Consórcio conquista jovens e vai além da compra parcelada

Nova geração impulsiona mudanças no perfil do setor e ajuda a transformar a forma como o produto é visto no Brasil

Carla Carvalho

Imagem de Simon Maage na Unsplash
Imagem de Simon Maage na Unsplash

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Muita gente associa o crescimento do consórcio aos juros altos. De fato, essa alternativa ganha força quando financiar fica mais caro, mas uma mudança de comportamento dos jovens também ajuda a explicar por que a modalidade continua crescendo e atraindo um novo perfil de consumidor. 

Uma pesquisa da Kantar Brasil para a ABAC (Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios) no início de 2025 identificou que o consórcio vem ganhando popularidade entre a geração Z. No levantamento, 58% dos entrevistados afirmaram conhecer a operação, indicando um interesse crescente por esse tipo de planejamento financeiro. 

Na avaliação dos diretores da Rodobens Sebastião Cirelli (consórcios) e Rafael Dolabella (marketing), o fato também tem a ver com hábitos de consumidores que cresceram em um contexto de mobilidade compartilhada, bancos digitais e mais acesso à educação financeira. Ambos conversaram com o InfoMoney sobre a nova dinâmica do universo dos consórcios, que tem outros componentes fortes além do cenário econômico.

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O consórcio passou a acompanhar diferentes projetos de vida

Durante muito tempo, quem fazia um consórcio geralmente queria comprar um carro ou um imóvel. Hoje, esse caminho já não é único, o que fez o produto acompanhar diferentes momentos da vida e objetivos financeiros.

“Independentemente de crise, as pessoas compram menos carros hoje, pois contam com alternativas de mobilidade e desenvolveram novos hábitos de consumo. Mesmo assim, o consórcio continua crescendo”, afirma Cirelli.

O executivo traz o exemplo do antigo carro popular, que perdeu espaço em detrimento da motocicleta, do seminovo e de outros propósitos financeiros. Hoje, muitos jovens começam pela motocicleta ou por um carro seminovo, enquanto outros preferem direcionar seus recursos para objetivos completamente diferentes. Em vez de acompanhar apenas um tipo de compra, o consórcio passou a fazer parte de diferentes estratégias de planejamento.

“Tem o jovem que não quer mais carro. Mas também tem aquele que quer construir patrimônio e usa o consórcio como primeiro passo dessa trajetória no planejamento financeiro”, resume Cirelli.

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De compra parcelada a estratégia financeira

A mudança no perfil dos consumidores também ampliou a forma como o consórcio é utilizado, e isso acompanha uma visão mais ampla sobre finanças pessoais.

Hoje, o debate não é somente sobre cortar gastos e investir melhor. Educação financeira também significa saber como gastar, escolher o momento certo de fazer uma compra e entender qual instrumento financeiro faz mais sentido para cada objetivo.

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É nesse contexto que o consórcio passou a ganhar um novo espaço. Segundo Cirelli,  muitos clientes passaram a utilizá-lo para organizar a compra de bens sem comprometer as reservas financeiras.

Na prática, isso significa, por exemplo, preservar aplicações enquanto a compra é planejada por meio do consórcio. Em outros casos, o objetivo é adquirir um imóvel para gerar renda com aluguel ou construir patrimônio de forma gradual, sem concentrar todo o capital em uma única aquisição.

Cada fase da vida pede um consórcio diferente

A diversificação dos objetivos também mudou o perfil de quem procura o produto. Segundo a Rodobens, consumidores entre 18 e 30 anos já representam 15,8% das novas cotas comercializadas, quase o dobro da participação desse público na carteira total de clientes ativos, de 8,4%.

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Esse crescimento aparece de formas diferentes conforme a fase da vida e a renda do consumidor. Entre os mais jovens, a motocicleta costuma ser a porta de entrada por representar uma alternativa de mobilidade mais acessível. Em outros casos, o primeiro passo é um carro seminovo, visto como um estágio intermediário antes da compra de um veículo zero-quilômetro.

Mas a mudança vai além do mercado automotivo. O consórcio de serviços também ganha destaque, e passa a financiar objetivos como viagens, cursos de especialização, intercâmbios, reformas e procedimentos estéticos. Já no segmento imobiliário, cresce o número de jovens que enxergam a modalidade como uma forma de começar a construir patrimônio mais cedo.

Temos observado jovens empreendedores que já pensam em formar patrimônio. Eles querem chegar aos 40 anos com a vida financeira mais estabilizada e usam o consórcio para começar essa construção”, afirma Cirelli.

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Rafael Dolabella observa que as escolhas também variam conforme a renda, o que mostra a versatilidade do consórcio. Enquanto consumidores das classes C e D tendem a adquirir mais motocicletas e serviços, quem possui maior capacidade financeira costuma antecipar projetos de compra de automóveis e imóveis.

O consórcio também ajuda a construir crédito

Para muitos jovens, a primeira dificuldade na hora de financiar um bem não é a falta de renda, mas não ter histórico de crédito. Sem movimentação suficiente ou relacionamento com instituições financeiras, conseguir aprovação em operações de maior valor pode ser um desafio.

Segundo Cirelli, o consórcio pode contribuir justamente nessa etapa da vida financeira, indo além da simples consulta a cadastros tradicionais.

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“O jovem muitas vezes ainda não tem score ou histórico de crédito. Ao pagar as parcelas do consórcio, ele vai construindo esse relacionamento, e quando chega a hora de utilizar a carta, esse histórico também passa a fazer parte da análise”, explica.

Um produto antigo que aprendeu a falar com uma nova geração

O crescimento do público jovem também obrigou as administradoras a rever a forma de vender e prestar atendimento. Se antes o processo dependia de documentos físicos e atendimento presencial, hoje boa parte da jornada acontece pelo celular.

Segundo a Rodobens, já é possível contratar um consórcio de forma totalmente digital, acompanhar assembleias, ofertar lances e resolver praticamente toda a operação por aplicativo ou WhatsApp.

Essa experiência conversa com um consumidor acostumado aos bancos digitais e ao autoatendimento. Em vez de procurar uma agência ou depender de um vendedor, muitos jovens preferem pesquisar, comparar opções e contratar produtos financeiros diretamente pelo smartphone.

Para Rafael Dolabella, a digitalização também ajudou a quebrar a imagem do consórcio como um produto voltado aos “mais velhos”. A facilidade de acesso à informação e a presença nas redes sociais aproximaram a modalidade de um público que valoriza autonomia e rapidez nas decisões financeiras.