Para ArcelorMittal, a agenda ESG deve andar junto com a geração de renda

Paula Harraca é diretora de futuro da companhia e responsável pelo posicionamento da maior produtora de aço do mundo frente aos assuntos dos novos tempos

Wesley Santana

Paula ela é uma das únicas mulheres latinas certificadas “futuristas” pelo Institute for the Future, do Vale do Silício. Imagem: Leo Drumond / NITRO
Paula ela é uma das únicas mulheres latinas certificadas “futuristas” pelo Institute for the Future, do Vale do Silício. Imagem: Leo Drumond / NITRO

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Com unidades industriais em seis estados brasileiros, a ArcelorMittal anunciou, no ano passado, investimentos da ordem de R$ 7,6 bilhões no Brasil nos próximos anos. Os investimentos foram decididos por uma análise estratégica dos setores em que a empresa atua: que vão do aço até geração de energia, produção de biorredutor renovável e tecnologia da informação. Todas essas áreas fazem parte da agenda ESG da companhia. 

Isso porque, para Paula Harraca, diretora de futuro da ArcelorMittal, os tópicos que envolvem a agenda ESG não podem ser tratados de forma individualizada, como sendo assuntos diferentes. A executiva discutiu o tema durante uma maratona de inovação promovida pela gigante do aço em Belo Horizonte, Minas Gerais.

“Não tem como olhar para a sustentabilidade, deixando de lado o fato de que os recursos são um motor da transformação. Nós precisamos entender que geração de emprego e de renda são tão válidos e necessários quanto os outros pilares do ESG, por exemplo”, afirmou.

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Paula é argentina e chegou ao Brasil em 2011 para assessorar a área de modelos de gestão, depois de passar também por unidades de outros países. Hoje, ela é responsável pelo posicionamento da marca frente à inovação e transformação do negócio em toda a América Latina. Além de suas formações específicas na área de gestão de empresas, ela é uma das únicas mulheres latinas certificadas “futuristas” pelo Institute for the Future, do Vale do Silício.

“São principalmente três entendimentos que estamos ressignificando porque dizem muito sobre o que queremos ser. Até agora falávamos muito em sermos a melhor empresa do mundo, mas nós precisamos trabalhar para sermos uma empresa melhor para o mundo”, define. “Isso tem que começar a nortear cada vez mais as decisões estratégicas dos negócios”.

A executiva destaca que a empresa tem tratado a sustentabilidade em um modelo de gestão que permita mensurar seu impacto no ambiente corporativo. Foi isso, inclusive, que fez surgir uma diretoria específica na ArcelorMittal para lidar com os temas do presente, pensando lá na frente.

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“Entendendo que o propósito se conecta com outras agendas, nós criamos a diretoria de futuro, há um ano e meio, com o objetivo de trazer a convergência de pautas para um lugar comum”. “Termos a estratégia falando como carro-chefe, avaliando sobre onde estamos, onde queremos chegar e trazendo as pessoas para o centro. É um processo fundamental e necessário, mas também um desafio”.

Recentemente, a companhia se tornou a primeira planta industrial na América Latina a receber a certificação de sustentabilidade Responsible Steel. Criado em 2015, esse é um padrão europeu que conta com 12 critérios nas áreas ambiental, social e de governança, certificando as empresas que contribuem para a sociedade.

“Sabemos que a estratégia que garante a performance de hoje precisa também criar o futuro, então precisamos trabalhar de forma ambidestra”. “Temos embaixadores nos quatro cantos da organização, fazendo conexões em suas respectivas áreas”. “Inovação gera valor, mas é preciso acreditar e conectar isso a estratégia, sempre alinhando a um trabalho forte de cultura”, pontua.

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Sociedade 5.0

O termo sociedade 5.0 foi criado no Japão, se referindo a um modelo de organização social que coloca o ser humano no centro da discussão. Esse formato de sociedade superinteligente tem como premissa a integração das demandas de um mundo moderno, conduzindo uma economia completamente sustentável.

Na avaliação de Paula, são as empresas que devem assumir o protagonismo na transição para esse desenvolvimento social e econômico. Ela embasa seu posicionamento no relatório Edelman Trust Barometer, publicado neste ano, que revelou que a maioria das pessoas acredita que as ONGs e empresas são mais capazes de resolver problemas sociais que os governos.

“Veja o impacto que as grandes empresas têm na sociedade, seja nas cidades onde atua, nas pessoas que por ela passa e em todos os pontos com os quais interage”, sugere. “Muita gente torce para políticos que têm mandatos de 4 ou 5 anos, mas, às vezes, não olha quem está comandando uma empresa que tem um poder de influência e impacto imenso”.

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Para ela, mais que uma questão de imagem, quando a empresa assume de fato seu papel no desenvolvimento social, se torna relevante para a sociedade. “Ser relevante e atrativo exige muito mais, não apenas marketing. Para ter boas narrativas, as empresas precisam criar boas histórias, e então, certamente, a relevância será consequência”, conclui a diretora da ArcelorMittal.

Empresas tradicionais, como a ArcelorMittal, estão buscando inovação dentro e fora de suas estruturas
Açolab é um hub de inovação que centraliza discussão dentro da companhia. Foto: Divulgação/ArcelorMittal

Mesmo centenária, ArcelorMittal segue inovando

Recentemente, a gigante do aço ArcelorMittal anunciou a entrada no metaverso, visando se tornar referência do setor quando o assunto é inovação. Mas, para além disso, há quatro anos, o grupo nascido em Luxemburgo mantém o “Açolab”, um hub de tecnologia que cria soluções para toda a indústria de siderurgia.

À frente da divisão, Rodrigo Carazolli diz que a iniciativa torna a empresa mais disruptiva, trazendo novas ferramentas e modelos de negócio. Por isso, um dos focos do laboratório é se conectar a startups para aproveitar o que há de mais moderno no mercado de tecnologia.

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“Em razão do tamanho da ArcelorMittal, às vezes uma startup ou faculdade queria fazer parceria, mas não sabia como iniciar o contato”, relata Carazolli, que é gerente geral de inovação. “Entendendo como uma possibilidade de gerar mais valor, nós criamos o Açolab para fazer tanto o trabalho de levar oportunidades para o ecossistema, como o de trazer soluções de fora para dentro da companhia”.

A corporação mantém, ainda, o Açolab Ventures, um fundo de investimentos exclusivo que pretende aplicar mais de R$ 100 milhões em pequenas empresas inovadoras. Outra frente trabalha para profissionalizar a mão de obra interna, dando mentoria para que funcionários criem sistemas capazes de melhorar a capacidade produtiva.

“Um grupo de empregados desenvolveu modelos de inteligência artificial que se acoplam a um dos nossos equipamentos e corrigem a falta de sincronia que ocasiona perdas do aço. Os funcionários tiveram uma jornada de desenvolvimento como a de startup, com investimentos nossos”, descreve. “Isso foi criado, testado e agora está sendo expandido para nossas unidades no Brasil em razão do seu alto potencial.