Sobrevivência

Fase Vermelha em SP: o que negócios podem fazer para sobreviver a mais uma onda de restrições?

Período mais restritivo do Plano SP, que fica em vigor até o dia 19 de março, somente permite o funcionamento de serviços essenciais à população

Movimentação de shopping center em Blumenau
(DENNER OVIDIO/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO)

SÃO PAULO – A partir deste sábado (6), todo o estado de São Paulo entra na Fase Vermelha, a mais restritiva do programa de controle da pandemia imposto pelo governo estadual. A decisão foi tomada após aumento de casos, internações e mortes pelo novo coronavírus no estado (veja sete fatos que mostram que o Brasil está na fase mais aguda do contágio por Covid-19).

São Paulo já registrou 61.064 óbitos pela Covid-19. O estado atingiu nesta sexta (5) mais um recorde de ocupação de leitos hospitalares para tratamento da Covid-19: 77,4% das unidades de terapia intensiva (UTI) estão ocupadas.

Mas também há uma outra preocupação: a sobrevivência dos negócios em meio ao endurecimento das restrições. A Fase Vermelha, que fica em vigor em São Paulo pelo menos até o dia 19 de março, permite apenas o funcionamento de serviços considerados essenciais à população – como abastecimento e logística, comunicação social, construção civil, educação, farmácias e hospitais, mercados e padarias, postos de combustíveis, transporte coletivo e segurança pública.

Todo o comércio não essencial deve ficar fechado. Restaurantes só podem operar no formato de delivery. Já negócios em shoppings poderão funcionar por drive thru, entregando compras feitas em apps e lojas online a partir de horários agendados.

O InfoMoney ouviu especialistas e empreendedores para entender quais negócios serão mais afetados pela Fase Vermelha em SP; o que eles podem fazer durante as próximas duas semanas para minimizar os prejuízos; e quais são os impactos do fechamento dessas empresas em outros indicadores da economia, como a geração de empregos.

Negócios mais afetados: pequenos e não essenciais

Há um consenso entre associações e empreendedores de que o próximo período de Fase Vermelha em São Paulo será o pior para os negócios desde que a pandemia começou.

Os micro e pequenos negócios serão especialmente afetados. “Com novas medidas restritivas, é provável que as micro e pequenas empresas precisem de políticas públicas para continuar funcionando. Acredito que ninguém esperava que a pandemia fosse durar mais de um ano e que novas medidas como a decretação de um lockdown fossem tomadas pelos governos”, analisou Carlos Melles, presidente do Sebrae.

Nabil Sahyoun, presidente da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), concorda que os pequenos serão os mais afetados. Nos centros de compras, essas empresas são lojas que faturam entre R$ 50 mil e R$ 150 mil por mês.

“O pequeno não tem recursos: estamos completando um ano de pandemia e o capital de giro se esgotou há muito tempo. Quando conseguem obter crédito, os juros são absurdos”, diz Sahyoun.

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Eduardo Yamashita, diretor de operação da Gouvêa&Sousa, consultoria especializada em consumo e varejo, explica que as medidas de restrição também vão impactar principalmente comércio e serviços não essenciais, que já estão fragilizados.

“De um lado, podemos esperar um aumento no faturamento dos serviços de primeira necessidade, como supermercados, farmácias e até material de construção – mas não no mesmo ritmo que vimos enquanto havia o auxílio emergencial. Por outro lado, áreas de varejo, calçados, vestuário, móveis, eletrodomésticos, serviços, comércio e restaurantes devem ser fortemente impactados nos próximos dias”, diz.

Percival Maricato, presidente do conselho estadual da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de São Paulo (Abrasel-SP), diz que o setor de bares e restaurantes vai ser ainda mais prejudicado.

“Milhares de estabelecimentos foram exterminados. Os empreendedores vêm enfrentando problemas desde o início da pandemia e estão totalmente fragilizados. Eles já aplicaram as alternativas que tinham em mãos: negociaram com os fornecedores, pegaram empréstimos de bancos, tentaram reduzir preços, utilizaram a suspensão de salário no início da pandemia quando tinham a opção. Agora, o que sobra é a preocupação: muitos estão endividados e sem um novo auxílio podem ter que fechar”, afirma.

Segundo Maricato, desde que a pandemia começou, cerca de 30% dos bares e restaurantes do Brasil já fecharam. “Se a pandemia continuar, se seguir nesse ritmo mais três, quatro meses, não sobra 20% do que tínhamos antes de começar a pandemia. Em São Paulo, há fechamentos diários de bares e restaurantes – cerca de 20% também já fecharam no estado. Hoje são cerca de 200 mil em funcionamento”, explica.

