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O governo federal lançou o Move Brasil para ajudar motoristas de aplicativo e taxistas a comprar um carro novo com juros abaixo do mercado. Poucos dias antes de o crédito começar a ser liberado, a Uber anunciou uma mudança: a partir de 2027, vários modelos deixam de ser aceitos nas categorias premium do aplicativo.
Entre eles o BYD Dolphin, o carro elétrico mais procurado por quem dirige por app e justamente um dos modelos que o programa do governo permite financiar.
Pela atualização anunciada pela Uber, a partir de 11 de janeiro de 2027 dez modelos deixam de ser aceitos na Black, independentemente do ano de fabricação: Audi A3, Caoa Chery Arrizo 5, Chevrolet Cruze, Citroën C4 Cactus, Citroën C4 Lounge, Hyundai Ioniq, Renault Duster, Toyota Prius, Volkswagen Nivus e Volkswagen Virtus — este último só a partir de 5 de julho de 2027.
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Move Brasil: veja quais bancos vão financiar carros para motoristas de app e taxistas
Programa oferece juros mais baixos na compra de veículos novos

Move Brasil libera hoje crédito para motoristas de app e taxi: vendas devem subir 15%
Estão cadastradas 11 montadoras e 42 modelos de veículos. O valor máximo do veículo é de R$ 150 mil
Quem tem esses carros poderá seguir rodando na categoria Comfort, se atender aos demais requisitos.
Outros onze modelos saem da Comfort e passam a operar apenas no UberX: Chevrolet Joy Plus, Chevrolet Prisma, Fiat Argo, Jac iEV40, Jac J3 Turin, Kia Rio, Peugeot 208, Renault Zoe, Toyota Yaris, Volkswagen Polo e Volkswagen Voyage.
A empresa também elevou o ano mínimo de fabricação exigido para permanecer nas categorias premium — critério que varia conforme a cidade de cadastro do veículo. Segundo a Uber, a relação de modelos é revista periodicamente e leva em conta fatores apontados pelos próprios passageiros, como conforto, espaço interno e acabamento.
O caso do BYD Dolphin é específico: o modelo ainda pode ser usado na Black, mas com prazo. Pela regra de transição, o acesso à categoria vai até 31 de dezembro de 2027.
Desistiu do financiamento
O resultado é uma conta que deixou de fechar para muitos motoristas: comprar, com financiamento de até seis anos, um carro que vai perder, antes do fim das parcelas, acesso à categoria que paga mais, segundo dados de um levantamento que pode ser conferido no decorrer desta reportagem.
Maycon Silva Canaan, de 38 anos, vive exclusivamente dos aplicativos, principalmente da Uber. Ele já tem um BYD Dolphin GS e havia montado um planejamento a partir do Move Brasil: financiar um segundo carro, alugar o elétrico que já possui e seguir trabalhando, somando o aluguel à própria renda nas corridas.
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— A minha ideia era comprar outro carro, alugar esse que é uma fonte de renda e trabalhar no outro — conta.
Segundo Maycon, o plano desabou quando a Uber divulgou a lista de carros que saem das categorias premium em 2027. O Dolphin está nela.
— A Uber já lançou a lista de carros de 2027 antes do programa. Está pegando o meu carro e tirando da categoria Black — diz.
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Maycon tem o nome negativado e contava com o fundo garantidor do programa para conseguir o crédito. Mas, com o carro saindo da categoria mais bem paga, desistiu — e diz não estar sozinho.
— Tenho um grupo com 37 pessoas, só com carro elétrico, que queriam trocar. Ninguém mais quer, praticamente — afirma.
Segundo Maycon, o relato se repete em grupos de motoristas de carros elétricos, que passaram a trocar mensagens reclamando da mudança às vésperas do início do programa.
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Um carro de R$ 150 mil para rodar no Comfort
A mudança bate de frente com o Move Brasil. O programa permite financiar veículos de até R$ 150 mil que sejam flex, híbridos, elétricos ou movidos a etanol — e o BYD Dolphin, vendido por cerca de R$ 149 mil, é um dos carros-vitrine dessa lista.
