Operadores de ‘risco sacado’ buscam volta à normalidade após Americanas (AMER3); entenda

Transação, que passou por crise de imagem após rombo na varejista, é legal e empresas querem reforçar sua importância no sistema de crédito

Rikardy Tooge

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Apontada pela Americanas (AMER3) como uma das detratoras para o escândalo contábil de R$ 20 bilhões e que a levou a realizar a quarta maior recuperação judicial do país, as operações de risco sacado passaram a ser vistas sob desconfiança pela opinião pública. No entanto, empresas que atuam neste segmento refutam a pecha de “vilã” que a transação ganhou e confiam na maturidade e compreensão dos profissionais do mercado financeiro de que o caso da varejista foi uma “exceção”.

Reforçam ainda que a operação é legal, sustentável do ponto de vista contábil, além de ofertar bilhões para financiar cadeias de fornecedores de grande indústrias e empresas com grande necessidade de capital de giro. Mas há também o reconhecimento de que os bancos deverão ser mais rigorosos para aprovar as transações de risco sacado, com algum aumento no prêmio de risco exigido sobre as operações – situação considerada “natural” diante do atual contexto.

“[O Caso Americanas] Contaminou o mercado, mas temos que enxergar o copo meio cheio, que é a dimensão que a operação ganhou e mostrar como ela é feita da forma correta”, avalia Thiago Pinotti, diretor de operações financeiras da Accesstage, uma empresa que faz intermédio para operações de risco sacado. “Estremeceu a relação com o mercado, mas estamos oferecendo todas as explicações técnicas para oferecer maior conforto a todos os agentes”, acrescenta o executivo.

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O risco sacado (ou confirming, forfait e desconto de títulos) é uma operação de antecipação de valores que os fornecedores, normalmente de grandes companhias, têm a receber. Como muitas operações de venda para varejistas e indústrias significam pagamentos de 30, 90 ou até 180 dias, esses fornecedores acabam por antecipar os recebíveis com os bancos, que assumem o papel de credor da indústria ou varejista compradora.

A Cerc, líder em registro de recebíveis, apontou que o mercado de duplicatas movimentou R$ 68,6 bilhões em 2022, indicando um pouco das cifras que essa transação tem potencial de alcançar. Se levar em conta outros tipos de recebíveis, como os de cartões, o mercado passa dos trilhões de reais.

Empresas que fornecem para varejistas, mineradoras, indústrias alimentos e bebidas são algumas das mais demandantes do risco sacado. Quanto maior a linha de fornecedores dessas gigantes, maiores são os prazos de pagamento e a necessidade de se utilizar o forfait.

Importante para pequenos fornecedores

Como a base de fornecedores dessas grandes empresas é extensa, muitas vezes o intermédio para a operação é feito por um terceiro, que atua como assessor financeiro da operação. Neste mercado está a Acesstage, uma empresa que há 20 anos atua no tráfego financeiro e que a partir de 2021 também passou a fazer interface para operações de risco sacado.

De lá para cá, foram R$ 1,5 bilhão antecipado por meio de transações de forfait e, a despeito da crise na Americanas, a meta é chegar a R$ 4 bilhões neste ano operando o risco sacado.

“O problema não é o produto, que é muito efetivo para empresas menores, que conseguem escapar das taxas agressivas de factoring [venda de recebíveis] e reduz o risco das partes”, afirma Thiago Pinotti, diretor da Accesstage. O executivo diz que o risco sacado consegue um spread cerca de 30% menor do que uma operação de factoring.

Thiago Pinotti, diretor de operações de crédito da Acesstage (Divulgação)
Thiago Pinotti, diretor de crédito da Acesstage: “operação de risco sacado é segura” (Divulgação)

Porém, Pinotti reconhece que o Caso Americanas criou um cenário ruim para as operadoras de forfait, mas lembra também que ela é uma operação importante para girar o capital das empresas. Em um momento de aperto monetário e juros altos, existem poucas alternativas ao risco sacado no mercado que oferecem um custo de transação competitivo.