Realidade difícil

Gabriel Fullen, dono de duas unidades do restaurante japonês Oguru Sushi&Bar e da cafeteria Localle Café, ressalta que fez tudo o que podia ser feito para sobreviver no início da pandemia, mas confessa que uma segunda onda dessa proporção atrapalha o planejamento.

“A situação está tão grave, que acho que qualquer ajuda do governo hoje é paliativa. Considerando meus negócios, quando tivemos que reduzir o horário de atendimento até as 20h, na Fase Laranja, nosso faturamento caiu 50%. A situação na Fase Vermelha será muito complicada”, conta.

Como exemplo do impacto das restrições que já estão sendo monitorados pela consultoria, Yamashita diz que restaurantes em estados que adotaram medidas mais rígidas nas últimas semanas, como Amazonas e Minas Gerais, apresentaram queda de 40% a 50% no faturamento depois que as restrições entraram em vigor.

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“Antes disso, a queda era de cerca de 30% no faturamento dos estabelecimentos nesses estados. Esperamos um impacto desse patamar em São Paulo, e não só para o setor de restaurantes, mas para os serviços de modo geral”, diz.

Alfredo Yarahuaman, dono de uma loja de artigos para festas, está numa situação ainda pior: em 2021 está vendendo, na média, 15% do que vendia antes da pandemia.

“Temos apenas a incerteza. O meu segmento é ainda mais difícil, afinal, muito menos pessoas estão comemorando e fazendo festas. Serão 15 dias sem trabalhar. Não sei como será o retorno. Talvez fechar a loja será inevitável. Não tenho rendimento, estou pagando para trabalhar”, diz.

Yarahuaman explica que, no fim do ano passado, as vendas estavam em um patamar de 25% do que eram pré-pandemia. “Estava difícil, mas eu ainda sentia que os clientes me procuravam e estavam organizando festas menores, em casa. Eu contatei clientes no mês passado que perderam o emprego. A situação vem piorando muito.”

Lucilene Noleto, vendedora de uma importadora na região da rua 25 de Março, no centro de São Paulo, também está preocupada com o novo período de fechamento de negócios.

“Eu só consigo vender se meus clientes vendem. Com a Fase Vermelha, fica insustentável. Muitas lojas na região da 25 de Março fecharam. Quem sobreviveu não sabe se consegue atravessar essa nova fase. O aluguel na região é muito caro, cerca de R$ 30 mil por mês. Como os lojistas pagam as contas se não podem funcionar?”, questiona.

Lucilene diz que a importadora em que trabalha atende não só clientes de São Paulo, mas também das regiões Nordeste e do Norte do país.

“A pandemia se soma ao dólar cada vez mais caro, e ao aumento do frete de produtos vindos da China. Temos de repassar os custos para as mercadorias. Quando a pandemia chegou, as pessoas utilizaram suas reservas e improvisaram como deu. Mas agora, quando todo mundo pensou que o ritmo de venda ia voltar, tudo para de novo. É o pior momento desde que a pandemia começou”, afirma.

Alternativas: digitalização e negociação

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Para tentar atravessar esse período mais restritivo, Gabriel Fullen vai apostar em todos os seus negócios no delivery. Inclusive, lançará uma nova marca de Pokes, que serão entregues na casa dos clientes.

“Era uma ideia que vinha sendo considerada, mas que teve que ser colocada em prática antes do previsto. Precisamos captar novos clientes e manter os que já temos. E confiamos que pode ser uma alternativa para esse momento”, explica.

Apesar de o delivery ser uma solução, Fullen ressalta que ela é temporária. “Não podemos manter apenas o delivery, precisamos da demanda presencial novamente. Quando ficamos na Fase Laranja, nosso faturamento com delivery subiu 30% na média. Porém, esse aumento não é tão rentável como o fluxo presencial”, explica.

Já Lucilene conta que a importadora onde trabalha adotou um formato único de comercialização: só faz venda à vista e com desconto. “Mas durante a Fase Vermelha vamos fechar tudo e voltar depois. Não há fluxo de venda”, lamenta.

Yamashita explica que os estados vão buscar um ponto de equilíbrio entre a liberação econômica e a saúde, que é prioritária, entre o primeiro e segundo trimestre deste ano. Portanto, os negócios ainda devem sentir impactos negativos.

“Imaginamos que ainda aconteçam mais aberturas e fechamentos pontuais por estado até o meio do ano. A partir do momento que a disponibilização de vacinas aumentar, do terceiro trimestre em diante, vamos ver uma redução da adoção de medidas restritivas e uma retomada mais sólida dos negócios”, avalia.