Na prática, um motorista pode financiar o Dolphin em até 72 meses pelo programa e ver o carro perder o acesso à Black já no fim de 2027 — antes da metade do financiamento. Para Maycon, é uma contradição:
— Você vai comprar um carro de R$ 150 mil para ser Uber Comfort. Se pegar R$ 80 mil, compra um Corolla usado e entra no Black — resume.
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Quanto se perde ao cair de categoria
O argumento dos motoristas — de que a mudança da categoria significa ganhar menos — é sustentado por números. Um levantamento da GigU, um app que os motoristas usam para acompanhar ganhos nas corridas, comparou as três categorias de carro da Uber a partir de uma base de 149.197 motoristas que rodam nas versões X, Comfort ou Black. Os valores são medianas e foram medidos por hora trabalhada e por quilômetro rodado. Esse cuidado evita que a comparação seja distorcida pelo fato de uns motoristas trabalharem muito mais horas do que outro
Em um mês de 260 horas trabalhadas, o motorista que roda na categoria Black fatura, na mediana nacional, R$ 10.825, contra R$ 9.279 da Comfort e R$ 8.119 do UberX.
Isso significa que cair da Black para a Comfort representa R$ 1.546 a menos de faturamento por mês. Em lucro líquido — já descontados custos como recarga, manutenção e seguro —, a diferença é de cerca de R$ 1.240 (R$ 4.983 na Black, contra R$ 3.742 na Comfort), aponta o estudo.
Por quilômetro, a categoria Black paga, em média, R$ 2,08, ante R$ 1,68 da Comfort e R$ 1,50 do UberX, segundo a GigU.
— A mudança da categoria Black, na Uber, impacta diretamente o planejamento de milhares de motoristas, que se programaram por anos pra conseguir pagar um financiamento ou que investiram um valor alto pra subir de categoria, porque ganhariam mais. Sob a ótica de lucro, há motoristas que podem ganhar metade do que ganham hoje — Paolo Valle, líder de Dado da GigU
Os números batem com a experiência relatada por Maycon, que acompanha os próprios ganhos por um aplicativo de corridas: ele estima receber de R$ 2,50 a R$ 3 por km na Black e de R$ 1,60 a R$ 1,80 na Comfort.
O levantamento mostra ainda que a vantagem da Black não vem de rodar mais. Em jornadas iguais, de 60 horas por semana, os motoristas das três categorias percorrem distâncias parecidas — entre 5.200 e 5.500 km por mês. O que muda é quanto cada hora e cada quilômetro pagam.
— A mudança da categoria Black, na Uber, impacta diretamente o planejamento de milhares de motoristas, que se programaram por anos pra conseguir pagar um financiamento ou que investiram um valor alto pra subir de categoria, porque ganhariam mais. Sob a ótica de lucro, tem motoristas que podem ganhar metade do que ganham hoje — Paolo Valle, líder de Dados da GigU.
O que a Uber respondeu
O EXTRA perguntou à Uber se houve, ao longo dos anos, redução no tempo que um veículo permanece elegível na Black; quantos motoristas devem ser afetados pelo rebaixamento em 2027; qual a diferença de remuneração por quilômetro entre as categorias; e como a empresa avalia o impacto na renda de quem ainda paga o carro.
Em nota, a Uber afirmou que todas as informações sobre a atualização, que ocorre anualmente, estão na publicação oficial do programa. Disse ainda que “nenhum modelo de carro atualmente aceito deixará a plataforma da Uber”.
A empresa também explicou que “veículos são elegíveis para diferentes categorias da plataforma e os motoristas podem, inclusive, escolher mais de uma modalidade simultaneamente, de acordo com as suas preferências, desde que sigam os requisitos de cada uma delas”.
A Uber, porém, não informou quantos motoristas serão afetados pela mudança, não respondeu se o prazo de permanência na Black era maior no passado e não comentou a diferença de remuneração entre as categorias nem o impacto sobre a renda de quem financia o carro — justamente o ponto levantado pelos motoristas. A resposta também não trata da principal queixa: o problema apontado não é o carro sair da plataforma, e sim deixar a categoria que paga mais.