Vale (VALE3) de volta ao radar, siderúrgicas em baixa e papel e celulose em “standby”: a posição dos investidores em ações de commodities

Forte impulso nos preços do minério de ferro deixou investidores mais otimistas, conforme destacaram BofA e BBA após conversas com buy side

Felipe Moreira | Lara Rizério

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Nas últimas semanas, o ânimo dos analistas de mercado tem aumentado com as ações da Vale (VALE3) em  meio às revisões para cima nas projeções para o minério de ferro (ainda que uma pressão maior da China por controle de preços tenha afetado os papéis).

Esse maior interesse tem se refletido também numa maior posição de investidores institucionais, conforme destacaram o Itaú BBA e o Bank of America em recentes rodadas de conversas para tratarem não somente da mineradora, mas também de outras empresas de matérias-primas e de commodities.

Na última semana, Daniel Sasson e equipe, do BBA, estiveram em roadshow no Rio de Janeiro e em São Paulo e visitaram 20 investidores institucionais, enquanto Caio Ribeiro e equipe, do BofA, estiveram em conversas com 30 contas do “buy side”.

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Na visão do BBA, os preços de minério mais fortes têm deixado os investidores mais otimistas para o setor de mineração. No entanto, ainda acreditam que os “locais” estão underweight (exposição abaixo da média) em commodities no portfólio, enquanto Vale e Suzano (SUZB3) aparecem como nomes mais consensuais. Para o setor agrícola, o banco viu interesse limitado, com Rumo (RAIL3) com a preferência dos investidores, mas já precificando um Ebitda, ou lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações, de R$ 7,5 bilhões para 2024 (acima da estimativa da casa de R$ 7 bilhões).

O Bank of America também ressalta que o humor melhorou desde nossa última rodada de reuniões em julho, quando a maioria dos investidores estava negativa em relação à China e underweight em ações de mineração e papel e celulose da América Latina, com a única exceção clara sendo a Gerdau (GGBR4).

“Sentimos agora que a maioria dos investidores se tornou gradualmente mais positiva em relação à China e ao minério de ferro. Enquanto isso, o posicionamento em papel e celulose também parecia leve, com os investidores aguardando uma melhor ponto de entrada na primeira metade de 2024, especialmente se os preços da celulose caírem. Para óleo e gás, a equipe de analistas do banco notou que os investidores estão mais cautelosos quanto à direção dos preços do petróleo, mas a PRIO (PRIO3) segue como a ação preferida.

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Confira abaixo a visão dos investidores institucionais sobre as ações de matérias-primas e commodities. O Itaú BBA destacou a percepção do “buy side” sobre os segmentos de mineração, siderurgia, papel & celulose e agronegócio, enquanto o BofA tratou dos segmentos de mineração, siderurgia, papel & celulose e petróleo & gás.

Mineração

O Itaú BBA comentou que o forte impulso nos preços do minério de ferro parece ter deixado os investidores mais otimistas em relação ao setor de mineração. Isso porque a Vale (VALE3) foi de longe a empresa preferida dentro do setor de commodities, provavelmente devido a uma perspectiva mais otimista para os preços do minério de ferro e um bom retorno, enquanto os analistas da casa estimam um forte rendimento de dividendos (dividend yield, ou dividendo sobre o valor da ação) de 13% a ser pago em 2024.

Segundo BBA, o cenário mais positivo foi impulsionado por: i) produção de aço ainda resiliente na China; ii) baixos estoques de ferro nos portos chineses; iii) medidas de estímulo recentemente anunciadas – focadas nos setores de infraestrutura e imobiliário; e iv) embarques de ferro um tanto restritos do Brasil e Austrália para a China.

“A maioria dos consultados parece estar ligeiramente posicionada na ação, mas observamos que a maioria dos investidores está longe de ter a Vale representando em suas carteiras os mesmos 15% que ela representa atualmente no índice Ibovespa”, diz BBA.

O BofA também destaca essa melhora gradual de percepção em relação à China após anúncios de estímulos e avanço dos preços do minério de US$ 103 a tonelada em agosto para os atuais US$ 135.

“Por outro lado, esta parece mais uma visão construtiva de curto prazo, já que a maioria concorda que a produção chinesa de aço bruto já atingiu o pico e deve cair novamente a cada ano em 2024, arrastando o consumo de minério de ferro”, avaliam os analistas.

De qualquer forma, a posição em Vale parece ter aumentado recentemente e pelas reuniões recentes o ativo dessa empresa parece ser o veículo preferido para se posicionar para um aumento sazonal no minério de ferro no 1T24.

Siderurgia

Quanto às siderúrgicas, investidores locais consultados pelo BBA parecem pessimistas, devido i) ao aumento das exportações de aço chinês nos próximos meses, o que poderia prejudicar possíveis recuperações nos preços globais do aço; ii) um cenário geral pouco animador para a demanda doméstica de aço, mesmo olhando para 2024; e iii) o atual cenário competitivo para os produtores de aço brasileiros com a importação de aço.

