Edemar Cid Ferreira: uma vida regada a arte, cifras e processos

Dono do Banco Santos, chegou a ser considerado o brasileiro do ano em 2000, mas viu sua fortuna ruir após acusações de fraude

Publicidade

SÃO PAULO – Estudo, família, sucesso profissional, riqueza, reconhecimento. Tais características a primeira vista parecem a descrição de uma vida perfeita. E na maioria das vezes é isso mesmo o que elas representam. Mas, como diz a velha máxima: para toda regra há uma exceção.

Personagens do Mercado dessa vez vai destrinchar a história do ex-banqueiro mais famoso do País, Edemar Cid Ferreira, que, apesar do amor pela arte, foi no mercado financeiro que ficou conhecido.

Fundador do Banco Santos, Cid Ferreira foi do céu ao inferno ao ver sua instituição figurar entre as mais sólidas do Brasil em meados da década de 1990 e ser preso em 2006, acusado, entre outras coisas, de crime contra o sistema financeiro.

Entre arte e cifras

A história de Cid Ferreira começa em 31 de maio de 1943, na cidade litorânea paulista de Santos. Crescido em meio à efervescência cultural e política de sua época, Cid Ferreira tomou gosto pela arte e pela militância desde pequeno. Quando jovem, seu principal objetivo era fazer carreira no teatro, com forte influência de ninguém menos que Patrícia Galvão, mais conhecida como Pagu, a modernista e ex-mulher de Oswald de Andrade.

Entre suas peripécias no meio artístico, Cid Ferreira datilografou o manuscrito original da peça Barrela, uma das obras que serviram de suporte para fixar o nome de Plínio Marcos no hall de autores mais revolucionários da dramaturgia brasileira. Como recompensa ao amigo, Plínio Marcos presenteou Cid Ferreira com uma participação na primeira montagem do espetáculo, que anos depois entraria para a história da arte nacional.

Mas, se a carreira artística parecia ter um futuro promissor, Cid Ferreira tomou então a decisão poderia a esta altura ser considerada entre as mais importantes de sua vida, senão a mais. No início da década de 1960, o então garoto decide abandonar os palcos para lidar com as cifras. Após deixar o PCB (Partido Comunista Brasileiro), forma-se em economia pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, e em 1963 ingressa em seu primeiro trabalho reconhecido no setor financeiro, no Banco do Brasil.

Mas, como todo líder que se preze, Cid Ferreira era inquieto com suas ideias e não tinha medo de tomar decisões arriscadas quando lhe parecia adequado. Em 1969, sem receios, o jovem economista compra a carta patente de uma corretora de seguros e inaugura a Santos Corretora, em homenagem à sua cidade natal.

Um risco que deu certo: o nascimento do Banco Santos

Após ter trocado o cargo no Banco do Brasil para se arriscar no próprio negócio, Cid Ferreira viu sua corretora de seguros gerar frutos, mesmo atravessando o período político mais delicado da história brasileira: a ditadura. Em 1994, quando já tinha recursos suficientes, o então empresário realiza o sonho de se tornar banqueiro: a Santos Corretora virou Banco Santos.

A conjuntura econômica do País na época de seu surgimento ajudou o Banco Santos a figurar em pouco tempo entre as instituições financeiras mais sólidas do Brasil. Apoiado pelo novo Plano Real, o Banco Santos chegou a ter um patrimônio líquido de R$ 250 milhões e a contar com uma base de dois mil clientes entre pessoas jurídicas e físicas, administrando uma carteira de ativos de R$ 900 milhões – dados expressivos para um banco tão recente.

No clima de comemoração do aniversário de seis anos do Banco Santos, a esta altura já casado e com filhos, Cid Ferreira foi considerado no ano 2000 pela Revista Isto É como o “brasileiro do ano”. Banqueiro de sucesso, chefe de família e amante das artes, o executivo figurou na capa da edição de junho da revista.

“Ainda que conviva com números generosos, aos 57 anos Edemar Cid Ferreira continua sendo um banqueiro atípico, dividido entre números e sua exacerbada paixão pela arte. É daqueles que gastam fins de semanas percorrendo galerias de arte”, definiu a revista à época. 

