Estratégia

Semenzato: como seu império de franquias se adaptou à pandemia e pretende faturar R$ 3,3 bilhões em 2020

José Carlos Semenzato é presidente do conselho da SMZTO, holding com mais de 2.550 franquias de marcas como Embelleze, Espaçolaser e L'Entrecóte de Paris

José Carlos Semenzato, presidente do conselho de administração da SMZTO (Divulgação)

SÃO PAULO – José Carlos Semenzato completará 30 anos de carreira empreendedora no próximo ano. A experiência se traduziu em escala: o que começou com uma escola de computação virou uma holding de marcas franqueadoras. A SMZTO reúne 13 empresas, mais de 2.550 lojas em operação e um faturamento projetado de R$ 3,3 bilhões em 2020.

Semenzato hoje é o presidente do conselho de administração da SMZTO. Em entrevista ao InfoMoney, o empreendedor e investidor detalhou sua trajetória, como a holding mudou sua estratégia ao longo dos anos e como as franquias investidas enfrentaram um ano marcado por estabelecimentos de portas fechadas. “A pandemia foi devastadora, mas trouxe oportunidades e aceleramos com elas”, afirma Semenzato.

Da venda de coxinhas a uma holding de franquias bilionária

Semenzato criou sua primeira empresa em 1991 – a Microlins, rede de capacitação profissional voltada a jovens de baixa renda. Esse negócio surgiu após anos de experiências empreendedoras: Semenzato começou a vender coxinhas quando tinha 12 anos de idade, na cidade de Lins, no interior de São Paulo. Aos 15 anos, começou a trabalhar como copiador de documentos (xerox).

A copiadora abriu espaço para a ideia de realizar um curso técnico de processamento de dados. Semenzato terminou o curso por volta dos 17 anos de idade, quando foi chamado para se tornar professor na disciplina de computação. Aos 23 anos, finalmente fundou a Microlins.

“Algo gritava em mim para fazer networking, empreender, encantar o cliente. Percebi que eu tinha uma prestação de serviço e uma venda diferenciada”, diz o empreendedor.

A Microlins entrou no modelo de franquias em 1994. A decisão se provou acertada e a companhia foi além do ensino da computação, tornando-se uma grande rede profissionalizante.

Em 2008, Semenzato fechou a venda de 30% das ações da Microlins para o grupo educacional Anhanguera, então controlado pelo Pátria Investimentos. Em 2010, Semenzato vendeu a Microlins por R$ 110 milhões ao Grupo Multi. A Microlins tinha 750 unidades franqueadas na época, atendendo 500 mil alunos.

“Depois que assinamos a entrega das ações, fui para uma sala com um dos sócios do Pátria, o Daniel Sorrentino. Chorei durante uns sete minutos. Mas foi a única vez que chorei. Depois, olhava a conta bancária e esquecia de chorar na hora (risos)”, conta Semenzato. “Essa foi uma prova de libertação, de que eu nunca mais criaria empresas para ficar com elas indefinidamente. Eu era um acelerador de negócios.”

Semenzato usou os recursos com a venda da Microlins para criar uma holding de franquias, batizada de SMZTO, também em 2010. A SMZTO começou com o Instituto Embelleze, rede de capacitação profissional em beleza fundada por Semenzato e hoje com mais de 350 unidades.

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No mesmo ano, o empreendedor investiu em uma clínica chamada OdontoCompany, de São José do Rio Preto. “Havia um sócio apaixonado pelo negócio, pelos processos, pelo modelo de negócio sustentável e potencial de escalabilidade. Vi uma futura Microlins ou Embelleze. Foi copiar e colar a estratégia que tinha com essas duas redes, porque os públicos eram parecidos, apesar dos setores serem diferentes”, diz Semenzato. Hoje, a OdontoCompany é uma rede de franquias e tem mais de 800 unidades.

A SMZTO tem participação em 13 marcas franqueadoras atualmente. Além de Embelleze e OdontoCompany, são nomes como Casa X, Espaçolaser, L’Entrecóte de Paris e Oakberry.

Private equity e tecnologia: nova SMZTO

Com mais de 560 unidades, a Espaçolaser é a primeira marca do grupo a preparar uma oferta pública inicial de ações. A marca de depilação protocolou seu pedido de IPO na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em novembro deste ano. A SMZTO investiu na Espaçolaser em 2015, quando a rede tinha 35 unidades.

A decisão foi um ponto de virada na estratégia na holding, diz Semenzato. A SMZTO decidiu entrar em negócios mais maduros, que precisavam de algumas mudanças em governança e em estratégia para escalar. O modelo se aproxima ao dos fundos de private equity.

Semenzato olha para negócios feitos por um sócio “apaixonado e com propósito”, inseridos em setores em voga e com cerca de 20 a 30 unidades em operação. Outra condição é um EBITDA (lucro antes de juros, impostos depreciação e amortização) acima de R$ 3 milhões por ano. Segundo Semenzato, a partir desse patamar, a avaliação de mercado (valuation) da empresa pode ser de entre cinco e sete vezes o valor de seu EBITDA.

