Marcas que valem dinheiro; Hypermarcas sobe 95% em 2012, ainda vale comprar?

Assim como seu garoto propaganda, Ronaldo, a Hypermarcas foi dada como "terminada" por muita gente

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SÃO PAULO – Ronaldo, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, sempre foi conhecido pelas arrancadas e pela capacidade de superar os problemas. Essas características parecem fazer parte também da Hypermarcas, empresa que tem o jogador como garoto-propaganda. Pelo terceiro ano seguido, a Bolsa brasileira teve um desempenho pífio, mas as ações da empresa de produtos farmacêuticos e consumo superaram as dificuldades com uma impressionante arrancada. A alta alcançou 95,53%, o suficiente para que a companhia liderasse os ganhos do Ibovespa.

Assim como Ronaldo, a Hypermarcas foi dada como “terminada” por muita gente. Depois de ser uma das queridinhas da Bolsa após sua abertura de capital, a empresa teve um período conturbado do segundo semestre de 2010 em diante – quando o processo de aquisições de marcas mostrou ter criado um “Frankenstein” pouco rentável, com baixa integração entre as empresas adquiridas. Não é uma trajetória muito diferente da de Ronaldo, que, aos 20 anos de idade, havia se tornado o jogador mais jovem a ganhar o prêmio de melhor do mundo, mas, pouco tempo depois, já enfrentaria uma crise convulsiva numa final de Copa do Mundo, uma séria lesão e uma segunda cirurgia que quase o levou a abandonar a carreira.

O Fenômeno voltou aos campos, ganhou mais uma Copa do Mundo e foi novamente eleito o melhor do mundo. A exemplo de seu garoto-propaganda, a Hypermarcas teve dificuldades, mas arrumou a casa e voltou a figurar na lista dos melhores investimentos.

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Foi preciso uma forte reestruturação para que a empresa retomasse o caminho dos lucros, um processo iniciado em 2010 e que alterou os próprios pilares da companhia – como a venda de diversos ativos, incluindo as duas marcas que estavam em sua gênese: Assolan, de produtos de limpeza, e Etti, de alimentos. “A relevância dos negócios de alimentos e limpeza foi se reduzindo, até que companhia optou por vendê-los em 2011. Os ‘desinvestimentos’ foram finalizados no ano passado, com captação de R$445 milhões”, comunicou a empresa, por meio de sua assessoria de imprensa.

O processo, porém, demorou a ser compreendido pelo mercado. “A empresa fez uma forte reestruturação, que começou no final de 2010, durou todo o ano de 2011 e se refletiu em 2012”, afirma Sandra Peres, analista da Coinvalores. No meio do processo, os papéis da empresa despencaram, iniciando um movimento de recuperação apenas em meados de novembro de 2011, justamente após a divulgação do balanço referente ao terceiro trimestre do ano, trazendo aos investidores a percepção de que a reestruturação viria para melhorar.

“O mercado criticava bastante a empresa por atuar em várias áreas, e agora ela está se focando basicamente nos setores farmacêuticos e de consumo”, explica João Pedro Brugger, analista da Leme Investimentos. “Os últimos resultados vieram bastante fortes, tanto na parte operacional, por conta das reestruturações, quanto na melhora de faturamento e na forte geração de caixa, fruto do programa de redução de custos”, diz Sandra. A companhia também destaca esse processo, comentando que agora vem se focando em crescimento orgânico, rentável e sustentável. Isso quer dizer que os dias de “máquina de aquisições” já ficaram para trás.

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O balanço de 2012 reforçou a melhora da Hypermarcas. A companhia registrou lucro de R$ 203,9 milhões, revertendo um prejuízo líquido de R$ 54,7 milhões um ano antes. “A empresa deve conseguir terminar sua reestruturação”, diz Sandra.

Os resultados consolidados de 2012 não apresentaram muita divergência do que foi visto no terceiro trimestre. “A empresa parece ter tomado uma estratégia mais acertada, o que levou as ações a terem um ano bastante positivo”, diz Brugger.

E 2013?
De volta à trilha certa, resta saber se a companhia vai conseguir manter o bom desempenho. Certamente, a ação da Hypermarcas na Bolsa ainda tem muito espaço para subir antes de atingir a máxima de 2010: R$ 30,06, no dia 13 de outubro. Mas ainda não dá para saber qual o verdadeiro potencial da companhia depois da reestruturação. Muitos dos avanços já estão refletidos na cotação do papel, mesmo que ainda haja sinergias a serem capturadas. “O processo de consolidação dos negócios de consumo, chamado Matrix, na nova fábrica de Senador Canedo [GO], está em andamento. Ele começou em 2012 e deverá ser concluído em junho de 2013”, afirma a empresa.

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“O mercado acaba antecipando esses movimentos, mas precisa ver se a ação já atingiu o potencial ou não. O que dá para dizer de certo é que a companhia deve ter resultados positivos nos próximos trimestres”, diz Sandra. Ela destaca que a Hypermarcas está posicionada em setores promissores: consumo e farmacêutico. “O crescimento econômico favorece esses setores, as pessoas acabam adquirindo mais produtos, tanto de higiene como de cosméticos, por exemplo.” E a perspectiva do Brasil, um país emergente, é de que consumidor consiga orçamento para comprar cada vez mais produtos supérfluos.

Destaques da Bolsa foram voltados para a economia nacional
Em 2012, as estrelas da Bolsa estiveram todas voltadas para o mercado interno. Fora do Ibovespa e até mesmo do IBrX-100, a Kroton, do setor de educação, dobrou de tamanho – alta de 127,03% até o fechamento desta edição. Sua rival Estácio também dobrou de tamanho em um ano: ganhos de 116,47%. Outros papéis que tiveram altas representativas foram Sabesp (75,36%), Lojas Americanas (72,85%), Lojas Renner (69,82%) e B2W (66,21%), todas elas voltadas exclusivamente para a economia doméstica. “O consumo continuou muito aquecido em 2012. A desaceleração foi uma questão pontual da indústria, e não afetou o consumo”, destaca João Pedro Brugger, da Leme Investimentos.

“E o ano foi marcado por muitas preocupações com o andamento da crise da zona do euro e com a situação fiscal nos EUA”, lembra o analista. Com o cenário externo completamente conturbado, afetado por diversos problemas que atingiram as principais economias mundiais, os investidores resolveram colocar seu dinheiro no que havia de previsível: empresas brasileiras que ganham receitas em uma economia relativamente blindada contra problemas externos. Sem soluções definitivas para os problemas que atingem o mundo, pode ser que 2013 não apresente uma lógica muito diferente. É esperar para ver.

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Essa matéria foi publicada na edição 42 da revista InfoMoney, referente ao bimestre janeiro/fevereiro de 2013. Para tornar-se um assinante da revista, clique aqui.