Como está o cessar-fogo entre Israel e Hamas após novos ataques e acusações mútuas

Israel acusa o Hamas de violar o cessar-fogo com ataque que matou dois soldados; grupo palestino nega e diz que país usa “pretextos frágeis” para retomar bombardeios em Gaza

Marina Verenicz

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O cessar-fogo entre Israel e o Hamas entrou em sua segunda semana sob tensão crescente. Apesar de ambas as partes afirmarem estar comprometidas com o acordo, novos ataques e acusações mútuas colocam em risco a continuidade da trégua, firmada em 10 de outubro com mediação dos Estados Unidos e do Egito.

No domingo (19), Israel lançou sua maior ofensiva desde o início do cessar-fogo, com ataques aéreos sobre a Faixa de Gaza e suspensão temporária da ajuda humanitária. O governo israelense afirmou que a ação foi resposta à morte de dois soldados atingidos por militantes palestinos no sul do território.

Segundo o jornal The News York Times, autoridades de saúde de Gaza relataram 44 palestinos mortos no mesmo dia. Ainda assim, representantes de Israel e do Hamas declararam publicamente que continuam comprometidos em manter o cessar-fogo.

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Acusações cruzadas

Segundo as Forças de Defesa de Israel, os ataques foram motivados por uma “violação flagrante” do acordo. O Exército disse que combatentes palestinos dispararam um míssil antitanque e depois abriram fogo contra soldados na região de Rafah, controlada por Israel.

O Hamas negou a autoria do ataque. A ala militar do grupo afirmou ter “perdido contato” com combatentes naquela área há meses, enquanto um de seus dirigentes, Izzat al-Rishq, acusou Israel de fabricar “pretextos frágeis” para justificar a retomada dos bombardeios.

No final do domingo, o Exército israelense anunciou que havia “restabelecido” o cessar-fogo, após o que classificou como uma ação pontual para “eliminar ameaças”.

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No sábado (18), militares israelenses já haviam confirmado um ataque a um veículo no norte de Gaza, que teria invadido área controlada pelo Exército. Nove pessoas morreram, entre elas quatro crianças. Segundo familiares, o carro transportava membros de uma mesma família que se perderam ao tentar deixar a cidade.

Impasse em Rafah

A suspensão temporária da entrada de ajuda em Gaza, decidida por Israel, também reacendeu tensões. O cessar-fogo prevê o envio diário de até 600 caminhões com suprimentos humanitários, mas a operação foi interrompida durante os ataques do domingo.

De acordo com fontes israelenses ouvidas pelo NYT, a paralisação deve durar “apenas enquanto persistirem os bombardeios”. A ONU informou que, desde o início da trégua, o volume de ajuda aumentou significativamente, incluindo o fornecimento de alimentos, combustível e medicamentos.

A agência humanitária das Nações Unidas declarou que “muito mais pode ser feito” caso novas travessias sejam reabertas, especialmente a de Rafah, entre Gaza e o Egito. Israel, no entanto, afirmou que a reabertura dependerá do cumprimento integral do acordo pelo Hamas, especialmente na entrega dos corpos de reféns mortos.

Troca de reféns e corpos

Durante a última semana, o Hamas devolveu 20 reféns vivos e 12 corpos a Israel. As autoridades israelenses identificaram entre as vítimas Ronen Engel (54) e Sonthaya Oakkharasri (30), trabalhador tailandês sequestrado em 2023.

O acordo prevê a devolução de 25 corpos de reféns em troca de 150 palestinos mortos, além da libertação de 2 mil prisioneiros palestinos já realizada. O Ministério da Saúde de Gaza confirmou ter recebido 30 corpos em duas entregas recentes, sem informações sobre suas identidades.

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Israel afirma que o mecanismo de troca se aplica apenas aos reféns israelenses, o que tem gerado divergências na interpretação do acordo.

Próxima fase

A segunda etapa das negociações deve tratar de pontos mais complexos, como o futuro governo de Gaza, a entrega das armas pelo Hamas e a presença militar israelense no território.

Diplomatas americanos e egípcios trabalham para retomar as conversas no Cairo. O grupo palestino enviou uma nova delegação ao Egito no domingo para discutir os impasses.

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Enquanto isso, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, acusou o Hamas de “reiteradas violações” e cobrou dos mediadores internacionais uma resposta imediata.

Nos bastidores diplomáticos, fontes envolvidas nas negociações afirmam que o cessar-fogo poderá ruir a qualquer momento se não houver avanços concretos na liberação de corpos e reféns, e na reconstrução de Gaza.