Dado negativo no balanço

Via (VIIA3): Surpresa com provisões ofusca avanços e Credit rebaixa ação para venda; papel fecha em queda de 12,5%

Analistas “lamentam” trimestre de fortes ajustes que dificultam a leitura dos resultados; banco suíço corta preço-alvo da ação para R$ 5,50

Por  Lara Rizério -

SÃO PAULO – Mesmo mostrando evolução em alguns números de seu balanço, com destaque para o crescimento do marketplace (3P), o resultado da Via (VIIA3) acabou sendo bastante ofuscado por conta de provisões para processos trabalhistas, que somaram R$ 810 milhões, com perspectivas de mais provisões pela frente.

Assim, a empresa teve prejuízo líquido atribuído aos controladores de R$ 638 milhões no terceiro trimestre deste ano, ante o lucro líquido de R$ 590 milhões apurado em igual período de 2020.  Ajustado pelos efeitos não recorrentes, o lucro somou R$ 101 milhões entre julho e setembro, positivo pelo sétimo trimestre seguido. Por outro lado, a receita líquida recuou 6% na base anual, para R$ 7,35 bilhões.

Em meio a esse cenário, os ativos VIIA3 abriram em forte queda, chegando a uma mínima de 18,30%, a R$ 5,76. Os papéis amenizaram a baixa, mas ainda foi bastante expressiva: os ativos VIIA3 fecharam com queda de 12,48%, a R$ 6,17.

Após o resultado, o Credit Suisse rebaixou “duplamente” a recomendação para as ações da Via, de outperform (desempenho acima da média do mercado) para underperform (desempenho abaixo da média do mercado), equivalente à venda, com o preço-alvo sendo cortado de R$ 9,50 para R$ 5,50, o que corresponde a um valor 22% menor ante o fechamento da véspera, de R$ 7,05.

O banco aponta que as provisões trabalhistas são um velho debate para a Via sendo que, mais recentemente, no final de 2019, a empresa anunciou uma apuração, que resultou em mais de R$ 1 bilhão em provisões. “Diante disso, o mercado (e nós) ficou tranquilo, pois os números eram precisos e não indicavam surpresas. O anúncio de ontem mudou essa visão”, ressalta.

Os analistas Victor Saragiotto e Pedro Pinto apontaram que o papel e o setor haviam passado por uma revisão positiva da equipe de análise do banco recentemente e desde então estavam com um bom desempenho, mas o anúncio do legado trabalhista de tal magnitude – entre R$ 900 milhões e R$ 1 bilhão em 2022, de R$ 500 milhões a R$ 600 milhões em 2023 e de R$ 300 milhões a R$ 400 milhões em 2024 – não estava nos planos, afetando muito a capacidade de crescimento nos próximos trimestres.

“No nosso modelo, já considerando os números do terceiro trimestre e impactos trabalhistas, chegamos a uma estimativa de prejuízo líquido de 486 milhões para 2022, ante projeção anterior de lucro de R$ 419 milhões. O trabalho da gestão nos últimos anos tem sido exemplar e de fato mudou a empresa, mas essa surpresa nos leva a adotar um tom bem mais cauteloso com Via”, apontam os analistas.

A XP destacou que a Via reportou resultados mistos, com aceleração do crescimento do marketplace, mas lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) ajustado abaixo do esperado. O dado de vendas brutas de mercadoria (GMV, na sigla em inglês) total cresceu 5,8% na base anual (versus projeção da XP de alta de 1,7%), com o crescimento do online. O estoque próprio (1P) subiu 9,6% na base anual e o marketplace (3P) subiu 138%, versus projeção da XP de altas respectivas de 6,1% e 125%.

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Isso, apontam os analistas, mais do que compensou a performance mais fraca das lojas físicas (vendas mesmas lojas em queda de 14% na base anual). No entanto, essa compensação não ocorreu na receita, que caiu 6% na base anual, devido à maior representatividade das lojas físicas e 1P (cerca de 60%).

A margem bruta foi um destaque, com crescimento de 0,5 ponto percentual na base anual, mesmo diante da maior participação do digital (alta de 13 pontos percentuais na base anual) o que não se refletiu na margem Ebitda ajustada (queda de 2,6 pontos na base anual) devido a maiores investimentos em marketing digital e despesas de processos trabalhistas.

Ainda, a companhia registrou uma queima de caixa operacional de R$ 830 milhões no trimestre, principalmente explicado pelo reforço de estoques frente aos eventos de fim de ano.

“Destacamos que a companhia segue avançando em suas iniciativas estratégicas, com o lançamento do crediário para o marketplace previsto no quarto trimestre e algumas lojas ativadas como pontos de drop-off de sellers”, aponta a XP, que mantém recomendação neutra e preço-alvo de R$ 10 por ação.