“Nos quatro primeiros anos da holding, eu achava que era mais barato e fácil e criar uma empresa do zero. Fundei a Microlins e a Embelleze com muito trabalho e expertise em aglutinar pessoas. Esses negócios cresceram e viraram impérios com quase zero investimento. Mas essas foram exceções. Aos poucos, estamos virando nossa chave para o private equity”, diz Semenzato.

A SMZTO começou a captar investimentos externos. Criou um fundo de investimento em participações (FIP), veículo usado por fundos de venture capital e private equity (saiba mais sobre essa aplicação financeira).

O FIP da SMZTO foi aberto apenas para investidores qualificados (que têm patrimônio investido maior ou igual a R$ 1 milhão, ou um certificado). “É o perfil de quem pode esperar de cinco a sete anos pelo retorno do seu investimento e tem ciência de que private equity é para médio a longo prazo. Queremos entrar com uma rentabilidade acima de 30% ao ano, e para isso precisamos de tempo”, diz Semenzato.

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Esse FIP terminou sua captação em janeiro deste ano e tem patrimônio de R$ 50 milhões, metade colocado pela própria holding. “Atrair mais investidores dobrou nosso capital. Assim, temos mais diversidade de investimentos e mitigamos nosso risco”, completa o empreendedor. O maior volume de capital também permite assinar cheques maiores. A SMZTO agora faz investimentos entre R$ 5 milhões e R$ 20 milhões por negócio, em troca de participações entre 25% e 30%. A ideia é aplicar todos os recursos do FIP até o meio de 2021.

Um segundo FIP deve ser aberto já no começo do próximo ano, com captação estimada em R$ 300 milhões. Se concretizado, o segundo FIP permitirá novamente aumentar os valores de cheque, que ficariam de R$ 20 milhões a R$ 50 milhões por negócio.

“A mudança eleva ainda mais nosso alvo para empresas maiores. Mais geração de caixa, potencial de escalabilidade e necessidade de governança. Criamos valor nessas áreas, com base na nossa experiência”, diz Semenzato.

Além de empresas cada vez mais maduras, outro interesse de Semenzato está em tecnologia. O empreendedor já investe no setor como pessoa física, a partir do reality show de investimento anjo Shark Tank. “Surgem oportunidades por lá que podem virar um investimento de private equity daqui a dois ou três anos. O venture capital fica como uma incubadora de bons negócios, sedimentando a viabilidade deles”, diz Semenzato.

O investimento em tecnologia não exclui a tradição em franquias, na visão do empreendedor e investidor. “Segmentos como comércio eletrônico e marketplaces andam lado a lado com o franqueamento”, exemplifica.

Assim, a SMZTO espera ampliar seu mix de investimentos e começar a aportar em negócios de tecnologia a partir do ano que vem. Esse mesmo movimento já foi realizado por fundos de private equity internacionais, como General Atlantic (Gympass, Quinto Andar), L Catterton (OdontoCompany, Petlove) e Warburg Pincus (Take).

Adaptação de franquias à pandemia

Captação prévia de recursos, aposta em empresas maduras e interesse em tecnologia foram fundamentais para a SMZTO passar pela pandemia. “Em janeiro deste ano, tínhamos caixa e mandato para comprar empresas. A pandemia chegou na penúltima semana de março e nos pegou quando estávamos capitalizados. Foi um pouco de sorte e um pouco de planejamento. Temos sempre um evento de liquidez no planejamento, que garanta caixa para a holding”, diz Semenzato. “A capitalização permitiu que a gente enfrentasse o pico da pandemia com uma cabeça mais preparada, pronta para uma eventual perda de caixa nos próximos seis meses.”

O empreendedor afirma que a SMZTO está presente no conselho de administração das 13 marcas investidas. As marcas decidiram praticar rápido a transformação digital.

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As redes profissionalizantes Embelleze e Instituto Gourmet passaram a dar aulas online e conseguiram reter as mensalidades de 60% dos alunos, diz Semenzato. A Espaçolaser adotou contatos pelo mensageiro WhatsApp, com foco em venda dos serviços de depilação para quando os shoppings reabrissem as portas. Segundo o empreendedor, a marca conseguiu vender 40% do esperado nos piores meses da pandemia. Já o L’Entrecóte de Paris lançou um formato de restaurante focado no delivery.

A SMZTO voltou a investir em novos negócios recentemente. Em novembro, comprou mais uma fatia da Oakberry, rede de franquias de açaí que está com 210 unidades. No começo de dezembro, anunciou um investimento na Terça da Serra, rede de franquias residenciais para idosos com 70 unidades em operação. A rede tem 70 contratos de franquias assinados, com 35 inaugurações para as próximas semanas e outros 35 negócios em montagem.

No começo de 2021, a SMZTO deve anunciar dois novos investimentos em redes franqueadas. A holding concentra mais de 2.550 franquias em operação hoje, com vendas totais em R$ 3,3 bilhões neste ano. O faturamento havia sido de R$ 2,4 bilhões em 2019.

O plano é chegar a 3.300 franquias em operação e R$ 4,5 bilhões em vendas totais em 2021. “Essas são projeções com base no nosso estoque de 13 marcas. Não estamos contando novas aquisições”, diz Semenzato.

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