Anchieta-Imigrantes entra na era do pedágio digital e testa motoristas e governo

Modelo elimina cabines e promete acabar com filas históricas de carros rumo ao litoral, mas ainda enfrenta problemas de comunicação e adaptação dos usuários

Anna França

Divulgação / Agência Brasil
Divulgação / Agência Brasil

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A partir do dia 1º de agosto, os cerca de 100 mil motoristas que utilizam o Sistema Anchieta-Imigrantes todos os dias encontrarão um cenário inédito na principal ligação entre a capital paulista e a Baixada Santista. As tradicionais praças de pedágio darão lugar ao sistema de cobrança eletrônica conhecida como Free Flow. A adoção do novo modelo, no entanto, ainda continua cercada de polêmicas e desafios estruturais que precisarão ser resolvidos pelo Estado e empresas.  

Isso porque, apesar de tornar o fluxo de automóveis mais rápido, permitindo a passagem dos veículos sem paradas ou redução de velocidade, a cobrança eletrônica causou ruídos desde o início da implantação em várias rodovias. Muitos motoristas, por exemplo, não sabem ainda que os pórticos são para tarifação e não para controle de velocidade. A confusão ainda se estende para a forma de pagamento das tarifa, especialmente para quem não tem as chamadas TAGs no carro.

O início da operação marca muito mais do que uma mudança tecnológica. Para especialistas, representa o começo de uma transformação na forma como os brasileiros utilizam as rodovias pedagiadas, exigindo uma adaptação que vai além da tecnologia e passa por educação do consumidor, comunicação mais ampla e segurança jurídica para os novos hábitos de pagamento.

Problemas que exigirão bastante do governo, da concessionária e até dos consumidores. Apesar da expectativa de eliminação dos tradicionais congestionamentos em feriados prolongados e na temporada de verão, o novo modelo chega ainda cercado de dúvidas, especialmente depois que milhões de motoristas receberam multas por não saberem que precisavam pagar o pedágio posteriormente. A situação foi tão intensa que obrigou o governo a suspender temporariamente as penalidades para aprimorar a comunicação com os usuários.

Além disso, há uma grande discussão sobre instalação dos pórticos próximos da área urbana em diversas cidades. Na própria Imigrantes, o local do pedágio eletrônico teve de ser trocado por reclamação dos cidadãos da região do início do rodovia.

Por isso, o fim das cabines físicas está só no começo, segundo Ricardo Kaoru, CEO da ConectCar e presidente da Associação Brasileira das Empresas de Pagamento Automático para Mobilidade (ABEPAM). “A retirada das praças físicas representa apenas a primeira etapa de uma mudança muito maior. No modelo tradicional, primeiro você paga e depois utiliza a rodovia. No Free Flow, primeiro você utiliza a estrada e só depois realiza o pagamento”, afirma.

Tecnologia que veio para ficar

Embora ainda desperte resistência entre parte dos usuários, o setor considera que o sistema sem cancelas será predominante nas próximas décadas. Na prática, desaparecem as filas provocadas exclusivamente pelas cabines de pedágio. “Claro que congestionamentos na serra continuarão existindo, especialmente quando houver excesso de veículos, mas não serão mais causados pelo gargalo do pedágio”, disse Kaoru.

Segundo ele, o sistema reduz custos operacionais para as concessionárias ao permitir instalar pontos de cobrança em locais onde antes seria inviável manter uma estrutura completa. A expectativa é que cerca de 90% das praças de pedágio brasileiras sejam convertidas para o modelo Free Flow até 2033, acompanhando a digitalização da infraestrutura rodoviária. “O investimento inicial ainda é alto, mas os custos de manutenção ao longo do tempo são significativamente menores, permitindo até instalação em rodovias que não tinham alto fluxo”, explica.

Maior desafio não é tecnológico

Se a tecnologia funciona, o mesmo não pode ser dito da comunicação com os usuários. A implantação do Free Flow em diferentes rodovias brasileiras revelou um problema inesperado, com milhares de motoristas passando pelos pórticos acreditando que eles funcionavam apenas como radares de velocidade.