Gastos com a arte e imóveis

O amor pelo mercado financeiro se confundia em momentos com a paixão pela arte. No auge de sua vida bancária, Cid Ferreira não poupava recursos quando o assunto era quadros, pinturas, monumentos. O executivo chegou a ser presidente da Fundação Bienal de São Paulo. Após gastar milhões em arte, Cid Ferreira juntou um acervo de dar inveja aos colecionadores mais assíduos.

A pujança financeira do banqueiro nesta época não apenas se restringia às compras de itens artísticos. No ano passado, a mansão de Cid Ferreira no Morumbi, em São Paulo, teve parte de sua área total demolida por estar em desacordo com a legislação municipal.

Do céu ao inferno: a falência do Banco Santos

A vida de Edemar Cid Ferreira mudaria drasticamente em 2004. De olho na deterioração rápida das contas do Banco Santos, o Banco Central do Brasil determinou naquele ano a intervenção na instituição. A suspeita inicial era de uma espécie de venda casada: cessão de empréstimos a empresas com dificuldades financeiras em troca de compra de títulos e investimentos em empresas situadas em paraísos fiscais.

A medida gerou um saque em massa dos investidores levando o déficit patrimonial do banco a R$ 700 milhões.

O escândalo deu início a uma investigação do Ministério Público, afastando Cid Ferreira e os diretores do Banco Santos de seus cargos. Como medida de emergência, os clientes do banco foram restritos de sacar de suas contas, poupanças e investimentos uma quantia máxima de R$ 20 mil, sendo que os demais recursos foram bloqueados até que o desfecho das investigações fosse revelado. A falência do Banco Santos era inevitável.

Em novembro de 2005, um ano após esta liquidação decretada pelo BC brasileiro do Banco Santos, a Justiça Federal anunciou a falência da instituição financeira. Mais o pior ainda estava por vir. Como resultado das investigações do governo, o já ex-banqueiro foi denunciado pelo Ministério Público Federal, junto com 18 ex-dirigentes do Banco Santos, por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e gestão fraudulenta.

Esta foi a primeira acusação de muitas. Cid Ferreira recebeu processos também por manter contas ilegais no exterior. As diversas acusações colocaram o ex-banqueiro atrás das grades em maio de 2006, junto com seu filho Rodrigo Cid Ferreira, que cuidava das operações do Banco Santos e da subsidiária Santos Seguradora.

Ambos foram condenados a cumprir penas de 21 e 16 anos de reclusão, respectivamente. Na primeira vez em que foi preso, Edemar ficou cerca de três meses detido. Na segunda, a detenção durou 15 dias, já que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes cedeu habeas corpus, em 28 de dezembro de 2006, ao ex-banqueiro e também a seu filho.  

Dura realidade

Apesar de ter sido solto, o ex-bancário viu seus bens, os quais incluem as inúmeras obras de arte, fazerem parte da massa falida do Banco Santos. O rombo da instituição financeira foi estimado em R$ 2,9 bilhões. Em abril de 2009, Cid Ferreira foi condenado a pagar à Fazenda Nacional a cifra de R$ 9,9 milhões por não ter prestado contas dos recursos recebidos entre dezembro de 2003 e igual mês de 2004, provenientes de patrocínios ao projeto “Retrospectiva Picasso”.

Após ter negociado por seis anos com a justiça norte-americana e o DCRI (Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional), o governo brasileiro conseguiu repatriar os bens que pertenciam ao ex-banqueiro e que estavam nos Estados Unidos. O acerto de contas é feito com obras de arte como a tela “Figures Dans Une Structure”, do pintor uruguaio Joaquín Torres Garcia, avaliada em mais de meio milhão de reais.

Em 30 de junho deste ano o administrador judicial da massa falida do Banco Santos, Vânio Aguiar, começou a efetuar pagamentos aos credores, que reclamam dos valores creditados e também da morosidade do processo.

O julgamento de seu habeas corpus foi suspenso em março de 2010 pelo ministro Eros Grau, do Supremo Tribunal Federal, após outro ministro do STF (Joaquim Barbosa) ter votado contra a decisão tomada por Gilmar Mendes em dezembro de 2006, a qual resultou no alvará de soltura do ex-banqueiro. Uma nova sessão para definir se Cid Ferreira segue em liberdade ainda não foi marcada.