Wall Street: o que esperar da temporada de balanços do 4º trimestre nos EUA?

Expectativa é de resultados fortes, enquanto investidores estarão de olho principalmente nos balanços das grandes empresas de tecnologia

Lara Rizério

Times Square se reflete na vitrine do Nasdaq MarketSite em Nova York (Michael Nagle/Bloomberg)
Times Square se reflete na vitrine do Nasdaq MarketSite em Nova York (Michael Nagle/Bloomberg)

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A temporada de resultados do 4º trimestre de 2025 começará com maior intensidade nesta terça-feira (13) sendo que, até a primeira semana de fevereiro, 68% da capitalização de mercado do S&P 500 terá divulgado seus resultados. A Nvidia, a maior ação do índice, divulgará seus números em 25 de fevereiro.

O consenso espera um crescimento do lucro por ação (EPS) do S&P 500 de 7% ano a ano no 4º trimestre de 2025. Mas, segundo o Goldman Sachs, essa previsão parece novamente conservadora. O EPS do S&P 500 cresceu 10% ou mais em cada um dos três primeiros trimestres de 2025, superando as estimativas dos analistas em uma média de 6 pontos percentuais.

Para a equipe de estratégia do banco, as empresas devem reportar crescimento de receita ano a ano acima da estimativa de consenso de 6%. Por outro lado, as margens de lucro do S&P 500 devem se expandir apenas de forma modesta no 4º trimestre, já que os ventos favoráveis da alavancagem operacional e o peso crescente das empresas de tecnologia de alta margem são compensados por um vento contrário das tarifas.

Viva do lucro de grandes empresas

Além disso, aponta o Goldman, a temporada representará outro teste importante para as grandes empresas de tecnologia e para o setor de inteligência artificial (IA). “A trajetória dos gastos de capital em IA estabelecida neste trimestre terá implicações significativas para as perspectivas de lucro e o desempenho das ações de infraestrutura de IA. As estimativas de consenso mostram que o crescimento dos gastos de capital dos hyperscalers [grandes provedores de serviços de nuvem, como AWS, Azure, Google Cloud] desacelerará de alta de 75% no 3º trimestre para 54% no 4º trimestre e para 24% até o final de 2026”, avalia.

O banco espera revisões para cima dessas estimativas, mas acredita que o crescimento dos gastos de capital realmente desacelerará em 2026. Evidências do impacto dos lucros da adoção da IA empresarial continuarão sendo um foco importante dos investidores nesta temporada.

Para 2026, o banco projeta que o EPS do S&P 500 crescerá 12%, para US$ 305, impulsionado por crescimento de vendas de 7% junto com expansão de margem de 70 pontos base.

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Já a Raymond James avalia que o setor de tecnologia novamente impulsionará o crescimento do lucro por ação.

Olhando para 2026, os resultados do 4T25, fornecerão importantes insights sobre a viabilidade dessas expectativas. “Com o S&P 500 negociando em valuations historicamente elevados, os resultados do 4T25 serão observados de perto para orientar o ano que começa agora”, avalia.

A XP Investimentos aponta que, entre os setores do S&P 500, 10 de 11 têm crescimento de receita projetado para o 4T25. Para o lucro por ação, espera-se que 8 setores apresentem crescimento, em linha com as estimativas do último trimestre.

Entre os setores positivos, a equipe de estratégia destaca o setor de tecnologia e de materiais básicos. Já nos destaques negativos, estão os de energia e de consumo discricionário.

5 pontos para ficar de olho na temporada de balanços dos EUA:

A Raymond James destacou cinco dinâmicas-chave que acompanhará com o início da temporada de resultados do 4T25.

Em primeiro lugar, os fundamentos sustentam ganhos no 4T, mas o nível de exigência está alto. O S&P 500 encerrou o quarto trimestre em alta de 2,7% — seu terceiro trimestre consecutivo de ganhos — e atingiu 11 novos recordes no período. Essa resiliência ocorreu apesar das preocupações com a economia e a ameaça de paralisação do governo, refletindo fundamentos sólidos. A expectativa destaca pela casa é de crescimento do EPS do S&P 500 em torno de 8% ano a ano no 4T25. Caso as empresas superarem as estimativas em 4-5%, poderá ser visto o quinto trimestre consecutivo de crescimento de dois dígitos — uma sequência não vista desde o final de 2018.

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Além disso, as estimativas de lucro para o 4T foram revisadas para cima em 0,7% nas 12 semanas que antecederam a temporada, o maior aumento desde 2021. “Isso é um sinal positivo, mas também eleva as expectativas. Com valuations já altos, empresas que não atingirem as expectativas ou oferecerem orientações cautelosas podem sofrer quedas acentuadas. No terceiro trimestre, empresas que ficaram abaixo das expectativas tiveram desempenho inferior ao S&P 500 em cerca de 5% nos dias seguintes, a maior diferença desde pelo menos 2017”, avalia.

O segundo ponto é que os resultados gerais parecem sólidos, mas ao analisar mais a fundo, o cenário é desigual. Quatro dos 11 setores devem apresentar crescimento negativo, e outros três mal atingem crescimento positivo de 1% ou menos — a fraqueza mais disseminada desde o início de 2023.

O que mantém os números gerais positivos é o setor de tecnologia, também impulsionado por investimentos incessantes em IA. Um grupo composto por grandes empresas de tecnologia (MAGMAN*) pode ver seus lucros crescerem cerca de 22%, contra apenas 1,8% para o restante do índice. A tendência deve continuar: nos próximos três trimestres, os lucros das mega techs devem superar o mercado amplo em mais de 15% a cada trimestre. Em resumo: a tecnologia permanece o motor do crescimento do EPS do S&P 500 — e a Raymond continua otimista com o setor neste ano.

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Outro ponto (o terceiro) de atenção é sobre os dados de consumo. Dados fracos de contratação e confiança do consumidor abalaram as expectativas sobre a saúde do consumidor. As vendas de fim de ano surpreenderam positivamente, mas as expectativas para o setor de consumo discricionário permanecem baixas. Os lucros do grupo devem cair 4,5% no 4T — a maior queda entre os setores — principalmente devido à fraqueza em automóveis e bens duráveis para o lar. “Nesse cenário, o que os líderes das empresas disserem será tão importante quanto os resultados reportados. Estamos atentos a restaurantes e empresas de turismo, que costumam ser indicadores precoces de mudanças no consumo discricionário”, avalia.

A boa notícia é a expectativa de que dias melhores pela frente virão, com a estabilização do emprego, a desaceleração da inflação, o efeito riqueza ganhando força e maiores restituições de impostos, o consumo de bens de maior valor deve crescer.

Em quarto lugar, está a atenção à sustentação das margens. Apesar do crescimento econômico lento e dos impactos das tarifas, os lucros corporativos mostraram resiliência impressionante em 2025, tendo como fator-chave as margens de lucro fortes. As margens ficaram acima de 13% em todos os trimestres do ano passado — a primeira vez desde 2021 — mesmo com o consenso esperando uma leve moderação pelo segundo trimestre consecutivo. A força das margens ajudou a manter os valuations elevados e o momentum dos lucros.

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Por fim, lucros, e não valuations, serão a chave para 2026. “Após a divulgação dos resultados do 4T, o foco rapidamente se voltará para 2026. Depois de vários anos de retornos elevados impulsionados pela expansão do P/L, os valuations estão próximos de máximas históricas. Isso deixa o crescimento dos lucros como o principal motor para ganhos adicionais no mercado”, avalia a Raymond James.

Assim, as estimativas de lucros para 2026 se mantiveram firmes, contrariando as típicas revisões para baixo de cerca de 4% vistas nos 12 meses que antecedem o ano-calendário.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.