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SÃO PAULO – Desenvolver o lado masculino. Essa orientação para as mulheres soa estranha, às vésperas da comemoração do dia delas, mas, segundo a professora de finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas), Myrian Lund, é da união e do equilíbrio desses dois lados que vem o controle financeiro tão desejado agora nesses tempos de crise.
“Não se trata de querer ser o homem”, afirma Myrian, mas de “uma mudança de cultura, de mentalidade”. A mulher precisa aprender a lidar melhor com o dinheiro, incorporando à sua vida a organização, a racionalidade e o planejamento, características atribuídas mais aos homens, principalmente nessa área. “Assim como eles precisam também desenvolver um pouco do lado feminino, que é o espírito de equipe, o lado mais afetivo, que é o que a sociedade vem pedindo hoje”, comenta.
Essa transformação, para a maioria das mulheres, é difícil (mas não impossível), enfatiza a docente, principalmente por causa da educação que eles e elas recebem. “A mulher demora a sair de casa e a própria educação ainda a leva a não assumir determinadas responsabilidades que um homem assume mais cedo, então, obviamente, isso vai se refletir na vida dela lá na frente”, explica, acrescentando que, por outro lado, “o homem, querendo ou não, já cresce com a ideia de provedor, de ter de ir à luta”.
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Planejar, orçar e investir
Embora complexa, essa mudança de padrão, quando conquistada, pode ser concretizada com ações mais simples do que se imagina, começando por um planejamento estratégico, para os próximos seis meses, no mínimo, tal como fazem as empresas. Em seguida, vem a organização do orçamento, para saber os ganhos e, especialmente, os gastos. “Faça um orçamento para as despesas, quais são as fixas e as variáveis e o quanto quer juntar todo mês para o futuro, para ter uma aposentadoria tranquila”, explica Myrian, que também é planejadora financeira do IBCPF (Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros).
Em relação a esse último ponto, a professora destaca a importância de não protelar o investimento, citando como exemplo o fundo de previdência, considerado de longo prazo. “Quando mais cedo a mulher começa a contribuir, mais o dinheiro vai trabalhando por ela. Com 20 e poucos anos, se ela junta R$ 100 por mês, terá uma aposentadoria de uns R$ 4 mil, mas se deixar para mais tarde, o esforço será muito maior”, comenta, enfatizando que reservar uma parte do salário, assim que recebê-lo, deve se tornar um hábito. “Quem consegue juntar dinheiro é a mulher que reserva esse dinheiro como se tivesse 10% de um imposto para pagar sobre o que recebe, como se fosse uma despesa. É isso que ela vai se dar de presente”, recomenda.
Gastos e despesas: tudo por escrito
Já para o controle de gastos que, segundo a professora, hoje são maiores, por questões de beleza e estética, o acompanhamento diário e por escrito continua sendo a melhor alternativa. “Há pessoas que tiveram muito sucesso quando começaram a anotar em um caderninho tudo o que gastavam no dia”. Dessa forma, observa, é possível se conscientizar dos desperdícios que, por menores que sejam, podem fazer falta, o que pode levar ao endividamento desnecessário e até comprometer objetivos futuros. “Se formos parar para pensar, R$ 2 por dia são R$ 720 em um ano. Com esse dinheiro, já dá para ter umas boas férias”.
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A lista de compras deve ser outro item essencial, principalmente se a mulher tem o que a professora define como perfil da sonhadora. Apesar de, segundo ela, serem criativas e alegres, essas mulheres, diferentemente das analíticas e operacionais, trabalham com a emoção em todos os aspectos da vida. “Se vão a um mercado sem uma lista elas acabam comprando todas as promoções”. A impulsividade pode ser outra armadilha, que só o tempo ajuda a combater. “Se não estava planejado, não compre na hora. A armadilha é quando a mulher não se dá um tempo para pensar”, afirma Myrian, dando uma recomendação que ela própria segue: “Se gostei de alguma coisa, nunca levo no dia. Se for muito importante, volto no dia seguinte para comprar, se não for, não volto”.
Planejamento também requer objetivos
Além de ter noção do quanto recebe e quanto gasta, diz Myrian, ao fazer o planejamento, a mulher deve saber o que deseja realizar em sua vida, traçando objetivos de curto, médio e longo prazo, atitude que, segundo a professora, também ajuda a evitar as tentações consumistas. “Quando a mulher tem objetivos, fica muito mais fácil não se deixar levar por tantos convites na hora de ir a um shopping ou de sair à rua”, explica, adicionando a vantagem de se “trabalhar o dinheiro de forma separada”. “Se a mulher tem um objetivo de curto prazo, comprar um carro ou fazer uma plástica, por exemplo, começa a guardar dinheiro para isso, mas não vai juntar com os R$ 100 que está poupando para a sua aposentadoria. Esse é o seu objetivo de longo prazo”.
Para nenhuma meta cair no esquecimento, mais uma vez, a organização por escrito das ideias se faz necessária. “Tem de ser visível, porque, quando a mulher faz as contas de cabeça, ela acaba se perdendo nos sonhos e, nos sonhos, tudo é possível”, completa.