Tiroteio, furto e roubos à mão armada: violência assusta região da Faria Lima, CEP do mercado financeiro no país

Criminosos se disfarçam de entregadores de comida para abordar e assaltar pessoas que transitam no centro financeiro

Maria Luiza Dourado | Laís Martins

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O endereço do mercado financeiro no Brasil está sob alerta — e não são os solavancos da Economia que causam preocupação. A insegurança urbana é o problema da vez. Roubos à mão armada, furtos e tiroteios têm tirado a tranquilidade de quem circula pela região da Faria Lima, na zona oeste da capital paulista.

Os casos de violência acontecem em pleno asfalto, nas calçadas por onde caminham assessores de investimentos, executivos e gente que transita entre os bairros Itaim Bibi e Vila Olímpia.

A reportagem do InfoMoney colheu depoimentos de vítimas que tiveram seu pertences roubados em diferentes momentos do dia, o que leva a crer que não existe um período mais vulnerável para os ataques.

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Nem aliança de casamento escapa

No final de novembro, um tiroteio causou pânico na região da Vila Olímpia. Segundo a Guarda Civil Metropolitana, três comparsas em duas motos seguiam um outro motociclista, que entrava no estacionamento de um prédio na rua Elvira Ferraz. A vítima seria roubada se não fosse a presença de um guarda-civil de folga, que flagrou a situação e, antes de o crime ser concretizado, disparou contra os criminosos, com um tiro atingindo um deles no joelho.

Outro assalto à mão armada, também na Vila Olímpia, causou um susto e um prejuízo financeiro ao jornalista Lucas Sampaio, 38. Depois de jantar no shopping JK Iguatemi, Sampaio foi abordado por criminosos disfarçados de entregadores do iFood no momento em que entrava em seu carro, estacionado na rua Helena. Dois suspeitos deram voz de assalto e, num estalar de dedos, levaram notebooks — pessoal e corporativo —, celular e até aliança de casamento.

A economista Catharina Kako, 26, conseguiu se safar de um criminoso armado. Mas não seus três amigos que foram roubados em plena luz do dia na rua Rio da Prata, na divisa entre a Vila Olímpia e o Brooklin. Ao perceber que seria assaltada, Kako correu, mas seus amigos não conseguiram se desvencilhar do criminoso, que levou pertences, como celulares.

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A contadora Maria Clara Abib, 24, conta que as filmagens do prédio onde trabalha foram disponibilizadas recentemente a duas vítimas de assalto que estavam na Cafeteria Sterna Café, na avenida Brigadeiro Faria Lima. “Eles foram assaltados em plena luz do dia. Levaram notebooks e relógios”, relata.

Bruno Botteon foi outro a entrar nas estatísticas. Em novembro, sem conseguir êxito no transporte por aplicativo para sair do trabalho rumo à sua casa, em Pinheiros, decidiu caminhar pela avenida Brigadeiro Faria Lima. Na altura do conjunto comercial B32, popularmente conhecido como edifício da Baleia, o gerente de dados foi abordado por um rapaz de bicicleta que segurava uma mochila de entregas do iFood. O criminoso disfarçado estava armado e levou o celular de Botteon — o crime ocorreu depois das 21h.

Um modus operandi une, de alguma forma, os casos relatados nesta reportagem: os suspeitos têm se disfarçado de entregadores de comida por aplicativo para observar potenciais vítimas na rua e concretizar os crimes. O InfoMoney buscou respostas do iFood, o mais citado pelas vítimas.

Por nota, o iFood diz repudiar “veementemente o uso indevido de sua marca por pessoas que não possuem nenhuma relação direta com a empresa e que acabam depreciando a imagem dos entregadores, profissionais que diariamente atuam de forma séria e digna e acabam sendo afetados por esse tipo de comportamento de terceiros”.

A empresa afirma que, desde 2022, atua em parceria com diferentes Secretarias de Segurança Pública para disponibilizar suas tecnologias na identificação dos criminosos para a polícia e que investe em segurança no app, mantendo um processo rigoroso de checagem de novos entregadores para ingresso na plataforma. Ainda assim, o iFood não respondeu se existe uma maneira de identificar visualmente seus entregadores.

O que dizem os números?

Dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo mostram que a região do Itaim Bibi, que abriga grande parte do centro financeiro do país, vem registrando elevados índices de assaltos. As ocorrências deste ano já superaram as de todo o ano de 2022. Até setembro, a polícia registrou 1.788 casos de roubo contra 1.676 de todo o ano anterior.

A epidemia de ocorrências se dilui em outro delito que não precisa de abordagem hostil: o furto. Ana Carolina Ferreira, que trabalha na avenida Faria Lima, no edifício onde fica o Itaú Unibanco, foi furtada ao descer de um ônibus na Rua Joaquim Floriano. O aparelho foi furtado sem que ela percebesse e, pouco menos de uma hora depois, o rastreio mostrava o celular no Belém, bairro da Zona Leste paulistana localizado a quase 15 quilômetros de distância.

A analista jurídica Gabriela Vilani, 25, trabalha diante do Shopping Vila Olímpia e conta que presenciou o furto do celular de uma mulher que estava ao seu lado, na calçada, faz uma semana. O criminoso estava de bicicleta e tomou o aparelho das mãos da vítima.

