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SÃO PAULO – No mercado financeiro e no mundo da tecnologia, não há reis, só existem tronos. Quem veste manto e coroa hoje muito provavelmente já não estará segurando o cetro daqui a uma década. Foi assim com antigos negócios inovadores que, com o passar do tempo, foram perdendo importância. Fazem parte dessa lista a Xerox, a Kodak, a Nokia, a Research In Motion (fabricante do BlackBerry), a Microsoft, o Yahoo!, a Dell, a HP e tantas outras empresas não mais tão bem-sucedidas como antigamente. Para surpresa de todo o mundo da tecnologia, quem passou a ser considerada nos últimos meses uma forte candidata a futuramente ingressar nessa lista foi a Apple. Incensada com o título de empresa mais inovadora do mundo até a morte de Steve Jobs, a Apple agora já é vista com certo ceticismo por analistas de mercado, que questionam sua capacidade de se manter no topo apenas lançando novas versões de antigas inovações.
A Apple chegou a valer US$ 658 bilhões em setembro do ano passado, deixando para trás a ExxonMobil e assumindo o posto de empresa de capital aberto mais valiosa no mundo. Quatro meses depois, a petrolífera recuperou o trono após uma queda de mais de US$ 220 bilhões no valor da fabricante do iPhone e do iPad. A destruição do valor de ações da Apple representa quase o dobro do valor de mercado da Petrobras. Do ponto de vista da receita e lucro, os números atuais não chegam a ser ruins. As vendas da Apple continuam batendo recordes. Apenas no quarto trimestre de 2012, o lucro da empresa alcançou US$ 13,1 bilhões. A legião de fãs da Apple, que faz filas quilométricas nas lojas a cada novo lançamento, também continua intacta. Estaria então o mercado enxergando pelo em ovo? Não é bem assim. A morte de Steve Jobs, em outubro de 2011, chegou a levantar a suspeita de que a Apple não se sustentaria sem o seu mais emblemático líder. Inicialmente ninguém se abalou com a fatalidade. Da morte de Jobs até a semana posterior ao lançamento do iPhone 5 há cerca de seis meses, a ação se valorizou mais de 80%. Mas desde então a euforia se esvaiu.
Algumas pessoas podem achar estranho que uma empresa tão admirada há tão pouco tempo agora esteja tão próxima de uma crise. Mas há lógica nesse raciocínio. “Enquanto a mídia tem focado na Apple sendo vítima de seu próprio sucesso, a realidade é que seus múltiplos [relações entre dados da empresa para, por exemplo, avaliar se uma ação está cara ou barata] são duramente determinados pelas expectativas de crescimento dos lucros”, explica em relatório a equipe de análise da JefferiesGroup. E essas expectativas já não são tão boas.O maior golpe para a empresa veio em 23 de janeiro, justamente quando divulgou os resultados para os três últimos meses do ano passado. Isso porque, apesar da melhora nas vendas, a empresa enfrentou problemas com seus fornecedores, viu suas margens caírem e mostrou uma forte desaceleração nos principais números do balanço, principalmente com as vendas do Mac. Um dia após o anúncio, 15 equipes de análise cortaram a recomendação de investimento em papéis da Apple ou o preço estimado para as ações. Nesse grupo, o mercado divide-se entre analistas que mantêm o otimismo e outros que revisaram toda a sua tese de investimento. A equipe de análise da JefferiesGroup, que em 2012 tinha uma das projeções mais otimistas do mercado, foi uma das que reviram as análises agora. A recomendação, que era de compra, passou para manutenção, e o preço estimado para os papéis caiu de US$ 800 para US$ 500. A instituição alerta que a desaceleração das vendas da empresa está acontecendo em um ritmo mais rápido que o esperado. A margem bruta, isso é, o quanto da receita a companhia consegue converter em lucro bruto, mostra deterioração. Até mesmo os que recomendam a compra das ações tiveram que conter a euforia e fazer algumas ressalvas. O Deutsche Bank revisou seus números e agora projeta uma receita US$ 18 bilhões menor para este ano.
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Concorrência
A previsão de um crescimento pífio nas vendas do iPhone é um dos fatores que mais impactam a credibilidade da companhia. A Samsung também tem ganhado mercado da Apple tanto em tablets quanto em smartphones. A reversão dessa tendência no futuro ainda não é clara mas, segundo pesquisa divulgada pela agência Buzz Marketing no início deste ano, a preferência dos consumidores mais jovens mudou pela primeira vez para os aparelhos da empresa sul-coreana, algo impensável há alguns anos. Para evitar que o estrago seja maior, os analistas do Deutsche Bank sugerem que a Apple segmente seus produtos. A sugestão é que a empresa divida o iPhone em três categorias de tecnologia e preço, para que alcance consumidores de todos os bolsos, algo semelhante ao que a Samsung tem feito. Aliás, tão importante quanto entender o que aconteceu é estar preparado para o que vem pela frente. Segundo a Jefferies, entre junho e julho, a Apple deverá lançar o iPhone 5S e um iPhone de baixo custo, enquanto o iPhone 6 está projetado para a partir de outubro, sem nenhuma data-limite para o anúncio oficial. Entre julho e setembro deve vir o iPad 5 e o iPad mini 2, enquanto o iTV está previsto para setembro ou outubro. Outra inovação que a empresa prepara é um computador de pulso que seria usado pelos consumidores de forma muito semelhante a um relógio.
Três cenários
A equipe do Morgan Stanley traça três cenários para a Apple. O cenário-base projeta a ação a US$ 630 e prevê que ela manteria uma forte participação de mercado no segmento de celulares, mas não fecharia uma parceria com a maior operadora de telefonia do mundo (a China Mobile) nem lançaria a iTV até o fim deste ano ou no ano que vem.O melhor dos cenários projetado pelo Morgan coloca a ação a R$ 900; nesse caso ela conseguiria reter o domínio do mercado com iPhones e iPads mais baratos, com a aceleração das vendas na China. Mas há também o pior cenário, no qual a ação da empresa fundada por Jobs cairia ainda mais, para os US$ 400. Nessa projeção, “a Apple começa a ceder participação para o Windows 8/Samsung nos mercados maduros e para soluções mais baratas nos mercados emergentes”, alerta a equipe do Morgan Stanley. Agora resta para o investidor avaliar qual desses cenários irá de fato acontecer, e se a Apple deverá voltar a ocupar o trono de empresa mais valiosa do mundo ou será apenas mais uma gigante que perdeu o passo na evolução tecnológica.
Essa matéria foi publicada na edição 43 da revista InfoMoney, referente ao bimestre março/abril de 2013. Para tornar-se um assinante da revista, clique aqui.