Pix ganha blindagem jurídica máxima: entenda o que muda na prática

Especialista explica porque o novo status de alto renome é importante para o sistema de pagamento instantâneo

Anna França

Bruno Peres/Agência Brasil
Bruno Peres/Agência Brasil

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Poucas marcas brasileiras alcançam o status de “alto renome” concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O reconhecimento garante o mais elevado nível de proteção previsto pela legislação e costuma ser reservado a nomes que atingiram um grau excepcional de conhecimento, confiança e reputação junto ao público.

Foi exatamente esse selo que o Pix passou a ostentar desde a última semana, tornando-se a primeira marca vinculada ao governo federal a receber esse tipo de proteção. Mas o que muda na prática para um sistema de pagamentos que já é utilizado por milhões de brasileiros há quase cinco anos?

Segundo Mariana Valverde, advogada especializada em propriedade intelectual e sócia-fundadora do Mariana Valverde Advogados, o reconhecimento não representa apenas um registro de marca comum. Trata-se de uma blindagem jurídica que amplia significativamente o alcance da proteção do nome Pix.

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“A principal consequência é que a marca passa a ter proteção em todos os ramos de atividade econômica, independentemente da classe para a qual foi originalmente registrada. Na prática, ninguém poderá registrar uma marca Pix para identificar produtos ou serviços diferentes, mesmo que não tenham relação com o sistema de pagamentos”, explica.

O reconhecimento chama atenção porque ocorre após a consolidação do Pix como um dos principais meios de pagamento do país. Desde o lançamento, em 2020, o sistema ganhou escala, confiança da população e relevância econômica suficiente para justificar o enquadramento entre as marcas de maior prestígio do Brasil.

Segundo Mariana, esse processo não acontece da noite para o dia. Para obter o reconhecimento de alto renome, o titular da marca precisa demonstrar ao INPI, por meio de pesquisas e documentação técnica, que o nome alcançou elevado grau de conhecimento e reputação junto aos consumidores.

“O próprio sucesso e a massificação do Pix foram fundamentais para justificar esse reconhecimento. É comum que marcas busquem essa proteção ampliada somente depois de comprovarem sua relevância econômica e social”, afirma.

Quais eram os riscos antes?

Embora o Pix já fosse uma marca registrada, a ausência do status de alto renome deixava algumas brechas para tentativas de aproveitamento indevido da reputação construída pelo sistema de pagamentos do Banco Central.

Segundo Mariana Valverde, durante esse período o principal risco estava na utilização do termo “Pix” por terceiros em diferentes segmentos econômicos, criando potencial confusão junto aos consumidores ou associação indevida com o sistema oficial.

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“Como a proteção marcária comum é limitada às classes em que a marca está registrada, terceiros poderiam tentar registrar ou utilizar expressões semelhantes em outros setores. Inclusive, já existiam registros anteriores contendo o termo ‘Pix’ em diferentes contextos, alguns deles anteriores à criação do sistema de pagamentos”, afirma.

Na avaliação da especialista, a falta dessa proteção ampliada poderia dificultar o combate ao uso indevido da marca, aumentar disputas administrativas e judiciais, permitir tentativas de exploração comercial da fama do Pix e gerar riscos de confusão para usuários e consumidores.

A preocupação ganha relevância justamente porque o sistema se transformou em um dos ativos mais valiosos da infraestrutura financeira brasileira. Desde sua criação, em novembro de 2020, o Pix se consolidou como principal meio de pagamento do país, movimentando R$ 1,8 trilhão só em maio, segundo o Banco Central. No último ano, os números chegam à marca de R$ 35,3 trilhões. Assim, ele reduziu drasticamente a dependência dos brasileiros pelos meios tradicionais, como cartões e boletos.

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Leia mais: Governo registra marca Pix no INPI em meio a questionamentos dos EUA

Por que o processo demorou?

O reconhecimento de alto renome também ajuda a explicar por que a proteção ampliada só foi obtida agora, quase seis anos após o lançamento do sistema. Segundo Mariana Valverde, o status não é concedido automaticamente. O titular da marca precisa comprovar, por meio de pesquisas, estudos e documentação técnica, que ela alcançou elevado grau de conhecimento, reputação e confiança junto à população.

“O próprio sucesso e a massificação do Pix foram fundamentais para justificar esse reconhecimento. É comum que marcas busquem essa proteção ampliada somente depois de comprovarem sua relevância econômica e social”, explica.

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Além disso, existe o próprio tempo de tramitação dos processos no INPI. Dados levantados pelo escritório mostram que o Banco Central protocolou os pedidos relacionados ao Pix em 20 de junho de 2024, nas modalidades nominativa e mista (nome e logotipo). A publicação ocorreu em julho daquele ano e a concessão foi concluída em março de 2026.

O prazo total de análise foi de aproximadamente 1,7 ano, período considerado compatível com a tramitação desse tipo de reconhecimento. Segundo a advogada, ao analisar as últimas dez marcas que receberam o status de alto renome, o tempo médio de processamento superou dois anos e meio.

O que muda daqui para frente?

Com o reconhecimento, o Banco Central passa a contar com instrumentos mais robustos para impedir novos registros que reproduzam ou imitem o nome Pix, mesmo em atividades sem qualquer relação com serviços financeiros. Na prática, isso reduz o risco de falsas associações, protege a identidade visual do sistema e dificulta tentativas de exploração comercial da notoriedade construída pela marca.

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“Aumenta a segurança jurídica em relação ao nome e ao símbolo do Pix, além de fortalecer a posição do Banco Central para combater usos indevidos e associações parasitárias da reputação construída pelo sistema”, afirma Mariana.

A especialista ressalta que o reconhecimento não elimina automaticamente registros antigos que eventualmente utilizem o termo em outros contextos, mas fortalece significativamente a posição jurídica do Banco Central em disputas futuras.

Pressão dos EUA

O reconhecimento ocorre em um momento de forte exposição internacional do Pix. Nos últimos meses, o sistema brasileiro entrou na mira do governo dos Estados Unidos. Relatório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) apontou que o modelo brasileiro de pagamentos instantâneos poderia prejudicar empresas americanas do setor de meios de pagamentos, como Visa, Mastercard e WhatsApp Pay. O documento chegou a sugerir medidas comerciais contra produtos brasileiros sob a alegação de práticas consideradas desleais.

Embora o reconhecimento de alto renome não tenha relação direta com a disputa comercial, a especialista avalia que a decisão reforça institucionalmente um dos ativos digitais mais bem-sucedidos já criados pelo sistema financeiro brasileiro.

Mais do que um meio de pagamento, o Pix passou a representar uma infraestrutura estratégica para a economia nacional. E o selo de alto renome consolida e protege juridicamente uma realidade que já estava estabelecida no cotidiano dos brasileiros.

Anna França

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro