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13 dicas para não cair na malha fina no IR 2026

Especialistas explicam como evitar erros que travam a restituição e podem gerar multas

Maria Luiza Dourado

Ativos mencionados na matéria

(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

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Com a chegada do período de declaração do Imposto de Renda 2026 (ano-calendário 2025), os contribuintes precisam redobrar a atenção para não cair na temida malha fina.
A “malha” é o processo de verificação em que a Receita Federal identifica inconsistências, omissões ou divergências nas informações prestadas.

Quando isso acontece, a declaração é retida para análise mais detalhada, o que pode atrasar a restituição e, em casos mais graves, resultar em cobrança de imposto, multa e juros.

Pensando em quem quer passar longe de problemas com o Fisco, o InfoMoney ouviu Francine Behn, advogada tributária e sócia da MBW Advocacia, e Gabriel Santana Vieira, advogado tributarista, contador e sócio gestor na GSV Contabilidade, que compartilharam 15 dicas práticas para blindar a declaração da malha fina. Veja abaixo:

1. Organize e categorize todos os documentos (físicos e digitais)

A organização é o primeiro filtro contra a malha fina. A recomendação é arquivar documentos em formato digital, com backup; separar tudo em pastas por tipo de rendimento e despesa, e categorizar os comprovantes conforme as fichas da declaração usadas pela Receita:

A confusão entre essas categorias é um gatilho comum de malha fina.

Também é essencial guardar comprovantes de transações via Pix que envolvam empréstimos entre familiares, devoluções de valores ou repasses eventuais, já que movimentações bancárias e variações patrimoniais estão cada vez mais sob cruzamento automatizado.

Leia mais: Tabela progressiva do Imposto de Renda: confira faixas e alíquotas

2. Use a declaração pré-preenchida como base e não como verdade absoluta

A declaração pré-preenchida reduz a chance de erros de digitação e omissões, já que importa automaticamente dados informados por empregadores, bancos, corretoras, planos de saúde, imobiliárias e órgãos públicos.

Contudo, a modalidade funciona apenas como uma espécie de “rascunho avançado”. As informações podem vir incompletas, atrasadas ou com erros de terceiros, e aceitar esses dados sem conferência não elimina a responsabilidade do contribuinte nem evita multa.

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Por isso, a recomendação é usar a pré-preenchida para enxergar o que a Receita já sabe. Depois, é preciso confrontar cada valor com informes, recibos e extratos e conferir especialmente os campos de IRRF (imposto retido na fonte), que devem estar idênticos aos informes das fontes pagadoras.

A declaração pré-preenchida aumenta a segurança, mas não substitui a revisão minuciosa.

3. Confira todos os informes de rendimentos antes de declarar

Um erro recorrente é declarar com base em memória ou planilhas próprias, sem checar os informes oficiais. Por isso, antes de começar, o contribuinte deve:

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Esses dados também são informados pelos CNPJs à Receita. Quando há divergência entre o que a fonte declara e o que o contribuinte informa, a tendência é a declaração ser retida para análise.

4. Informe todos os rendimentos de todas as fontes (e entenda o impacto disso)

Omissão de rendimentos é uma das principais causas de malha fina. Se um CNPJ informa pagamentos à Receita e esses valores não constam na declaração da pessoa física, a chance de retenção é alta.

Além disso, é importante entender o efeito da multiplicidade de fontes:

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A ausência de retenção na fonte não significa isenção: significa apenas que o ajuste será feito na declaração. O contribuinte precisa informar tudo e estar preparado para o resultado do cálculo.

4. Tenha rigor redobrado com despesas médicas (especialmente com reembolso)

Quando o assunto é despesa médica, cruzamento de dados que a Receita utiliza é abrangente: ele combina informações declaradas pelo contribuinte; dados enviados por médicos, clínicas e hospitais; informações dos planos de saúde; e notas fiscais eletrônicas.

Para não cometer nenhum erro, o contribuinte deve:

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Um ponto crítico em 2026 é o tratamento de reembolsos de planos de saúde. Se o contribuinte declarar o valor bruto pago sem descontar o que foi reembolsado pela operadora, a dedução fica inflada e a chance de retenção é imediata.

Também é preciso respeitar as limitações legais:

6. Declare todos os rendimentos e despesas dos dependentes

Incluir dependentes pode reduzir imposto, mas traz obrigações adicionais. Ao incluir um dependente, o contribuinte deve:

Um erro comum é aproveitar apenas as despesas do dependente e “esquecer” rendimentos que ele teve, como valores de estágio, trabalhos temporários ou ganhos em aplicações financeiras. O sistema cruza essas informações diretamente pelo CPF do dependente.

