Boleto parcelado e Pix no crédito: empresas estão financiando os próprios clientes

Com cartão de crédito no limite, cresce a oferta de boleto parcelado e Pix no crédito; especialistas alertam para riscos de inadimplência e superendividamento

Pix já é um dos meios de pagamento mais utilizados no Brasil (Imagem gerada com auxílio IA/Leonardo Albertino)
Pix já é um dos meios de pagamento mais utilizados no Brasil (Imagem gerada com auxílio IA/Leonardo Albertino)

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O alto endividamento das famílias está levando o comércio virtual a fazer “ginástica financeira” para oferecer meios alternativos de pagamento no Brasil. Com o limite do cartão de crédito do cliente cada vez mais comprometido, segmentos onde o tíquete médio é maior – como cursos, mentorias e infoprodutos – passaram a ampliar modalidades de pagamento como boleto parcelado, Pix no crédito ou parcelamento no cartão sem comprometer o limite.

O movimento acompanha a transformação dos meios de pagamento no país. Dados divulgados pelo Banco Central mostram que o Pix respondeu por 54,7% de todas as transações de pagamento realizadas no segundo semestre de 2025, consolidando sua liderança entre os meios de pagamento, com 42,9 bilhões de operações no período.

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Ao mesmo tempo, os cartões seguem com peso relevante: juntos, crédito, débito e pré-pago responderam por 30,4% das transações, somando 23,8 bilhões de operações, enquanto o número de cartões de crédito ativos chegou a 253,8 milhões no fim do período.

Paralelamente, o comércio enfrenta um cenário de renda pressionada, juros elevados e famílias com boa parte do limite já comprometido por compras parceladas. Nesse contexto, o crédito alternativo passa a funcionar como uma extensão da capacidade de consumo dos brasileiros.

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Empresas assumem riscos

Mas se, por um lado, essas alternativas ampliam o acesso ao consumo, por outro transferem para as empresas um papel que antes era exercido principalmente pelos bancos: conceder crédito, avaliar o risco de inadimplência e evitar o superendividamento do consumidor.

Para Reinaldo Boesso, CEO e cofundador da fintech TMB, a mudança nasceu justamente da dificuldade de muitos consumidores em concluir uma compra, mesmo tendo renda para assumir novas parcelas. “Existe demanda e intenção de compra, mas muitas vezes a transação não acontece porque o consumidor não quer comprometer o limite do cartão ou simplesmente não tem limite disponível. O mercado precisou adaptar os meios de pagamento à realidade financeira do brasileiro.”

Segundo Boesso, é claro que ao oferecer modalidades próprias de parcelamento, as empresas deixam de atuar apenas como vendedoras e passam a desempenhar funções típicas das instituições financeiras.

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Isso significa ter de investir em tecnologia para análise de crédito, prevenção a fraudes, cobrança e gestão de recebíveis, garantindo que o aumento das vendas não seja acompanhado pelo crescimento da inadimplência. “Não se trata apenas de oferecer mais uma forma de pagamento. É necessário construir uma infraestrutura financeira capaz de avaliar riscos e preservar a saúde da operação. Caso contrário, o aumento das vendas pode ser rapidamente anulado pelas perdas com inadimplência”, afirma.

Mesmo assim esse modelo vem ganhando espaço principalmente em produtos digitais, cursos, mentorias e serviços de maior valor agregado, nos quais muitos consumidores preferem preservar o limite do cartão para outras despesas ou já não possuem crédito disponível.

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Crédito exige responsabilidade

O avanço dessas modalidades, porém, amplia as responsabilidades jurídicas das empresas. Segundo a advogada Elide Bezerra de Lima, do PG Advogados, operações realizadas por boleto parcelado ou outras formas de financiamento próprio continuam sendo operações de crédito e, portanto, submetem-se às regras do Código de Defesa do Consumidor e da Lei do Superendividamento (Lei nº 14.181/2021).

“O fornecedor não pode simplesmente oferecer crédito porque o consumidor ficou sem limite no cartão. A legislação exige uma concessão responsável, com análise da capacidade de pagamento e utilização das informações disponíveis sobre aquele cliente”, explica.

Na prática, isso significa que empresas precisam avaliar renda, histórico de pagamento e outros elementos capazes de demonstrar que o consumidor terá condições de cumprir as parcelas assumidas.

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Na avaliação da especialista, o crescimento dessas modalidades aumenta a necessidade de atenção ao acúmulo de diferentes linhas de crédito. Hoje, um mesmo consumidor pode manter parcelas no cartão, boletos parcelados, Pix no crédito, empréstimos pessoais e financiamentos diversos, comprometendo a renda sem perceber a dimensão total das obrigações assumidas.

Caso ocorra o superendividamento, consumidores considerados de boa-fé podem recorrer aos mecanismos previstos na legislação para renegociar todas as suas dívidas em um único plano judicial, preservando o chamado mínimo existencial. Esse plano pode se estender por até cinco anos, segundo a especialista.

Além disso, se ficar demonstrado que a empresa concedeu crédito sem observar critérios mínimos de avaliação financeira, a Justiça poderá rever encargos, reduzir juros e determinar novas condições para pagamento da dívida.

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Equilíbrio

Apesar dos desafios, especialistas avaliam que o crescimento dessas modalidades deve continuar. Para Boesso, o objetivo não é substituir o cartão de crédito, mas ampliar as alternativas disponíveis para consumidores com perfis financeiros distintos. “O futuro não será de uma única forma de pagamento. Cartão, boleto parcelado, Pix e outras modalidades devem coexistir. A diferença estará na inteligência para oferecer a opção mais adequada a cada consumidor.”

Na avaliação da advogada Elide Bezerra, esse avanço exige que inovação e responsabilidade caminhem juntas. “O acesso ao crédito é importante para estimular a atividade econômica, mas ele precisa ser concedido de forma sustentável. Empresas que atuam como financiadoras também assumem deveres legais e precisam adotar critérios responsáveis para evitar o agravamento do endividamento das famílias.”

No fim das contas, a mesma criatividade financeira que milhões de brasileiros são obrigados a ter todos os meses para equilibrar o orçamento também está chegando ao comércio eletrônico. O desafio agora é fazer com que essa nova engenharia do crédito não aumente o problema do superendividamento.

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Anna França
Minhas Finanças | Carreira | Consumo

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro