Quadro saqueado por nazistas reaparece após décadas escondido na Holanda

Obra ligada a importante colecionador judeu foi encontrada por detetive de arte na casa de descendentes de colaborador do regime nazista

Marina Verenicz

Reprodução Redes Sociais
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Uma pintura desaparecida desde a ocupação nazista da Holanda foi localizada décadas depois dentro da casa de familiares de um antigo colaborador do regime alemão. A descoberta envolve a obra “Portrait of a Young Girl”, do artista holandês Toon Kelder, e reacendeu discussões sobre o destino de peças saqueadas durante a Segunda Guerra Mundial.

O caso veio à tona após o detetive de arte Arthur Brand receber o contato de um homem que afirmou ser descendente de Hendrik Seyffardt, general holandês ligado à Waffen-SS, braço militar da SS nazista. Segundo Brand relatou à BBC, o descendente teria descoberto recentemente a origem da obra mantida pela família desde o período da guerra.

Segundo o relato publicado pelo jornal holandês De Telegraaf, os parentes mudaram de sobrenome após o fim do conflito e mantiveram em sigilo a trajetória do quadro ao longo de décadas. O homem afirmou ter ficado chocado ao descobrir a ligação da pintura com o saque promovido pelo regime nazista.

“Sinto vergonha. A pintura deve ser devolvida aos herdeiros de Goudstikker”, declarou o descendente ao jornal.

A obra pertenceu originalmente a Jacques Goudstikker, um dos maiores negociantes de arte da Europa antes da invasão da Holanda pela Alemanha nazista. Judeu, Goudstikker morreu em 1940 enquanto tentava fugir para a Inglaterra. Após sua morte, milhares de peças de sua coleção foram confiscadas, vendidas ou desviadas durante o avanço alemão no continente.

Segundo Arthur Brand, a identificação do quadro ocorreu após a análise de marcas encontradas no verso da tela. O investigador localizou uma etiqueta e o número 92 na parte traseira da obra e decidiu cruzar as informações com registros históricos de um leilão realizado em 1940.

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Nos arquivos consultados pelo detetive, o código correspondia justamente à pintura desaparecida de Toon Kelder. Brand afirma ainda que a obra passou anteriormente pelas mãos de Hermann Göring, comandante da Luftwaffe e um dos principais líderes do alto escalão nazista.

Para o investigador, a manutenção da peça dentro da família de Seyffardt prolongou por décadas uma situação que poderia ter sido corrigida antes. “Por décadas, a família que evidentemente não tem culpa pessoal pelos crimes de Seyffardt teve a oportunidade de fazer a coisa certa e devolver essa pintura. Escolheram não fazê-lo”, afirmou.

A reaparição do quadro reforça a dimensão ainda não resolvida do mercado de arte ligado ao período nazista. Estimativas internacionais apontam que milhares de obras saqueadas durante a Segunda Guerra Mundial continuam desaparecidas ou em disputas judiciais envolvendo herdeiros, colecionadores e governos.

O nome de Jacques Goudstikker voltou ao centro dessas investigações recentemente. Em 2025, outra obra que integrou sua coleção foi encontrada em circunstâncias semelhantes na Argentina, dentro de uma residência que havia pertencido a um ex-funcionário do regime nazista refugiado na América do Sul após o fim da guerra.