Carro: consumidor não parou de comprar e inadimplência com crédito deve subir mais

Segundo especialista, aumento da taxa de inadimplência da modalidade de aquisição de veículo ainda é reflexo das medidas do BC

Publicidade

SÃO PAULO – O consumidor que está pensando em comprar um veículo agora pode esperar um pouco mais, se não quiser ficar endividado. De acordo com a Nota de Política Monetária do Banco Central, divulgada nesta segunda-feira (30), a inadimplência vem crescendo gradativamente, de maneira lenta, desde dezembro do ano passado.

Em abril, somente a taxa da modalidade de aquisição de veículos cresceu 0,3 ponto percentual na comparação com março, encerrando o mês em 3,3%. A taxa é a maior desde agosto do ano passado e mostra uma tendência de elevação. Já a inadimplência que engloba todas as modalidades analisadas pelo Banco Central subiu apenas 0,1 ponto percentual no período.

Para o economista e coordenador dos cursos de Gestão Financeira e Ciências Contábeis da Veris Faculdades, Fabrício Pessato Ferreira, embora lento, o ritmo de aumento da inadimplência no crédito para compra de veículos pode aumentar ainda mais. Primeiro, porque a alta é reflexo das medidas macroprudenciais adotadas no final de 2010, depois, porque a tendência é de que o aperto monetário deve ser mais intenso, fazendo o crédito ficar ainda mais caro.

“O consumidor pensa primeiro se a parcela cabe no bolso, depois ele vai vendo que o financiamento tem outros custos, que ele não colocou na conta”, afirma Ferreira. “Em algum momento, ele vai parar de pagar o financiamento. O melhor é esperar e refazer as contas, porque o crédito para aquisição de veículos vai ficar mais caro”, acredita o especialista.

Demanda reprimida e “miopia monetária”
Ainda que o crédito esteja mais caro, o consumidor ainda não parou de comprar. Prova disso é que a média diária de concessão de crédito para aquisição de veículos continua subindo. Em abril passou para R$ 404 milhões, ante os R$ 385 milhões de março e os R$ 368 milhões de abril de 2010.

“O Brasil sofre de um problema histórico, que é a demanda reprimida. Com o aumento da renda da população, a primeira coisa que o consumidor pensa, no geral, é em comprar um carro. Isso faz com que ele diminua a cesta de consumo para arcar com o financiamento do veículo”, afirma o economista. “Até ele fazer o ajuste no orçamento, ele já ficou inadimplente”.

Continua depois da publicidade

Outro ponto a ser levado em consideração é com relação aos juros. Os dados do BC apontam novo aumento na taxa de crédito para compra de veículos, que passou de 2,2% para 2,27% ao mês entre março e abril. “Nesse caso, o brasileiro sofre de miopia monetária. Ele não vê os juros que estão embutidos. E isso acaba minimizando a política monetária, porque o consumo continua”, afirma Ferreira.

Diante desse cenário, ele espera um aumento ainda mais intenso da inadimplência.

Inadimplência
De maneira geral, a taxa de inadimplência encerrou abril em 6,1%. A alta frente a março foi de apenas 0,1 ponto percentual. Embora as altas nas taxas sejam pequenas, assim como na inadimplência para aquisição de veículos, elas vêm sendo contínuas desde dezembro.

Continua depois da publicidade

Para o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, o aumento da inadimplência é resultado das altas da taxa básica de juro (Selic), para combater a inflação. “Esse aumento da inadimplência moderado é algo relativamente esperado, tendo em vista o aumento da inflação, aumento das taxas de juros. Há maior comprometimento da renda com pagamento de encargos no sistema financeiro”, afirmou Maciel, de acordo com a Agência Brasil.