Crédito caro eleva inadimplência com cheque especial, dizem especialistas

E tendência, avaliam, é que os juros subam mais. Por isso, eles alertam que consumidor precisa mudar comportamento de consumo

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SÃO PAULO – O encarecimento do crédito é o principal motivo apontado por especialistas consultados pelo InfoMoney para o aumento da inadimplência com cheque especial verificado em maio, conforme dados divulgados nesta terça-feira (28) pelo Banco Central. Das modalidades analisadas pela autoridade monetária, o cheque especial foi o que registrou o maior aumento na taxa, de 1,1 ponto percentual na comparação com abril, para 9% – a maior taxa desde novembro do ano passado (9,2%).

“Os juros têm subido sistematicamente porque essa é a maneira que o BC encontrou para controlar a inflação”, afirmou o professor de Finanças do Ibmec, Nelson de Sousa. Os dados da Nota de Política Monetária mostram que os juros para o consumidor se mantêm no maior patamar desde 2009, a 46,8% ao ano e a 3,25% ao mês.

Aliado ao encarecimento do crédito, o comportamento do consumidor ajuda a elevar a inadimplência geral, que, segundo o BC, ficou em 6,4%, apresentando uma alta de 0,3 ponto percentual frente a abril.

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Com a economia estável, o mercado de trabalho em expansão e o aumento da renda, os brasileiros passaram a gastar mais, principalmente os que ascenderam. A nova classe média, mesmo com a inflação elevada, não quer deixar de comprar os produtos que agora pode colocar no carrinho. “As pessoas estão gastando mais do que recebem e as dívidas chegam a representar de 4 a 5 meses de trabalho das famílias”, afirma Sousa. Com isso, aumenta a tendência de utilizar o “crédito fácil” para sanar os gastos a mais. 

Estudo divulgado na segunda-feira (27) pela LCA Consultores mostra que o endividamento das famílias atingiu em abril 40% da massa de renda, considerando os benefícios da Previdência Social. Pelo estudo, o número de meses para arcar com o débito é de 4,8 meses.

Medidas com efeitos prolongados
As medidas macroprudenciais do Governo, adotadas no ano passado no sentido de diminuir o consumo e evitar uma elevação mais intensa dos preços, estão no cerne da elevação dos juros. “Os efeitos começaram a aparecer. Agora, está havendo uma acomodação, mas as medidas ainda devem trazer novas consequências”, acredita o professor de Economia da Trevisan Escola de Negócios, Alcides Leite.

O professor explica que, com o novo ciclo de aperto monetário, baseado no aumento sucessivo da taxa de juro básica (Selic), o crédito tende a ficar ainda mais caro. Resultado: mais famílias devem se endividar. Apesar disso, Leite acredita que os consumidores estão cada vez mais conscientes e pensam melhor antes de entrar no cheque especial ou mesmo contratar crédito pessoal.

“Existe uma defasagem entre o aumento dos juros e a queda do consumo. As famílias agora estão nivelando o consumo”, acredita o professor. Para Sousa, do Ibmec, mudar o comportamento de consumo é o ponto principal para driblar a inflação e o encarecimento do crédito. “As pessoas terão de ajustar o padrão. É complicado, porque você se acostuma a consumir determinados produtos e é difícil largar isso”, afirma.

Outras modalidades de crédito
Os dados do BC apontam para um aumento da inadimplência no crédito pessoal, de 4,5% para 4,6%, na modalidade aquisição de bens (outros), de 11,8% para 12,7%, e na aquisição de veículos, de 3,2% para 3,6%.