O que pesou para o ativo

Itaú (ITUB4) tem resultado sólido com lucro de R$ 6,8 bi, mas ações caem 5,3%; queda é oportunidade?

Maior parte dos analistas segue positivo com a ação, apesar de destacar alguns pontos que pesaram no balanço; veja os motivos para a queda do papel

Por  Lara Rizério -

SÃO PAULO – As primeiras leituras de analistas de mercado apontavam que a ação do Itaú (ITUB4) iria reagir positivamente ao resultado do terceiro trimestre de 2021, em que registrou lucro líquido gerencial recorrente de R$ 6,779 bilhões, alta de 34,8% na comparação anual e de 3,6% frente ao segundo trimestre.

Já o retorno recorrente sobre o patrimônio líquido (ROE) foi de 19,7%, alta de 4 pontos percentuais ante o terceiro trimestre de 2020 (15,7%) e leve melhora de 0,8 ponto porcentual sobre o período entre abril e junho deste ano.

O Morgan Stanley destacou que o banco entregou um trimestre forte com mais pontos positivos do que negativos, com o crédito seguindo um bom crescimento o que, junto com a alta da Selic, deve continuar impulsionando as receitas financeiras nos próximos 6 a 12 meses. Além disso, apontou que o Itaú continua altamente eficaz na gestão de custos, oferecendo alavancagem operacional à medida que as receitas aumentam.

O Credit Suisse também apontou que diversas linhas vieram acima das expectativas, com ótima geração de receita tanto em maiores resultados com intermediação financeira (NII, na sigla em inglês) quanto em taxas de serviços (ou fees). A performance no varejo, além do já citado crescimento de empréstimos, também entraram nos destaques do trimestre.

Já o Bradesco BBI ressaltou as tendências positivas e crescimento do lucro líquido suportado pela forte expansão do portfólio/crédito com melhoria do mix. A carteira de crédito do banco apresentou uma expansão sólida de 6,0% na variação trimestral (alta de 11,3% na variação anual), impulsionada por pessoas físicas com 8,6% na variação trimestral (alta de 27,8% na variação anual). Para o Safra, as despesas operacionais também foram boas, demonstrando o comprometimento do banco no controle das despesas, avaliando que o Itaú apresentou “bons resultados de ponta a ponta”.

Nos primeiros negócios nesta quinta-feira (4), a ação chegou a subir 1,15% (na máxima do dia), mas logo virou para queda e fechou com fortes perdas. Os ativos ITUB4 caíram 5,28%, a R$ 23,16.

Alguns fatores ajudam a explicar esse desempenho, tanto por questões do próprio resultado quanto por fatores macroeconômicos. O dia foi de aversão ao risco para o mercado brasileiro, com o risco fiscal persistindo em meio às incertezas sobre a PEC dos precatórios, o que afetou as ações de bancos no geral – e o Itaú não foi uma exceção. Além disso, os últimos dois pregões já tinham sido de alta, acumulada em cerca de 5%, para os ativos ITUB4, dando menos margem para ânimo nas ações em caso de resultado positivo.

Porém, fatores do próprio balanço foram ponderados até por analistas que destacaram os números como bons.

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Conforme destaca a XP, o custo do crédito abaixo do esperado foi o destaque do trimestre impulsionado por menores provisões para créditos de liquidação duvidosa, que ficaram 18% abaixo das estimativas da casa – com queda de 13% na base anual-, principalmente devido a uma reversão no segmento de atacado.

Vitor Pini, Matheus Odaguil e Artur Alves, analistas da XP, avaliam que, apesar do lucro positivo no trimestre, o índice de cobertura – que representa a proporção que a provisão para risco de crédito é capaz de cobrir os créditos inadimplentes – caiu cerca de 50 pontos percentuais no trimestre, ficando em 234%, enquanto a taxa de inadimplência aumentou 0,21 ponto no trimestre e 0,30 ponto no comparativo anual.

“Embora a inadimplência tenha aumentado em um ritmo menor do que o esperado, condições macroeconômicas mais difíceis podem implicar em inadimplência ainda maior e isso combinado com a redução no índice de cobertura pode resultar em pressão no lucro no futuro”, avaliam.

O Bank of America e o Bradesco BBI também apontam que o índice de Basileia de melhor qualidade (ou CET1, que compara o capital de um banco com seus ativos ponderados pelo risco) caiu de 11,9% no segundo trimestre para 11,3% no terceiro trimestre, devido aos impactos negativos do câmbio e aquisição da folha de pagamento do estado de Minas Gerais.

Enquanto isso, em teleconferência para comentar os resultados, apesar de destacar pontos positivos e afirmar que o banco é capaz de gerar capital suficiente para crescer no futuro, Milton Maluhy Filho, CEO do banco, também destacou um cenário mais cauteloso para 2022. O próximo ano, segundo ele, inspira cuidado em um cenário de maior incerteza política e juros mais altos, demandando cautela em termos de crédito.

“Quando olho para 2022, é um cenário em que se vê uma piora na inadimplência, é esperado que seja assim, e estamos preparados para isso do ponto de vista do provisionamento no balanço”, apontou.

Para o ano que vem, sinalizou, a projeção é de uma carteira de crédito que cresça menos. Ele avaliou que a margem financeira com o mercado ainda deveria desacelerar já no quarto trimestre.

Analistas seguem positivos com ação

Mesmo com algumas ponderações sendo feitas sobre o balanço, a maioria dos analistas de mercado segue positiva com a ação, ainda que muitos sigam neutro com o papel. Compilação feita pela Refinitiv mostra que, entre 17 casas de análise que cobrem o ativo, 11 têm recomendação de compra e 6 possuem recomendação neutra.

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O Bradesco BBI ressaltou seguir com recomendação de compra para ITUB4, com preço-alvo de R$ 39 (ou potencial de valorização de 60% frente o último fechamento) destacando que, embora pense que algumas questões sobre a qualidade dos ativos seriam justas, chama a atenção para o fato de que a inadimplência (NPL) mais alta se deveu a certos casos específicos que já foram provisionados, enquanto os NPLs para varejo e pequenas e médias empresas ficaram estáveis. Além disso, veem tendências positivas para receitas e despesas de tarifas.

O Credit Suisse também segue com recomendação equivalente à compra e preço-alvo de R$ 33 para o papel (ou upside de 35%), avaliando que vê uma desconexão entre a lucratividade e o valuation do banco. Os analistas do banco suíço apontam enxergarem uma ambiente de crescimento de lucro de dois dígitos pela frente lastreado na escalada da taxa de juros, que devem levar o Itaú a melhor performance de NII em anos. Para eles, estes fatores devem mais do que ofuscar alguns pontos como o maior custo de risco e algum aumento em despesas operacionais, inflação de salários e menor contribuição do mercado de capitais.

Na mesma linha, o BofA ressalta que a gestão da companhia está empenhada em cumprir todas as suas projeções de crescimento para o ano, apesar de um cenário macroeconômico mais desafiador (crescimento fraco, inflação alta, aumento das taxas de mercado, entre outros). Assim, considerando o valuation como atrativo, mantém recomendação equivalente à compra.

O Safra ressalta seguir construtivo com os resultados do Itaú para os próximos trimestres, principalmente devido à recuperação da receita (aumento do volume de empréstimos, melhoria do mix e aumento das taxas de juros), mantendo recomendação de compra e com preço-alvo de R$ 34,00 por ação.

A XP, por sua vez, ressaltando que, apesar do resultado financeiro positivo, a qualidade inferior dos resultados deve estar no radar dos investidores, reiterou recomendação neutra, com preço-alvo de R$ 28 por ação.

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