EUA sofre desconfiança e perda de rating AAA deixa de ser hipótese absurda

Chineses e agências alertam; crise, previdência e reforma da saúde são temas chave para equilíbrio fiscal do país

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SÃO PAULO – Quando Wen Jiabao, primeiro ministro chinês, afirmou temer pela exposição de seu país à dívida soberana dos Estados Unidos, foi aceso o sinal de alerta para muitos investidores. Após décadas como o porto seguro do sistema financeiro mundial, o tio Sam não parece mais tão confiável como antes.

Os dedos apontados para o governo dos EUA não pertencem apenas às potências estrangeiras. Os próprios norte-americanos já passam a desconfiar da saúde fiscal de seu país, como revelam matérias recentes de importantes publicações, além do debate político cada vez mais acalorado entre republicanos e democratas.

Se antes da crise atual já existiam preocupações, como revelado pela agência Moody’s, os bilhões de dólares empregados no resgate ao sistema bancário e na busca por retirar a economia do atoleiro recessivo somente acirraram os ânimos.

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O governo de Barack Obama conseguiu a aprovação de orçamento deficitário em US$ 1,3 trilhão para 2009. A expectativa de analistas é de que desequilíbrios de magnitudes semelhante se perpetuem por mais alguns anos, em função dos gastos resultantes da crise.

Simbiose

Por trás das críticas de autoridades chinesas à volúpia por recursos dos EUA, que fez sua dívida líquida crescer para cerca de US$ 11 trilhões, está uma relação complexa entre poupança e consumo das duas potências. Como base de comparação, o PIB (Produto Interno Bruto) norte-americano em 2008 foi de aproximadamente US$ 14 trilhões.

Acumulando reservas monetárias provenientes do saldo positivo de suas contas externas, a China transformou-se no principal financiador do déficit público norte-americano nos últimos anos, acumulando bilhões de dólares em Treasuries. Qualquer elevação no risco relacionado aos ativos teria efeitos severos sobre o país asiático.

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Talvez por isto a pressão realizada por meio de discursos, assim como pela proposta de criação de uma nova moeda internacional, em substituição ao dólar. Entretanto, enquanto isto não ocorre, o dólar e as Treasuries continuarão como a linguagem corrente no mundo das finanças.

A desconfiança crescente pode ser refletida em uma decisão por parte das agências de classificação de risco, que ainda sustentam o rating máximo (AAA) dos EUA.

Muitos alertam para a repetição do erro cometido durante a crise do subprime, quando foram mantidos ratings elevados e descolados da realidade para os títulos lastreados em hipotecas. Para além dos interesses financeiros e detalhes técnicos envolvidos, uma alteração desta classificação também tem sua dimensão política.

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Previdência e Saúde

Contudo, alguns entendem que este não é o principal problema. Como em muitos outros países, as crescentes pressões sobre a previdência social entram em cena. Mas há um outro problema; promessa de campanha do atual presidente, o novo sistema de saúde pública do país pode gerar enormes pressões fiscais.

A situação é complexa, pois os Estados Unidos são um dos poucos países desenvolvidos no mundo a não oferecer cobertura mínima de saúde a seus cidadãos, tendo um sistema até hoje baseado na proteção oferecida por planos privados. A pressão por uma reforma é grande.

Ainda mais em um momento de crise, os mecanismos de proteção como seguro-desemprego, ligados à construção do Estado de bem estar social em meados do século XX, podem atenuar a magnitude dos ciclos negativos por que passa a economia. Para outros, trazem severas restrições ao bem estar econômico no futuro.

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Voto de confiança

Os contínuos déficits fiscais norte-americanos, também uma herança do governo de George Bush, tornam crescente a necessidade de financiamento público, costumeiramente satisfeita pela emissão de moeda e dívida soberana – pouco problema para quem goza de total confiança por parte dos mercados.

Mas a maré não é tão boa para o barco de Timothy Geithner e Ben Bernanke. Tesouro e Federal Reserve comandaram uma massiva expansão fiscal no país, financiada por meio da emissão de Treasuries, os títulos públicos norte-americanos.

Diz um ditado que, em tempos de crise, só se compra água e títulos dos EUA, considerados um refúgio de valor. A forte demanda por estes ativos fez com que seus preços subissem nos episódios mais dramáticos da crise, mesmo com o pagamento cada vez menor de juro, acompanhando os cortes da Fed Funds Rate promovidos pela autoridade monetária. Um aparente voto de confiança do mercado.