Troca de dívida pode explicar recuo na inadimplência com cheque especial

Dados do BC mostram que taxa passou de 9,7% para 6,7%. Para diretor da Anefac, consumidores estão mais conscientes

Publicidade

SÃO PAULO – A troca de dívidas pode ser um dos motivos que fez a inadimplência com cheque especial cair significativamente em fevereiro, na comparação com janeiro, de 9,2% para 6,7%. “Na verdade, o consumidor deixa de utilizar o cheque especial em substituição à outra modalidade de crédito”, afirma o diretor-executivo da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), Andrew Frank Storfer.

De todas as modalidades de crédito para pessoa física analisadas pelo Banco Central, a do cheque especial foi a única que registrou queda na inadimplência no mês passado. Segundo dados da Nota de Política Monetária divulgados nesta terça-feira (29), a inadimplência com a modalidade é a menor desde novembro de 2005, quando estava em 6,44%. As dívidas vencidas de 15 a 90 dias representaram 3,7% do total das operações.

Para Storfer, a queda pode ser pontual e, considerando que a inadimplência com a modalidade cai há apenas três meses, é cedo para determinar uma tendência de recuo. Contudo, o especialista acredita que os consumidores estão mais conscientes com relação ao custo de se manter uma dívida na modalidade. “Existe uma certa campanha para que o consumidor deixe de usar o cheque especial. E eles estão mais conscientes de que cheque especial não é renda”, afirma.

De fato, o custo de manter uma dívida com a modalidade é alto. Segundo os dados do Banco Central, a taxa de juros do cheque especial alcançou os 8,54% ao mês em fevereiro. Na comparação com janeiro, quando a taxa era de 8,72% ao mês, houve queda. Ainda assim, a dívida custa. Para se ter uma ideia do tamanho do gasto, os juros com o crédito pessoal fechou fevereiro em 3,32% ao mês.

A queda nas taxas de juros, contudo, na avaliação de Storfer, não tem relação com o recuo da inadimplência. “Não é a queda na taxa de juro que faz a queda da inadimplência ocorrer. Os juros ainda não fazem diferença para o consumidor, não afetam a decisão de compra”, afirma. Além da possível troca de modalidade, o saldo do décimo terceiro salário também pode ter sua parcela de responsabilidade na queda. Os dados do BC mostram que desde dezembro a inadimplência do cheque especial vem caindo, passando de 10,1% para 9,2% em janeiro e para 6,7% no mês passado. “Cada vez mais usa-se o saldo do décimo terceiro para quitar dívidas”, lembra o especialista.

Financiamento de veículos e outros bens
Os dados do BC mostram que houve certa manutenção da inadimplência com crédito para aquisição de veículos. Em fevereiro, a taxa ficou em 2,8%, apenas 0,2 ponto percentual acima da taxa de janeiro (2,6%). As dívidas vencidas da modalidade também se estabilizaram no período, em 6,9%.

Continua depois da publicidade

Com as medidas macroprudenciais do BC, divulgadas em dezembro do ano passado, esperava-se, de certo modo, uma queda na taxa de inadimplência, já que um menor número de consumidores conseguiriam ter o financiamento aprovado. Além disso, com as medidas, contratar crédito para financiar veículo ficou mais difícil e mais caro. Para Storfer, no entanto, essa não é a questão. “As medidas foram focadas em prazo de aquisição”, afirma. Segundo ele, para escapar de juros mais altos, os consumidores optaram por prazos menores de financiamento – o que influenciou na manutenção dos juros.

De fato, entre janeiro e fevereiro, a taxa de juros para aquisição de veículos ficou estável em 2,03% ao mês. Na comparação com dezembro, quando estava em 1,89% ao mês, houve aumento – esperado devido às medidas. Para o diretor-executivo da Anefac, em certa medida, as mudanças do Banco Central não devem mudar mais o cenário, que já as absorveu. A preocupação agora é outra. “Se a desaceleração da economia e a aceleração da inflação persistirem, o Governo deve adotar mais medidas para tentar frear isso”, afirma.

Dentre as modalidades de crédito analisadas pelo BC, a aquisição de bens (outros) também foi destaque em fevereiro, mas devido às altas na inadimplência e nos juros. No mês passado, frente a janeiro, a inadimplência passou de 8,8% para 9,7%. Já os juros passaram de 3,11% ao mês para 3,48% em um mês. Para Storfer, é possível que as financeiras menores, que concedem crédito próprio, tenham elevado os juros temerosas de um aumento mais acentuado da inflação. Porém, ele reforça que essa justificativa pode não ser suficiente para explicar o aumento dos juros e da inadimplência da modalidade.

Continua depois da publicidade

Crédito pessoal
De todas as modalidades de crédito à pessoa física analisadas pelo Banco Central, a do crédito pessoal foi a única que manteve a estabilidade em linha com os percentuais verificados em 2010, sem grandes variações. A inadimplência saiu de 4,2% para 4,3% entre janeiro e fevereiro.

Na comparação com fevereiro do ano passado, a queda foi de apenas 0,4 ponto percentual. As dívidas vencidas representaram 4,4% do total das operações – índice 0,3 ponto percentual maior que o verificado em janeiro (4,1%) e 0,6 ponto percentual acima da taxa de fevereiro de 2010 (3,8%).

Considerando a inadimplência com todos os tipos de financiamento, o índice de fevereiro, segundo o Banco Central, ficou estável em 5,8%, apenas 0,1 ponto percentual menor que o verificado em janeiro e 1,4 ponto percentual maior que o verificado em fevereiro do ano passado.