Dados da SSP mostram que, de janeiro a setembro, foram registradas 4.693 ocorrências de furto no Itaim Bibi contra 3.804  em todo o ano de 2022 — alta de 23,37%. Na Vila Clementino, foram 3.325 furtos registrados em todo o ano passado e 2.936 até o fim de setembro.

Deslocamento da criminalidade

Curiosamente, até outubro, os registros de roubos caíram 10,3% em 2023 em comparação com 2022 em todo o estado de São Paulo, enquanto a quantidade de furtos cresceu timidamente, menos de 3%. A capital registrou queda de 12,1% no número de roubos e leve aumento de 1,4% nos furtos no mesmo período, cenário mais ameno do que no centro financeiro da capital paulista.

“Os números da região do centro financeiro destoam do estado e da cidade, o que significa que pode estar acontecendo um deslocamento de criminosos para o Itaim Bibi e Vila Olímpia, ou seja, uma migração do fluxo criminal da região”, analisa Allan Fernandes, especialista em segurança pública e docente da FGV. “Por isso, é fundamental procurar saber como está o trabalho da polícia na região e, sobretudo, se a força de trabalho alocada no território é suficiente”, completa.

José Vicente da Silva Filho, coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo e ex-coordenador de Análise e Planejamento da Secretaria da Segurança Pública, explica que a flutuação da violência é um fenômeno comum. “Os criminosos se fixam temporariamente em uma região até que a ação da PM aumente os riscos [de praticar delitos ali], e aí esses casos diminuem. Isso é um vai e volta quase contínuo. O que posso afirmar é que o policiamento é continuamente reajustado”, disse.

Para Rafael Alcadipani, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os casos de furto e roubo no endereço do mercado financeiro do país chamam a atenção porque a região concentra segurança privada. “É interessante ver essa migração de criminalidade para uma região marcada pelo contingente maior de agentes de segurança privados”.

Segundo o especialista, é necessário modernizar a estratégia de combate à criminalidade com tecnologia. “O videomonitoramento, com a integração de câmeras, inclusive das empresas da região, em um serviço de inteligência abrangente facilitaria a investigação da Polícia Civil e a identificação mais rápida dos grupos criminosos. É necessário um patrulhamento mais inteligente do que a viatura que vem, passa um tempo, e depois vai embora”.

Contudo, o assunto esbarra na gestão da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e nos recursos disponibilizados. “Precisa investir na Polícia Civil, que carece de efetivo e de modernização. E precisa tentar integrar os dados entre Polícia Civil e Polícia Militar. É comum ouvir da PM que diminuiu um número que aumentou segundo a Polícia Civil, porque a PM contabiliza as ocorrências de 190, e nem todo mundo é assaltado e liga no 190. Isso dificulta na hora de elaborar uma estratégia”, completa Alcadipani.

PM diz que registra queda em roubos

Procurada, a Polícia Militar informou ao InfoMoney que intensificou o patrulhamento em toda a capital por meio da “Operação Impacto – Servir e Proteger” e que os números de roubos caíram em outubro nas Delegacias Seccionais responsáveis pelas zonas sul e oeste, diferentemente do que mostra o painel de estatísticas da SSP, que compila dados da Polícia Civil.

“As forças de segurança têm alocado recursos no combate à criminalidade em todo o estado, incluindo o centro financeiro de São Paulo. Consequentemente, nas 2ª e 3ª Delegacias Seccionais, responsáveis pelas zonas sul e oeste mencionadas na reportagem, registrou-se uma redução de 6,6% nos casos de roubo em outubro deste ano em comparação com o mesmo período do ano anterior. Isso significa que 236 pessoas deixaram de ser vítimas. Além disso, na região, foram presos/apreendidos 8.618 infratores, um aumento de 1.520 em relação a 2022, representando um acréscimo de 21,4%. Adicionalmente, 732 armas de fogo foram retiradas das ruas, contribuindo para enfraquecer as atividades ilícitas”, informou a Secretaria de de Segurança Pública de São Paulo.

Já a Polícia Civil ressaltou a importância do registro de boletim de ocorrência, que pode ser feito em qualquer unidade do estado ou pela Delegacia Eletrônica (www.delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br), medida que ajuda a viabilizar a investigação, a identificação e a prisão de envolvidos em crimes.

Em momentos em que o crime tende a sobressair, o especialista em segurança pública e docente da FGV lembra que a mobilização de trabalhadores e empresas pode pressionar as forças de segurança a criarem uma ação específica para mudar a realidade do local afetado pela violência. “É importante que as pessoas se mobilizem, por meio de abaixo-assinados aportados na estrutura policial local, direcionados ao delegado titular do DP responsável pela área — na Polícia Civil, neste caso, o delegado titular do 15º Distrito Policial — e o capitão comandante da companhia — no caso, a 2ª Companhia do 23º Batalhão da Polícia Militar. Eles são o limite hierárquico a nível local nas polícias, como são os subprefeitos, quando pensamos no poder executivo”.

Maria Luiza Dourado

Repórter de Finanças do InfoMoney. É formada pela Cásper Líbero e possui especialização em Economia pela Fipe - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.