Le Monde chama de ‘vexame diplomático’ a resistência francesa ao acordo Mercosul-UE

Editorial afirma que governo Macron apostou errado ao resistir ao tratado comercial e vê risco de revés diplomático e político às vésperas da assinatura do acordo

Marina Verenicz

O presidente francês Emmanuel Macron aparece na tela enquanto faz um discurso televisionado à nação, após o governo do primeiro-ministro Michel Barnier ter sido derrubado em uma votação de desconfiança no parlamento, em Paris, França, em 5 de dezembro de 2024. REUTERS/Christian Hartmann
O presidente francês Emmanuel Macron aparece na tela enquanto faz um discurso televisionado à nação, após o governo do primeiro-ministro Michel Barnier ter sido derrubado em uma votação de desconfiança no parlamento, em Paris, França, em 5 de dezembro de 2024. REUTERS/Christian Hartmann

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O jornal francês Le Monde publicou nesta quarta-feira (7) um editorial contra a postura do governo da França em relação ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, cuja assinatura é esperada para os próximos dias após quase 25 anos de negociações.

Para a publicação, a estratégia adotada por Paris, centrada na proteção do setor agrícola, acabou levando o país a um isolamento diplomático em um momento considerado crítico para o futuro europeu.

Segundo o jornal, a decisão da Itália de apoiar o tratado enfraqueceu de vez a tentativa francesa de formar uma minoria capaz de bloquear o acordo. Com isso, a França se aproxima de um cenário descrito como um “vexame diplomático”, sobretudo porque o presidente Emmanuel Macron havia prometido publicamente não endossar o texto.

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Na avaliação do Le Monde, a iminente conclusão do tratado tende a ser percebida internamente como um fracasso político, com potencial para aprofundar a desconfiança da sociedade em relação à capacidade de ação do Estado.

O editorial argumenta que, em um contexto global marcado pelo endurecimento da política comercial dos Estados Unidos e pela pressão das exportações chinesas, a União Europeia não pode se dar ao luxo de permanecer paralisada. Para o jornal, ampliar parcerias com países do Mercosul faz parte de uma estratégia mais ampla de autonomia econômica e diplomática, necessária para sustentar o multilateralismo e as regras do comércio internacional em um ambiente cada vez mais hostil.

O texto também critica como o debate foi conduzido internamente na França. Segundo o periódico, o governo evitou discutir de maneira transparente os ganhos econômicos do acordo e permitiu que o tema fosse dominado por narrativas alarmistas sobre uma suposta invasão de produtos agrícolas sul-americanos.

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O jornal ressalta que as concessões negociadas estabelecem cotas equivalentes à cerca de 1,5% do consumo europeu e mantêm intactas as regras sanitárias, como a proibição do uso de hormônios e antibióticos na produção.

Na leitura do diário francês, ao insistir em adiar o acordo sem apresentar uma alternativa viável, Paris corre o risco de perder em duas frentes. No plano externo, vê sua influência reduzida dentro da União Europeia; no interno, enfrenta a possibilidade de uma crise agrícola em um momento delicado, com um presidente em fim de mandato, um governo fragilizado no Parlamento e forças políticas dispostas a explorar o descontentamento no campo.

Para o Le Monde, o episódio expõe limites da estratégia francesa e evidencia um desalinhamento entre discurso político e realidade econômica. Ao final, o jornal sustenta que a França terá de lidar não apenas com os efeitos práticos do acordo, mas também com o custo político de ter resistido a uma negociação que, agora, caminha para a conclusão sem o protagonismo que Paris tradicionalmente busca exercer na Europa.