7. Fuja da duplicidade de dependentes entre pais e responsáveis

A duplicidade na declaração de dependentes é outra causa frequente de inconsistências. As regras básicas para a inclusão de dependentes são:

Desde que o CPF do dependente passou a ser obrigatório, a Receita monitora com muito mais precisão essas duplicidades. Por isso é essencial combinar previamente, em família, quem vai declarar o dependente.

8. Avalie se vale a pena declarar o dependente em separado

Além de evitar duplicidade, é importante avaliar o impacto tributário da inclusão do dependente. Em muitos casos a dedução por dependente e as despesas associadas não compensam o aumento da alíquota efetiva causado pela soma dos rendimentos dele à base do titular, sobretudo se o dependente tem uma renda mais relevante.

Sempre que o dependente tiver renda, vale simular:

A escolha deve considerar o resultado global para a família, dentro das regras.

9. Revise minuciosamente a declaração antes de enviar

Erros simples podem ter consequências incômodas: um número invertido, um zero a mais, um campo selecionado de forma errada. Por isso, antes de transmitir a declaração, é importante:

Uma revisão cuidadosa costuma eliminar boa parte dos problemas que levariam a pendências desnecessárias.

10. Use a declaração retificadora assim que encontrar qualquer erro

Mesmo com todo o cuidado, erros podem ser percebidos depois do envio. Nesses casos, a orientação é agir rápido. Enquanto a Receita não tiver iniciado uma fiscalização formal, o contribuinte pode:

Retificar por iniciativa própria reduz o risco de autuações mais severas e demonstra boa-fé, desde que os ajustes sejam feitos com base em documentação organizada.

Leia mais: Imposto de Renda: como ter prioridade para receber restituição

11. Monitore a restituição, que pode ser um sinal de alerta

Quem tem imposto a restituir pode usar o acompanhamento da restituição como um termômetro. Pelos canais da Receita, é possível:

Se a restituição “some” dos lotes previstos, esse é um sinal de que a Receita está analisando mais a fundo a declaração. Nesses casos, vale conferir o extrato no e-CAC e, se houver erro, corrigi-lo por meio de retificação.

12. Acompanhe a situação da declaração no e-CAC e fique atento às comunicações oficiais da Receita

Depois de transmitir a declaração, o acompanhamento pelo e-CAC é tão importante quanto o preenchimento correto. Pelo extrato da declaração, o contribuinte consegue:

Monitorar a situação permite corrigir falhas antes que se transformem em autuações mais complexas.

E em caso de inconsistências relevantes, a Receita pode:

Essas comunicações, em geral, são disponibilizadas no e-CAC e podem também chegar por outros canais oficiais. Ignorar essas mensagens é um erro grave: problemas que poderiam ser resolvidos com esclarecimentos e documentos acabam resultando em multas maiores e, em situações extremas, em representação fiscal para fins penais.

13. Guarde os comprovantes por pelo menos cinco anos

O cuidado com a documentação não é apenas para o momento da entrega. A Receita pode questionar uma declaração anos depois, e o contribuinte precisa ter como comprovar o que declarou, por isso a recomendação final é manter arquivados, por no mínimo cinco anos:

Esse “arquivo morto” é, na prática, o seguro contra problemas futuros em caso de fiscalização.

Um novo cenário: coerência patrimonial como blindagem

Depois de décadas de aprimoramento do sistema, a malha fina de 2026 deixou de ser uma “peneira” que capturava apenas erros grosseiros para se tornar um mecanismo de monitoramento contínuo e integrado, segundo os especialistas.

A Receita Federal atualmente opera com cruzamento de dados em larga escala, apoiado por inteligência artificial e monitoramento quase em tempo real. Entre as bases usadas estão a E-Financeira (saldos e movimentações financeiras relevantes), os gastos com cartões de crédito; DIMOB (informações de imobiliárias); DMED (informações de prestadores de serviços de saúde); dados de planos de saúde; DIRF, EFD-Reinf e outras declarações de empresas e instituições.

Isso significa que pequenos descuidos, como Pix sem identificação clara, despesas médicas sem abatimento de reembolso ou rendas eventuais de dependentes omitidas, tendem a ser interpretados como inconsistências.

Além disso, crescimentos patrimoniais que não encontram respaldo na renda declarada são rapidamente sinalizados pelos algoritmos e incoerências entre fluxo de caixa, padrão de consumo e evolução do patrimônio são tratadas como possíveis indícios de omissão de receita.

Maria Luiza Dourado

Repórter de Finanças do InfoMoney. É formada pela Cásper Líbero e possui especialização em Economia pela Fipe - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.