O mercado de antecipação de recebíveis vem ganhando tração nos últimos anos. Além da Accesstage, outras empresas também começaram a atuar na intermediação do risco sacado recentemente, como a Liber, do ex-presidente do conselho do BNDES Marcelo Serfaty, e a Vinci Partners.

Para Felippe Astrachan, chefe da operação brasileira da AVLA, uma empresa chilena que atua no seguro de crédito, o forfait será “posto à prova” nos próximos meses. “É um momento em que a operação terá que mostrar seu valor. Existe uma necessidade por esse produto, especialmente entre os fornecedores menores, mas os bancos terão uma diligência maior a partir de agora”, reforça.

Bancos seguirão no risco sacado

Principais prejudicados pelo escândalo da Americanas, os bancos demonstram que não irão “vilanizar” o risco sacado. Na conferência de resultados do quarto trimestre de 2022, o CEO do Santander (SANB11), Mario Leão, afirmou que a instituição seguira transacionando o forfait.

“Risco sacado é nosso principal negócio em clientes de atacado”, reforçou Leão. Segundo o CEO, esse é um produto que vem evoluindo nos últimos anos e o banco continua mantendo uma relação saudável com vários fornecedores empresas âncoras.

Thiago Pinotti, da Accesstage, também acha difícil que os bancos fujam do risco sacado, porém lembra que as instituições financeiras já aumentaram o rigor na análise das operações após o caso da varejista. “Nós notamos mais pedidos de informações, há uma concessão [de crédito] mais conservadora. Só que também não teria como ser diferente”, argumenta.

O Itaú BBA vai além e projeta que haverá aumento no prêmio de risco exigido para operações de forfait a após o Caso Americanas. Analistas do banco apontam que linhas como desconto de duplicatas, conta garantida e capital de giro mostram uma elevação de 0,1%, 0,2%, 0,3% nas taxas mensais, respectivamente.

Para o BBA, esta elevação de taxa, somada à redução no prazo de concessão, mais seletividade no cliente e possível avanço na demanda por garantias pode acabar pressionando empresas que já se encontram em situações financeiras desafiadoras.

Qual a diferença da Americanas para as outras empresas?

No caso da Americanas, o que se sabe até o momento, é que a empresa pagava seus fornecedores em 180 dias, período que acabava apertando o capital de giro desses vendedores. Sob este contexto, os fornecedores antecipavam o que tinha para receber da varejista para garantir a continuidade das operações.

Após o fornecedor receber, a Americanas alongava ainda mais esse prazo de pagamento junto às instituições financeiras, o que incidia uma cobrança de juros – esta não era lançada de forma correta dentro do balanço, o que acabava por distorcer o patrimônio líquido da empresa.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) alerta as empresas há anos sobre a necessidade de uma contabilização correta do risco sacado, sendo o aumento artificial do lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação (Ebitda, em inglês), estoques inflados e margem bruta distorcida as principais consequências.

“As áreas técnicas da CVM entendem que os auditores devem dedicar especial atenção a estas operações, sobretudo quando envolverem companhias altamente alavancadas (endividadas), pelo potencial risco de distorção da realidade econômica a ser reportada (gerenciamento de estrutura de capital)”, escreveu a autarquia.

Para bancos que buscam a Justiça para receber valores da Americanas, a distorção não foi um simples erro. Neste sentido, o BTG Pactual foi um dos mais vocais e trata a situação como “fraude” – tese que passou a ser acompanhada por Bradesco e até pela Verde Asset, do renomado gestor Luis Stuhlberger.

“Mas não podemos contaminar todo um mercado porque alguém fez errado. As indústrias giram há anos dessa forma e nunca tivemos algo desta magnitude e nem devemos ter novamente”, conclui Thiago Pinotti, da Accesstage.

Rikardy Tooge

Repórter de Negócios do InfoMoney, já passou por g1, Valor Econômico e Exame. Jornalista com pós-graduação em Ciência Política (FESPSP) e extensão em Economia (FAAP). Para sugestões e dicas: rikardy.tooge@infomoney.com.br