Micro venture capital

Por que a Bossanova Investimentos está em busca de um portfólio com 1.000 startups

Fundo de capital de risco defende uma tese de diversificação extrema e pouco sobre os negócios escaláveis, inovadores e tecnológicos na carteira

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João Kepler, da Bossanova Investimentos (Foto: Salvi Cruz/Divulgação)
João Kepler, da Bossanova Investimentos (Foto: Salvi Cruz/Divulgação)

SÃO PAULO – Faz seis anos que a Bossanova Investimentos está tentando preencher uma lacuna de dinheiro para as startups brasileiras: o “vale da morte” enfrentado pelos empreendedores entre receber capital de pessoas físicas e obter o primeiro cheque de uma instituição de investimentos.

O fundo categorizado como micro venture capital têm distribuído investimentos de R$ 100 mil e R$ 500 mil entre diversos negócios escaláveis, inovadores e tecnológicos – mais especificamente, foram 750 cheques.

O InfoMoney conversou com João Kepler, cofundador da Bossanova, para entender a tese de diversificação extrema e pouco controle sobre as startups do portfólio. A meta da Bossanova é ambiciosa: chegar a 1.000 startups na carteira até o final de 2022.

Bossanova Investimentos: diversificação extrema e pouco controle

A Bossanova foi criada em 2015 por João Kepler e Pierre Schurmann. Os investidores-anjos uniram seus portfólios de startups na pessoa física para criar o fundo de micro venture capital, com um acumulado de 50 empreendimentos. No final de 2016, já tinham 100 negócios na carteira.

O objetivo do fundo é investir no estágio pré semente (ou pré seed). Ou seja: a startup pode já ter captado dinheiro com anjos, mas ainda não obteve um aporte semente ou uma rodada série A. A Bossanova investe entre R$ 100 mil e R$ 500 mil por empreendimento.

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Em 2017, a Bossanova passou a formar uma rede de anjos, family offices e investidores qualificados e profissionais. Abriu um fundo de investimento em participações (FIPs) de R$ 100 milhões. Mesmo assim, os cheques por startup continuam entre R$ 100 mil e R$ 500 mil.

Kepler cita um estudo realizado pela plataforma americana AngelList com 10.000 portfólios para defender que carteiras maiores e mais variadas de startups geram performances melhores. “A diversificação pode compensar as perdas líquidas da maioria das startups com exposição a poucos vencedores”, diz. “Nós também pensamos em termos de impacto social, já que dividir investimentos em mais empresas também se traduz em mais sonhos realizados.”

Algumas das condições para investir nesses empreendimentos são ao menos 18 meses de operação e uma receita recorrente mensal de R$ 30 mil. A Bossanova já realizou mais de 750 aportes, incluindo rodadas subsequentes em startups já investidas.

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O fundo acumula 26 exits – eventos que geram liquidez aos investidores e retorno ao caixa da Bossanova. Também divulga uma performance histórica não realizada de 24,4% ao ano. Essa é uma taxa interna de retorno, que considera todo o portfólio e inclusive avaliações feitas em rodadas de investimentos, ou seja, antes de eventos de liquidez.

Com mais startups, também fica mais difícil dar atenção aos problemas de cada uma. “Os fundos de venture capital comuns fazem cheques maiores para menos empresas, exigindo um pouco de controle sobre a operação”, afirma Kepler. A Bossanova não se considera como uma aceleradora de startups, colocando a mão na massa para transformar negócios.

Mesmo assim, como forma de prestar assessoria às startups, o fundo organiza treinamentos e intermedeia a troca de mensagens entre startups e a rede de investidores do fundo. Essa rede é dividida em setores de atuação, como educação e saúde. Kepler também afirma que a Bossanova oferece pacote de benefícios de terceiros, como hospedagem na nuvem, e elabora relatórios para avaliar o desempenho do portfólio com frequência.

Um exemplo internacional de micro venture capital é o fundo SV Angel. A base de dados Crunchbase indica que o SV Angel realizou 952 investimentos e obteve 348 exits.

Crescimento do micro venture capital: como chegar a 1.000 startups

A Bossanova tem atualmente um grupo com 200 anjos, que vão de empresários e empreendedores já investidos pelo fundo até investidores qualificados e profissionais. Alguns sócios empresariais são o Banco CMG e o Grupo Primo, liderado por Thiago Nigro.

Neste ano, a Bossanova lançou cédulas de crédito bancário. Os CCBs totalizaram captações de R$ 7 milhões, com 800 investidores. “São empresários que têm uma farmácia ou posto de gasolina e querem entrar no mundo digital, por exemplo. Ou profissionais liberais, como consultores e empreendedores nas próprias startups”, diz Kepler.

Nessa modalidade, cada investidor compra um título de renda fixa que serve como uma promessa de pagamento decorrente de uma operação de crédito. Ou seja, a Bossanova recebe uma espécie de antecipação de recebíveis. A base para esses recebíveis é uma seleção de startups já investidas. A base para o CCB será completada com novas startups, chegando a 45 empreendimentos na cesta do título.

A tributação é a mesma de outros títulos de renda fixa: segue a tabela regressiva do Imposto de Renda, variando de 22,5% a 15%. O risco de crédito é associado ao emissor do CCB, a própria Bossanova. A fintech Inco atua correspondente bancária e também fornece plataforma, tecnologia e regulação jurídica para a operação de crédito.

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O público desses CCBs não é o mesmo do grupo de 200 anjos, empresários, empreendedores e investidores qualificados e profissionais da Bossanova. Os créditos não dão direito a uma participação na startup: é um relacionamento estritamente bancário.

A Bossanova se compromete a efetuar recompras de todos aqueles que desejarem vender a cédula. Essa recompra acontece em eventos de liquidez ou a qualquer momento, desde que seja observado o deságio previsto no Termo de Recompra, que vai diminuindo ao longo dos anos.

“Recebíamos perguntas sobre como investir por meio da Bossa. A ideia do título é garantir a entrada de novos investidores e que eles aprendam sobre startups, unindo a aplicação a uma trilha de educação gratuita. Lá na frente, esses investidores podem investir em modalidades que tenham equity como contrapartida. Nossa tarefa é que eles entendam processo, KPIs e riscos do aporte em startups”, diz Kepler. Um exemplo de próximo passo é o equity crowdfunding, segundo o investidor anjo.

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A rentabilidade das cédulas é de apenas 2% ao ano, mais prêmios em eventuais exits. O prazo do título é de dez anos, com capital inicial protegido. O valor dos títulos foi de R$ 5 mil até R$ 40 mil. “Emitimos os títulos com a ideia de que ele seja pelo menos corrigido para Selic, que estava em 2% ao ano na época da emissão”, diz Kepler.

A Bossanova enxerga potencial em aumentar o dinheiro colocado no mercado de capital de risco. Pesquisas internas do fundo indicam que seria preciso ter mais do que os R$ 18,1 bilhões captados por startups ao longo de 2020 para atender empreendedores com rodadas em aberto atualmente.

O objetivo do fundo é investir em 10 a 15 startups por mês, totalizando mais de 100 novos investimentos em 2021. Esse ritmo será necessário para a Bossanova atingir o marco de 1.000 startups no portfólio até o final de 2022. Nos olhos de Kepler, quanto mais empreendimentos, maiores as chances de sucesso.

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