Recuperação será lenta, mas vai acontecer

Viagens nacionais, embarque em setembro e promoções de risco: as tendências do turismo no pós-pandemia

Quando e como voltaremos a viajar? CEO da Latam e especialistas debatem o futuro do turismo na Expert 2020

Avião sobrevoa o Rio de Janeiro
(Getty Images/InfoMoney)

SÃO PAULO – Não é novidade que o turismo está entre os setores mais gravemente afetados pela pandemia. Pessoas em casa, fronteiras bloqueadas, menos viagens, locais de lazer fechados. E a dúvida que paira no ar é: quando e como as viagens serão retomadas?

Apesar da incerteza sobre o momento em que as viagens vão voltar a acontecer com mais frequência, Jerome Cadier, presidente da Latam Airlines Brasil, acredita que a retomada vai começar pelos destinos nacionais.

“Vamos sentir a demanda doméstica se recuperar mais rápido, mas esperamos uma retomada longa para o setor da aviação”, afirmou o executivo durante o painel “Retomada do turismo: qual o perfil do viajante no ‘novo normal’ e para onde ele vai”, realizado nesta terça-feira (14), durante a Expert XP 2020, conferência anual de investimentos organizada pela XP Inc.

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Segundo ele, em 2019 o país registrou cerca de 100 milhões de passageiros. “Só vamos alcançar novamente esse número daqui a uns dois ou três anos. O mercado todo deve se reprimir e se recuperar apenas em 2022 ou 2023”, acrescentou.

De fato, o baque no setor mostra que a recuperação não será simples. Segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), a demanda global por passagens aéreas caiu 91,3% em maio, em relação ao mesmo mês de 2019. O tráfego doméstico caiu menos, mas o tombo também foi feio: uma baixa de 79,2% no mesmo intervalo de comparação.

Lala Rebelo, jornalista e blogueira de viagens, também participou do painel e observa que o principal temor dos brasileiros neste momento é entrar em um avião. “Há um medo em ficar no espaço fechado com muitas pessoas. Por isso, a tendência é que a retomada aconteça com viagens de carro e destinos nacionais”, explica.

O terceiro convidado do painel, Ricardo Freire, autor de livros sobre turismo e fundador do blog Viaje na Viagem, ressalta que não há uma resposta sobre “quando”.

“Se continuarmos em ritmo de reabertura, é provável que em setembro as pessoas já retomem as viagens, para aproveitar os feriados nacionais. Há alguns dias em outubro e novembro também. Em janeiro a retomada deve acontecer de forma mais clara, já que quem tiver férias e renda vai aproveitar”, disse Freire.

Lala ressalta que planejar uma viagem agora beira o impossível. “Mas o segredo é estar preparado para a mudança de planos. A viagem pode ser cancelada, o dólar está alto, a fronteira pode abrir ou fechar. É um cenário de pandemia. Não tem como ter uma vida planejada”, diz.

Freire é objetivo na dica para o consumidor. “Não compre nenhuma viagem que não possa ser adiada ou cancelada sem custo e acompanhe a evolução da pandemia em cada região, que é fundamental para definir os locais para os quais poderemos viajar”, explica.

Para quem quiser arriscar uma compra, diante de um desconto agressivo, ele ressalta que é preciso ter em mente que o dinheiro pode ser 100% perdido. “Esses dias um leitor disse que conseguiu uma passagem para Nova York, no ano que vem, por US$ 150. Você só deve comprar se for um dinheiro que não vai fazer falta. É como um investimento de alto risco, o valor é baixo, mas pode ser todo perdido.”

Novos destinos

Cadier comentou como o perfil do cliente mudou durante a crise. “Hoje 70% dos passageiros que estão voando para destinos domésticos compraram a passagem 15 dias antes do embarque. Antes, o percentual era de 30%. Ninguém está pensando em voar daqui a seis meses”.

Freire acredita que as restrições a viagens internacionais podem ser vistas como uma oportunidade para o brasileiro. “O turismo vai se remodelar. Estamos em uma situação nova e, de certa maneira, trancados no Brasil. E todo brasileiro tem um déficit de viagens nacionais muito alto. Se tem o costume de viajar, foi muito menos para destinos brasileiros do que para internacionais”, diz.

Segundo ele, desde da época em que o dólar era cotado a R$ 1,50, muitos brasileiros começaram a viajar para fora com mais facilidade. “Conhecer destinos nacionais passou a ser algo visto como um ‘prêmio de consolação’ para quem não poderia ir para o exterior”, afirma.

Ele diz que a resistência às viagens nacionais decorre da falta de incentivos ao turismo regional por parte do governo, mas também por uma questão de falsos parâmetros.

