‘Histórica’ na Bolsa, Cataguases foge do pregão, mas quer ampliar acesso ao mercado de capitais

Listada desde os anos 1970, indústria têxtil não tem negociações na B3, mas mostra receita 51% maior em 2022 para atrair investidores no mercado de dívidas

Rikardy Tooge

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O investidor pode até tentar fazer oferta de compra para ações sob o ticker CATA3 e CATA4, mas dificilmente terá contraparte na operação. Listada desde a década de 1970, a Cataguases, empresa têxtil da cidade mineira de mesmo nome, não tem a pretensão de ser uma top pick – e muito menos ter negociações no pregão da Bolsa.

Iniciativa de seus fundadores, que começaram o negócio de tecidos há 87 anos, a listagem exigiu desde cedo que a empresa tivesse que seguir padrões de governança e ter um conselho de administração.

“Eu brinco que carregamos o ônus de prestar contas como uma S.A., mas sem obter o bônus do mercado de capitais. Mas isso vem mudando”, afirma Tiago Peixoto, CEO da Cataguases, que é da quarta geração da família controladora.

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Além da família Peixoto, o negócio também tem a Energisa ( ENGI11) como uma de suas sócias, com 19,3% das ações ordinárias e 14,8% das preferenciais. “As negociações [de ações], quando ocorrem, são ‘de balcão’, entre membros das famílias”, reforça o executivo.

Pode até causar estranheza em uma época em que muitas companhias buscam uma oferta pública inicial de ações (IPO, em inglês) a Cataguases não dar prioridade ao mercado acionário. Mas isso não significa que a empresa não está de olho no mercado de capitais.

Em 2021, a Cataguases emitiu R$ 50 milhões em Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI) e monitora oportunidades no mercado de dívida. “É uma companhia que nunca tinha feito captações, mas agora estamos atentos”, diz Peixoto.

Tiago Peixoto, CEO da Cataguases (Divulgação)
Tiago Peixoto, CEO da Cataguases: empresa busca o ‘lado bom’ de ser listada em Bolsa (Divulgação)

Fornecedores de tecidos leves, destinados a camisas sociais, pijamas e outras peças, a Cataguases possui três plantas industriais no interior de Minas Gerais. Renner (LREN3) e Arezzo & Co ( ARZZ3) são alguns de seus clientes.

“Nosso negócio exige capital intensivo e o mercado pode nos ajudar com funding”, lembra o executivo. Em média, a Cataguases oferece 90 dias para receber de seus clientes enquanto tem apenas 30 para pagar seus fornecedores.

Com este fluxo de caixa, para ganhar mais escala, a emissão de debêntures, por exemplo, pode se tornar mais atrativa do que fazer operações de risco sacado. “Tudo vai depender das condições de mercado”, diz.

Crescimento em 2022 pode ser atrativo

Para mostrar aos investidores que vale a pena apoiar o negócio, a Cataguases divulgou na quinta-feira (9) os resultados de seu quarto trimestre e de todo o ano passado. A companhia registrou seu melhor desempenho de vendas dos últimos dez anos.

No trimestre encerrado em dezembro de 2022, a companhia obteve receita líquida de R$ 71,3 milhões, com alta de 31% sobre igual período do exercício anterior. Em todo o ano passado, a empresa reportou faturamento líquido de R$ 320 milhões, 51% superior ao observado em 2021.

Por outro lado, por conta de ajustes tributários não recorrentes, o lucro líquido recuou 74% no trimestre, para R$ 4 milhões. No ano, porém, houve alta de 40%, para R$ 22,4 milhões.

O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, em inglês) ajustado subiu 49% em 2022, para R$ 45,5 milhões, enquanto no quarto trimestre houve recuo de 81% – também por conta do ajuste tributário –, chegando a R$ 2,87 milhões.

Reposicionamento

Para 2023, a empresa seguirá com a estratégia de mostrar que é mais do que uma fornecedora de grandes varejistas. “Nosso posicionamento é ser uma marca de referência em tecidos e roupas. Criamos coleções, trabalhamos tecidos e estampas exclusivas. É importante esse reposicionamento para além de uma indústria”, explica Tiago Peixoto.

Uma das mudanças implementadas por Peixoto, que está na empresa há mais de seis anos e é CEO há um, foi substituir o nome de Companhia Industrial Cataguases para apenas Cataguases. “Não era um nome que comunicava o nosso negócio”.

Na esteira de novidades, a companhia também lançou um e-commerce para realizar vendas diretas a pequenos estilistas e confecções.

Exterior é avenida de crescimento

Para uma estratégia macro, a Cataguases é “cautelosamente otimista” com 2023. A despeito de um cenário mais restrito para o consumo, a companhia confia em sua estratégia comercial para conseguir entregar um crescimento próximo ao observado em 2022.

No mercado interno, o desafio é ser competitivo diante das importações de tecidos, em especial da China. No âmbito externo, responsável por 25% do faturamento, há expectativa de crescimento para o mercado da América Latina, onde a Cataguases vende mais.

Operação da Cataguases: mercado externo é um dos focos da companhia (Divulgação)
Operação da Cataguases: mercado externo é um dos focos da companhia (Divulgação)

Peixoto mira no potencial do México em atrair novas compras em um contexto em que os Estados Unidos buscam trazer para perto sua manufatura, em detrimento de manter operações na Ásia.

“Esse contexto de menor dependência da China deve ser favorável para a indústria da América Latina, em especial para o México. Se avançar como esperamos, haverá muito espaço para se ocupar”, conclui Peixoto.

Rikardy Tooge

Repórter de Negócios do InfoMoney, já passou por g1, Valor Econômico e Exame. Jornalista com pós-graduação em Ciência Política (FESPSP) e extensão em Economia (FAAP). Para sugestões e dicas: rikardy.tooge@infomoney.com.br