O Bradesco BBI destacou ser decepcionante ver outra grande provisão sendo constituída por ações judiciais trabalhistas,
e isso dificultou a leitura dos resultados do trimestre. Sobre as provisões, a gestão da empresa espera ver um impacto limitado no fluxo de caixa porque está trabalhando para monetizar cerca de R$ 9 bilhões de créditos fiscais acumulados
ao longo de vários anos e pretendendo usar isso para compensar os eventuais custos de caixa relacionados com as provisões. Uma estrutura mais forte também foi acionada para atender a demandas judiciais, em um esforço para reduzir o volume de novos processos e o custo dos processos legados.

Sobre os resultados, o GMV foi amplamente conforme o esperado, como  3P sendo um destaque positivo, mas a queda nas vendas nas mesmas lojas refletem, para o BBI, algum enfraquecimento da demanda. Dito isso, a margem bruta de 31% foi robusta em um cenário de pressão de custos e competição, o que é positivo à medida que o mercado entra no crucial último trimestre de 2021. A receita de serviços financeiros também foi forte, aumento de 22% na base anual, embora apenas 7% acima do terceiro trimestre de 2019.

“No geral, as novas provisões e os ajustes de resultados são indesejáveis ​​e provavelmente também frustrarão os investidores, criando alguma confusão sobre o nível recorrente de margem da Via. As ações estão tendo um desempenho fraco desde o final de junho, junto com o restante do setor, já que os investidores estão cada vez mais preocupados com o enfraquecimento da demanda, alta das taxas de juros e menor crescimento do PIB no próximo ano. Nesse contexto de mercado já nervoso, os ajustes e provisões vêm em um momento ruim e claramente não ajudam a virar o case a favor da Via”, aponta o BBI, que possui recomendação neutra e preço-alvo de R$ 10 para 2022.

O Itaú BBA avaliou os dados da Via como negativos, destacando as provisões. O GMV on-line, de R$ 5,863 bilhões, ficou 3% abaixo da estimativa do Itaú, e o banco colocou os papéis e seu preço-alvo sob avaliação.

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O Morgan Stanley afirmou que o valor geral de vendas (GMV) da Via Varejo cresceu 4% na comparação anual, mas ficou 4% abaixo da estimativa do banco e 3% abaixo daquela do consenso do mercado. No segundo trimestre o crescimento do indicador havia sido de 50%. Uma alta de R$ 1,2 bilhão nas provisões trabalhistas por conta de pagamentos 32% maiores em média por ação e aumento de 82% em 2021 até o momento levou a receita líquida a território negativo.

Excluindo o impacto das provisões, a margem Ebitda de 9,1% da Via fica acima da estimativa de 7,6% do Morgan Stanley, de 7,2%, principalmente por conta de expansão da margem bruta. A receita líquida recuou 6% na comparação anual, 7% abaixo da estimativa do Morgan Stanley.

O banco diz que questões antigas da Via estão ofuscando o progresso da transformação digital. O Morgan Stanley mantém avaliação equalweight (exposição em linha com a média do mercado) e preço-alvo de R$ 9.

Sem injeção de capital

Em teleconferência, a gestão da Via destacou que não precisa de medidas adicionais de reforço de caixa depois do aumento significativo em provisões por processos judiciais.

“No quarto trimestre, a Via vai mostrar forte recuperação do capital de giro, com ajuste de posições de estoque liberando mais caixa para a companhia”, afirmou o diretor financeiro da empresa dona da bandeira Casas Bahia, Orivaldo Padilha, em evento com analistas nesta quinta.

“No terceiro trimestre, a conta de compensação de crédito tributário foi favorável em 93 milhões (de reais)…No quarto trimestre, também esperamos neutralização de saída de caixa com monetização de créditos. Assim a empresa volta a se reequilibrar”, disse o executivo. Ele se referiu à estratégia da empresa em usar créditos tributários acumulados ao longo de anos para compensar as saídas de caixa geradas com ações trabalhistas.

“A Via não vê necessidade nenhuma de aumento de capital ou qualquer outra forma de injeção de capital na companhia”, disse o executivo.

Questionado sobre a Black Friday, o presidente da companhia, Roberto Fulcherberguer, afirmou que a Via começa a ver melhora em fluxo de clientes em lojas físicas e que a empresa não espera oscilação de margem de lucro no período diferente da variação ocorrida nos últimos anos.

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O executivo afirmou ainda que, para 2022, espera que a margem de lucro da Via seja pelo menos a apresentada atualmente. No terceiro trimestre, a margem Ebitda ajustada da Via foi de 9,1%, acima de 8% de um ano antes.

(com Reuters)

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