“As comparações de preço são feitas entre a alta temporada aqui e baixa temporada lá fora, por exemplo. Comparando uma viagem de Ano Novo para a Praia do Forte, na Bahia, com a mesma data em um resort em Paris: a viagem internacional sai mais barata, mas qual brasileiro quer encarar o frio de Paris no réveillon?”, explica.

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Lala concorda que há uma preferência por viagens internacionais. “Quando faço pesquisas, as pessoas dizem, por exemplo, que com o valor de uma viagem a Fernando de Noronha é possível conhecer a Grécia. Mas o destino não precisa custar menos por estar no Brasil, ele vai ter o preço compatível com o que oferece. A desvalorização dos destinos nacionais é forte, mas com a pandemia essa tendência pode mudar”.

Recuperação judicial da Latam 

Na última semana, a Latam Brasil entrou com o pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos, processo que na legislação americana é chamado de “Chapter 11”. Com o instrumento, a empresa ganha condições especiais de negociação com credores para evitar a falência.

O InfoMoney mostrou como ficam as passagens compradas e milhas acumuladas. Ainda que especialistas apontem riscos, a Latam emitiu uma nota dizendo que o passageiro não precisa se preocupar.

Durante o painel, Cadier reiterou que os passageiros não vão enfrentar problemas, assim como os clientes da Avianca Brasil, que entrou com o pedido de recuperação judicial no fim de 2018 e decretou falência em maio deste ano.

“Tudo segue igual e o passageiro não será prejudicado. O que aconteceu com a Avianca é diferente porque a recuperação judicial da empresa começou antes da crise. Agora estamos enfrentando uma pandemia e todas as companhias estão sofrendo com queda de receita”, explicou, reforçando que credores e governos estão mais abertos a socorrer as empresas agora.

Segundo ele, a Latam e suas concorrentes, entraram em 2020 saudáveis, com operações crescentes e com expectativas positivas – e todas foram pegas de surpresa com a chegada do coronavírus. “Entramos com pedido de Chapter 11 que nos traz outro tipo de garantia futura enquanto negociamos dívidas do passado”, afirma.

Reabertura da Disney

Outro assunto que chamou atenção em meio às notícias sobre turismo foi a reabertura dos parques temáticos da Disney, em Orlando, na Flórida, no último final de semana.

Após quatro meses fechados, o Magic Kingdom e o Animal Kingdom abriram suas portas, mesmo diante do aumento de casos de coronavírus nos Estados Unidos e, especialmente, na região. No domingo (12), um dia após a reabertura dos parques, a Florida registou 15.300 novos casos de Covid-19 em 24 horas, o maior número de infecções diárias confirmadas por um estado americano, superando nova York.

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Apesar de ressaltar que os complexos adotaram medidas de segurança – entre vendas de ingresso exclusivamente online, distanciamento nas filas, obrigatoriedade no uso de máscaras e outras – Ricardo Freire avalia que a reabertura é temerosa. “Precisamos ver o que vai resultar desse experimento. Eu acho uma maluquice. A pandemia chegou mais tarde na Flórida, tinha que baixar a curva para retomar”.

Lala Rabelo comentou que a preocupação é ainda maior entre os pais. “Para a família também não é uma experiência legal, como mãe você fica preocupada o tempo todo se a criança encostou em alguma coisa, se lavou a mão”, diz.

Segurança nas aeronaves

As preocupações com as medidas sanitárias nos voos também foi debatida. Cadier comentou que a Latam mudou muitos protocolos após a chegada da pandemia, adotando espaçamento maior de filas no aeroporto, despacho de bagagens com menor contato e aprimoramento do processo de check-in online.

As mudanças também foram significativas em relação às medidas de higiene adotadas no interior do avião. “Dobramos e aprofundamos os protocolos das aeronaves, limpamos mais vezes, repensamos a conduta da tripulação e o contato entre tripulantes e passageiros e disponibilizamos mais álcool em gel, por exemplo”, disse o presidente da Latam Brasil.

Cadier acrescentou que as companhias aéreas estão buscando tecnologias para aumentar a segurança na viagem, mencionando, por exemplo, o filtro hepa, que é capaz de reter vírus e bactérias presentes no ar.

Segundo ele, mesmo sendo um ambiente fechado, o ar dentro das aeronaves circula constantemente. Cadier explicou que boa parte da ventilação do sistema de ar-condicionado é captada do ambiente externo e passa pelo filtro de ar hepa. “O ar interno do avião é renovado cada três minutos, em média”, completou Cadier.

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