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Outros até sabiam que havia cobrança, mas não sabiam nem onde consultar o débito ou como efetuar o pagamento. O resultado não demorou para aparecer. Segundo Kaoru, aproximadamente 3,5 milhões de multas acabaram sendo suspensas temporariamente para que os usuários fossem comunicados e tivessem tempo de quitar os pedágios em aberto enquanto novos mecanismos de informação fossem implementados.

“O usuário não sabia que estava devendo e outros simplesmente não sabiam onde pagar.” Até 16 de novembro, os motoristas poderão regularizar essas cobranças antes da retomada das autuações. Uma das principais novidades será a integração das passagens pendentes à Carteira Digital de Trânsito (CNH Digital), permitindo que o próprio aplicativo informe os débitos existentes.

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Quem usa TAG não sente a mudança

Os dados da fase de testes realizada pela Ecovias mostram que a adaptação tende a ser mais tranquila para quem já utiliza sistemas automáticos de pagamento. Dos 2,5 milhões de veículos registrados durante os testes realizados em junho, 77% possuíam TAG ativa, índice que chegou a 93% entre os veículos comerciais e 71% entre os automóveis de passeio.

Para esses usuários, nada muda. “O pagamento continua automático. Quem possui TAG não precisa se preocupar com consulta de débitos nem risco de multa. E hoje quase 70% da frota de carros já contam com o dispositivo” Já os motoristas que não utilizam as tarjas eletrônicas precisarão consultar posteriormente a cobrança por meio da plataforma Siga Fácil, do Pedágio Digital ou, futuramente, pela Carteira Digital de Trânsito.

Caso a tarifa não seja quitada dentro de 30 dias, o motorista estará sujeito à multa de R$ 195,23 e à perda de cinco pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

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Cobrança justa

Outro conceito que deve ganhar força com a expansão do Free Flow é o chamado pagamento proporcional ao uso da rodovia. Hoje, muitos motoristas pagam o valor integral ao passar por uma praça, independentemente da distância efetiva percorrida. Com a instalação de diversos pórticos ao longo das estradas, a tendência é que a tarifa seja fracionada.

“A lógica passa a ser cobrar pelo trecho efetivamente utilizado. Quem percorre dez quilômetros paga pelos dez quilômetros; quem utiliza trinta quilômetros paga por esse trecho”, afirma.

Na Anchieta-Imigrantes, essa mudança começa de forma parcial. A tarifa atual de R$ 40,60, hoje cobrada integralmente na descida da serra, será dividida em duas cobranças de R$ 20,30, uma em cada sentido. Isso beneficia, por exemplo, caminhoneiros que retornam vazios do Porto de Santos e poderão pagar menos na viagem de volta, já que a tarifa dos veículos pesados considera o número de eixos apoiados no asfalto.

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Debate político

A expansão do Free Flow também promete entrar no debate eleitoral paulista. O governador Tarcísio de Freitas fez da modernização das concessões rodoviárias uma das principais bandeiras de sua gestão, ampliando significativamente os projetos baseados em cobrança eletrônica.

Ao mesmo tempo, comunidades próximas às rodovias questionam a localização de alguns pórticos, enquanto usuários cobram mais transparência sobre tarifas, formas de pagamento e regras de cobrança. Para Kaoru, esse debate faz parte da maturação do modelo. “Toda tecnologia nova passa por um período de adaptação. O importante agora é melhorar a regulamentação, simplificar o pagamento e ampliar a comunicação com a população.”

Na avaliação do executivo, apesar das dificuldades iniciais, o caminho dificilmente terá volta. “O Free Flow permite rodovias mais eficientes, cobrança mais justa e uma experiência muito melhor para quem viaja. A tendência é que esse modelo se torne predominante nos próximos anos.”

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Como evitar multa no Free Flow

Quem tem TAG

Quem não tem TAG

Se não pagar

Até 16 de novembro

Anna França

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro