prevista na Europa, é de se esperar que haja um estímulo ao pagamento de proventos.

A Alupar, por sua vez, atua no segmento de transmissão de energia, que é regulado e tem receita previsível. “A empresa já tem todas as linhas de transmissão construídas, os leilões [de compra de energia] estão avançados. A partir deste ano, ela já está pagando mais dividendos”, diz Luiz, prevendo um dividend yield na faixa de 12% para as ações nos próximos anos.

Mariana Segala

Editora-executiva do InfoMoney