Groenlândia na mira: por que Trump reacende um plano que assusta a Europa

Casa Branca admite avaliar opções diplomáticas e militares para ampliar presença no Ártico, provocando reação de aliados e temor sobre impactos na OTAN

Marina Verenicz

Moradores da Groenlândia fazem protesto contra os EUA, em 15 de março de 2025 — Foto: Christian Klindt Soelbeck/Ritzau Scanpix/via REUTERS
Moradores da Groenlândia fazem protesto contra os EUA, em 15 de março de 2025 — Foto: Christian Klindt Soelbeck/Ritzau Scanpix/via REUTERS

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A Casa Branca confirmou nesta terça-feira (6) que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, avalia diferentes caminhos para ampliar a presença americana na Groenlândia, incluindo hipóteses que envolvem pressão militar.

A sinalização reacendeu tensões diplomáticas com a Dinamarca e provocou reação coordenada de países europeus, que veem riscos diretos à estabilidade no Ártico e à própria coesão da OTAN.

O debate ganhou força após declarações oficiais indicarem que Washington considera a ilha “estratégica” para conter a presença de adversários no Ártico. Segundo o governo americano, opções diplomáticas e de política externa estão em análise, entre elas a compra do território ou um acordo de livre associação.

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O pano de fundo é a disputa geopolítica pela região, que concentra rotas marítimas sensíveis e crescente atividade de China e Rússia.

Groenlândia voltou ao radar

A ilha ocupa posição-chave no Atlântico Norte e já abriga uma base militar americana. Para a Casa Branca, ampliar o controle sobre o território fortaleceria sistemas de defesa e vigilância capazes de interceptar ameaças vindas do Ártico.

Trump defende o tema desde o primeiro mandato e retomou o discurso ao voltar ao poder, argumentando que a segurança internacional depende da presença dos EUA na região.

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Em dezembro, o presidente nomeou o governador da Louisiana, Jeff Landry, como enviado especial para tratar do dossiê. Desde então, o tom das declarações aumentou, com críticas explícitas à capacidade da Dinamarca, aliada histórica, de “cuidar” da área.

Reação europeia

A discussão escalou no último fim de semana, após a operação militar americana na Venezuela. Horas depois, uma postagem nas redes sociais com um mapa da Groenlândia coberto pela bandeira dos EUA foi interpretada como ameaça velada por autoridades europeias.

Em resposta, França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Polônia, Espanha e Dinamarca divulgaram um comunicado conjunto reafirmando que o futuro do território cabe exclusivamente ao seu povo e a Copenhague.

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, foi além ao alertar que um eventual ataque de um membro da OTAN contra outro poderia “encerrar” a aliança como existe hoje. Já o primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, reagiu publicamente contra o que chamou de “fantasias de anexação”.

“Se os Estados Unidos decidirem atacar militarmente outro país da Otan, então tudo para. Inclusive a nossa Otan e a segurança implementada desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, disse à, assegurando que está fazendo “tudo o que é possível” para evitar que isso aconteça.

Status político e autonomia da ilha

Embora esteja geograficamente no continente norte-americano, a Groenlândia integra o Reino da Dinamarca desde 1953. Em 2009, conquistou autonomia ampliada, com governo próprio e o direito de decidir sobre a independência por meio de referendo.

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O governo local afirma que qualquer mudança de status depende exclusivamente dessa decisão popular, não de pressões externas.

Interesses e limites

Além do valor estratégico, a Groenlândia desperta interesse por seus recursos naturais. O subsolo é rico em minerais críticos, além de petróleo e gás natural.

Ainda assim, projetos de mineração enfrentam resistência de comunidades indígenas e restrições do governo local, enquanto a exploração de petróleo e gás segue proibida por razões ambientais.

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Especialistas avaliam que, apesar do discurso americano, a chance de a população optar por independência seguida de associação aos EUA é baixa no curto prazo. O episódio, porém, evidencia como a disputa pelo Ártico entrou de vez no centro da agenda global, e como a retórica de Trump tem ampliado incertezas entre aliados históricos.