Segundo Tito Bessa Júnior, presidente da Associação Brasileira dos Lojistas Satélites (Ablos) e dono da rede de moda TNG, as empresas também tendem a ficar inadimplentes – especialmente as que não tinham se recuperado das restrições anteriores.

O empreendedor argumenta que não restam opções, a não ser deixar de pagar certas despesas, como aluguéis: “Se mal dava para pagar o aluguel antes, agora que não dá mesmo. Isso vai ter que ser isentado. É mais um sacrifício que todos teremos que fazer.”

A Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) informou, por meio de nota, que está discutindo os impactos que os fechamentos trarão aos donos dos centros de compras e também aos lojistas para, juntos, os dois lados pensarem nos próximos passos e medidas que podem ser adotadas. A entidade reforçou ainda que o setor irá cumprir todas as determinações do governo.

Sahyoun, da Alshop, cita algumas medidas que poderiam ajudar os empreendedores, como redução ou suspensão da cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), ou a criação de um auxílio para comerciantes que tiveram de fechar as portas.

O InfoMoney entrou em contato com o governo estadual para entender se há algum tipo de plano em andamento para dar auxílio aos negócios que ficarão fechados durante a Fase Vermelha ou outro tipo de sustentação durante o período. Em nota, o governo explicou que até o momento, “para auxiliar os empreendedores a atravessarem essa crise, o Estado desembolsou quase R$ 2 bilhões de crédito pela Desenvolve SP, Banco do Povo e Sebrae e liberou neste ano mais R$ 125 milhões de crédito”.

Ainda, o governo afirmou que mantém canal aberto com todos os setores da economia e representantes de associações para garantir, por meio do Plano SP, a retomada das atividades econômicas de forma consciente e gradual. “A Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia tem realizado reuniões constantes para ouvir as demandas dos setores”, diz a nota.

Fechamento de negócios afeta empregos

Porém, nenhuma dessas medidas pode substituir a volta do funcionamento, ainda que com restrição de horários e de protocolos de atendimento, afirma Sahyoun.

A Alshop vai propor ao governo estadual que os shoppings possam abrir todos os estabelecimentos das 10h às 18h no oitavo dia de Fase Vermelha, como um teste para verificar se as contaminações aumentam.

“Se tivéssemos uma política de retomada de crescimento, teríamos mais pessoas empregadas. Com um turno de oito horas, diminuiríamos as demissões e abriríamos uma alternativa para uma possível retomada, junto com o avanço da vacinação e a retomada da coragem de fazer compras. Os shoppings surgiriam então como opção segura”, diz Sahyoun. “Mas o governo não coloca a mão no bolso para ajudar os empresários, e eles correm sério risco de fechar. Esses 14 dias com certeza vão gerar mais demissões“, completa.

A conjuntura para o emprego estava mais positiva no final do último ano. “A pandemia estava em seu piso de óbitos e tínhamos as festividades para movimentar o consumo”, completa Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados.

A taxa de desocupação caiu para 13,9% em dezembro de 2020, após chegar a 14,6% em setembro do mesmo ano, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua/IBGE).

Ao todo, houve um saldo positivo de 142,7 mil empregos com carteira assinada em 2020, de acordo com o Cadastro Nacional de Empregados e Desempregados (Caged).

“Depois de acumular um saldo negativo até o mês de outubro, pequenos negócios se recuperaram e fecharam o ano com a geração de 293,2 mil novos empregos. Já médias e grandes empresas foram na contramão, extinguindo 193,6 mil postos de trabalho. As pequenas empresas foram as grandes responsáveis pelo saldo final de 142,7 mil empregos gerados no país durante o ano”, afirma Melles, do Sebrae.

Importância da vacina para a retomada

Na coletiva do governo de SP, que anunciou a nova classificação do plano de combate à pandemia, Paulo Menezes, coordenador do Centro de Contingência do Covid-19, afirmou que o objetivo da Fase Vermelha “é reduzir a velocidade de transmissão do vírus. São medidas duras e que requerem a participação de toda a sociedade”.

Para Murilo Viana, consultor especializado em finanças públicas, o melhor programa de sustentação das empresas, do emprego, da renda e do consumo é a vacinação contra a Covid-19. Não se trata apenas de vacinar a maior parte da população, porém. O timing também importa.

“É o quadro de colapso generalizado do sistema público e privado de saúde em quase todos os estados que leva ao fechamento de serviços não essenciais, ou que afasta o consumo devido ao maior medo de contágio”, afirma o consultor especializado em finanças públicas.

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