Boa compra ou passo maior que a perna? Natura tenta justificar aquisição da The Body Shop

Em teleconferência, executivos da companhia deram explicações para tentar mostrar aos investidores que o negócio pode ser realmente bom

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SÃO PAULO – A compra da rede britânica The Body Shop pela Natura (NATU3) – anunciada na última sexta-feira (9) – foi muito mal recebida pelo mercado, que viu sérios riscos para a companhia brasileira, envolvendo principalmente o aumento de sua alavancagem para um negócio que pode ter saído muito caro.

Porém, a expectativa do vice-presidente financeiro da Natura, José Roberto Lettiere, é que a dívida da companhia volte para o patamar atual em cerca de quatro anos. Em teleconferência realizada nesta segunda-feira (12), ele afirmou que a alavancagem da empresa deve dobrar com a aquisição, mas que em 2021 deve voltar para 1,3 vez a dívida líquida sobre o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, na sigla em inglês).

O otimismo do executivo é explicado pela “nova” fonte de receita que a Natura terá com a aquisição da rede britânica, que deixará a companhia com cerca de 25% de receita em mercados onde a moeda é o dólar ou euro. Lettiere diz que o negócio acelera a geração de caixa em moeda forte e abre um canal amplo para a captação de recursos a preços mais acessíveis. E é neste cenário que ele espera recuperar a alavancagem nos próximos anos.

“Já temos nossos assessores financeiros globais e locais empenhados nesse financiamento e há bastante confiança de que os níveis de endividamento não serão nenhum tipo de limitante para o crescimento da empresa adquirida e da Natura”, afirmou, ressaltando a possibilidade de um emissão de ações no futuro: “Poderemos eventualmente ter uma aceleração na desalavancagem”.

Diversas casas de análise destacaram o risco do aumento da dívida da companhia, sendo que o Credit Suisse, quando começaram os rumores em abril, havia indicado propostas pela The Body Shop na casa de US$ 856 milhões – valor bem inferior aos 1 bilhão de euros oferecidos pela Natura (confira a análise especial clicando aqui). Analistas apontaram que a companhia poderia ter dado um “passo maior que a perna”.

Estes temores também foram “alvo” da agência de classificação de risco Standard & Poor’s, que colocou o rating da companhia em observação negativa citando que o negócio poderá enfraquecer sua estrutura de capital. “Se a transação for concluída, acreditamos que há chances para um rebaixamento de até dois degraus, dependendo da resultante alavancagem e o quão rápido a Natura poderá gerar sinergias do modelo de negócios da TBS”, afirma a S&P.

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“Plano China” e operação de venda
Sobre o negócio em si, o vice-presidente internacional da Natura, Robert Chatwin, afirmou que há espaço para a The Body Shop expandir seu negócio na América Latina e China, além de haver uma exploração do canal de venda direta da marca. O executivo considerou que essas seriam oportunidades de crescimento a médio prazo para o negócio.

Ainda segundo ele, a projeção é concluir a aquisição ainda este ano para que eles possam focar nas vendas de Natal. Chatwin disse que menos de 3% da operação da The Body Shop está na venda direta, modelo hoje explorado no Reino Unido e na Austrália apenas.

“Esses números vão aumentar. Não existe parceiro melhor que a Natura para fazer essa expansão da Body Shop para a venda direta”, disse o executivo. A companhia tem hoje 1,5 milhão de vendedoras por catálogo no mundo.

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Outro foco da Natura está na expansão dos negócios. Os executivos da empresa disseram que a The Body Shop tem capacidade para estar em 150 grandes cidades do mundo – contra 100 cidades atualmente. “Em termos de loja, não existe nenhum país que tenha loja demais da Body Shop”, disse Chatwin.

E neste plano, o foco está na China onde a presença da Body Shop é baixa e a Natura não tem negócios. “Acreditamos que podemos ter um plano China”, afirmou o executivo. Onde a rede já está presente, a Natura estuda aumentar o número de lojas e rever a localização de alguns pontos de venda.

Segundo Chatwin, a Natura tem um plano para endereçar o desempenho de cada loja em cada país em dificuldade. “A Natura pensou em formas de quebrar a gestão em partes menores e mais gerenciáveis”, afirmou. Resta saber agora não só se a companhia será capaz de entregar essas promessas, mas se o mercado vai aceitar essas explicações e reduzir seus temores com o futuro.

Rodrigo Tolotti

Repórter de mercados do InfoMoney, escreve matérias sobre ações, câmbio, empresas, economia e política. Responsável pelo programa “Bloco Cripto” e outros assuntos relacionados à criptomoedas.