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*por: Eliana Bussinger
Você já deve estar lendo um assunto, que é hoje, recorrente na mídia: crise na economia americana. Muitos julgam que o pior já passou, outros que há ainda muito para acontecer, inclusive recessão em diversos países do mundo.
No Brasil, não há consenso sobre os efeitos dessa crise em nossa economia. Alguns julgam que o país está imune a esses solavancos. Outros acreditam que, ao contrário, sofreríamos terrivelmente com uma recessão nos EUA.
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Por que deveríamos estar mais preocupados dessa vez? Afinal, uma dezena de crises já nos assolou nos últimos 40 anos. Os brasileiros, especialmente os mais maduros, sabem muito bem o que é uma crise econômica.
A meu ver, no entanto, há algo inusitado a respeito dessa nova crise que, bem ou mal, fica assombrando no horizonte: algo como uma nova dimensão psicológica que está associada com novos valores e crenças que foram introduzidas muito recentemente na sociedade brasileira.
O nome dessa nova dimensão? Individualismo econômico.
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Individualismo econômico
Em períodos assim as pessoas passam a ter a certeza de que o fluxo de caixa – que é o dinheiro que entra no bolso de cada um – é cada vez mais variável e cada vez mais dependente do indivíduo. Ora, em épocas de crise econômica essa variação é ainda maior e, não raro, bastante assustadora.
Aqui reside o inusitado da possível nova crise para o brasileiro: simplesmente não saberemos como ela irá nos afetar e muito menos saberemos como agir. Os economistas encontrarão algo, certamente, tanto para justificar quanto para solucionar os problemas macroeconômicos que venham a surgir. Mas, sob o ponto de vista individual, que eu gosto de chamar de nanoeconomia, creio que dessa vez teremos que requisitar o trabalho de psicólogos também.
Sim, porque essa nova consciência atuou não apenas nas relações sociais, mas no inconsciente das pessoas, direcionando-as para a individualidade, à aversão ao convívio social, a dificuldades nos relacionamentos, à ojeriza da dependência financeira.
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A nanoeconomia
Então, acabamos ficando sem ação e a habilidade do coletivo, do grupo, das associações. Passamos a temer os impostos que corroem os nossos ganhos. E a temer mais ainda a falta de opções para investir e garantir o nosso futuro. As rentabilidades estão pequenas, a inflação não sabe se sobe ou desce, os índices das bolsas de valores derretem… e agora, e agora? Onde investir e garantir o futuro que está sob meus próprios ombros? Como administrar a nanoeconomia do lar?
Além da crise, surge a possibilidade da inconveniência de depender de alguém. Sim, mas nos indagamos, depender de quem? Governo, filhos, empresas? Talvez as ONGs? Não, elas não protegem a classe média.
Afinal, nunca antes vivemos um período assim. Ao contrário. No passado, redes de proteção estavam por todos os lados, desde a segurança da previdência pública até aumentos salariais que compensavam as perdas inflacionárias, por exemplo.
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Mas, hoje, se a crise pegar você em algum tipo de trapézio, pode apostar que ao olhar lá para baixo você verá apenas o chão duro. E isso vale, especialmente, para a classe média.
Passado
No passado, mesmo com crises, até era possível construir um futuro interessante, bastava administrar bem o dinheiro, caminhar passos lentos, mas contínuos, em direção aos nossos objetivos e – voilá – conseguíamos atingir muitos deles ao longo da vida.
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Havia uma forte certeza de que os salários e a correção monetária estariam lá no fim do mês. Em muitas das crises que citei no início, podia faltar dinheiro no bolso, mas certas coisas estariam disponíveis, porque não eram da responsabilidade de cada um, mas sim de todos.
Dessa vez, se a crise vier e o dinheiro faltar, não será apenas moradia, vestuário e alimentação que serão afetadas. Outras coisas, cuja responsabilidade deveria ser de quem recebe nossos impostos, mas que recaíram sobre nossos ombros, também sofrerão um baque.
A nossa saúde poderá ser afetada, porque pode faltar dinheiro para o seguro de saúde privado; a educação pode ir para o brejo junto com a falta de pagamento das escolas privadas; locomover-se de um canto a outro pode se tornar insuportável se não pudermos manter nossos carros; poderemos nos sentir ainda mais inseguros se a crise afetar a nossa capacidade de pagar nossos seguros de furtos e de vida.
E o nosso futuro? Bom, esse ficará ao Deus dará se não pudermos arcar com as mensalidades das nossas previdências privadas.
Sem dúvida “como nossas mães nunca mais”, como diria o subtítulo do meu livro “As leis do dinheiro para Mulheres”. Ao menos em se tratando de crises, não mais passaremos por elas da forma como passaram nossos pais, afinal, “como nossos pais também nunca mais”.
Eliana Bussinger é estrategista. Autora da Coleção Expomoney de Finanças Pessoais Campus/Elsevier.
elianabussinger@gmail.com