O banco lembra que as importações de aço aumentaram 55% em relação ao ano anterior nos 10 primeiros meses de 2023, em comparação com uma melhoria de 3% no consumo aparente doméstico durante o mesmo período. “Por ser menos volátil, sentimos que a Gerdau tem sido usada como financiamento para os investidores aumentarem sua exposição aos nomes da mineração”, comenta o BBA.

O BofA, por sua vez, viu mais resistência às suas recentes atualizações de recomendação em CSN  (CSNA3) Usiminas (USIM5), já que os investidores estão mais negativos no aço (especialmente com a Gerdau GGBR4). Mas a maioria reconheceu que, com a recente força do minério de ferro, essas ações também deverão ter um bom desempenho. O BofA elevou em novembro a recomendação das ações de CSNA3 e USIM5 para compra.

Papel e celulose

Na percepção do BBA, ainda há interesse limitado no setor, com a maioria dos investidores questionando os catalisadores potenciais para os nomes de celulose neste momento, considerando que o cenário base é que há espaço limitado para novos aumentos de preços a serem anunciados para janeiro.

Ou seja, muitos investidores acreditam que os preços da celulose atingiram seu nível máximo para este ciclo (em torno de US$ 630-650/tonelada) e agora estão preocupados com correções de preços futuras em 2024, em antecipação ao projeto Cerrado, que poderia criar um ponto de entrada mais atraente quando os preços da celulose corrigirem no 1º semestre de 2024.

O BBA continua a ter uma visão positiva sobre a Suzano (SUZB3) e acredita que a proximidade do início do Cerrado e a eliminação do risco de execução ao longo do 1º semestre de 2024 são notícias positivas para a ação.

Diante disso, alguns investidores mencionaram que uma operação de pares favorecendo a Suzano em relação à Klabin (KLBN11) pode fazer sentido, considerando o recente desempenho superior desta última. De fato, as ações da Suzano estão 9% acima do início do ano, em comparação com 15% da Klabin.

Já o sentimento do BofA após a conversa com investidores é de que o posicionamento geral no setor de papel e celulose da América Latina parecia leve, sendo que a maioria dos investidores acredita que a recente recuperação do preço da celulose poderá estar no fim ou perto dele.

Olhando para o futuro, a maioria viu os preços da celulose nos próximos 3-4 meses de estáveis ou em leve queda e esperam por um melhor ponto de entrada no 1S24 (principalmente se os preços caírem), a mesma visão dos ouvidos pelo BBA.

“No entanto, a maioria percebe a potencial queda de preços como limitada, dado que estamos perto do suporte de custos e dada a rápida resposta da oferta este ano aos preços baixos. A maioria dos investidores concorda que os preços da celulose no passado de 2024 poderiam sofrer um aumento significativo devido à falta de novos projetos importantes e ver múltiplos parecendo atraentes em 2025”, finaliza.

Agronegócio

O setor de agronegócio também teve interesse limitado por parte dos investimentos na avaliação do Itaú BBA, com a Rumo (RAIL3) continuando a opção preferida entre os investidores. “Observamos que o consenso para o Ebitda de 2024 parece já estar em R$ 7,5 bilhões, acima da estimativa do BBA de R$ 7,0 bilhões e de consenso em R$ 7,1 bilhões”, avalia.

Os investidores também parecem ter se tornado mais preocupados com problemas de calado para a Hidrovias do Brasil (HBSA3), com alguns sugerindo que esses problemas poderiam ser o “novo normal” daqui para frente, em vez de apenas “anomalias climáticas”, aumentando assim a percepção de risco do case.

Houve entusiasmo muito limitado pelos nomes de açúcar e etanol, com os investidores ainda otimistas em relação ao açúcar, mas mais pessimistas em relação ao etanol. “O tópico mais quente de discussão foi definitivamente o tamanho da quebra na segunda safra de milho, após problemas climáticos e padrões de chuva anormais em Mato Grosso nas últimas semanas”, destaca o BBA.

Petróleo e gás

A maioria dos investidores ouvida pelo BofA está mais cautelosa em relação aos preços do petróleo, mas continua a ter a PRIO (PRIO3) como sua principal escolha.

Já em relação à Petrobras (PETR4), embora os investidores ainda pareçam acreditar que as perspectivas de dividendos continuam atraentes, tem havido algum grau de preocupação em relação o plano de investimentos da empresa e como isso poderia impactar os dividendos no futuro.

O banco também observou crescente interesse pela Enauta (ENAT3). Sobre distribuidoras de combustíveis, embora os investidores concordem que dinâmica do setor melhorou nos últimos meses, ainda falta convicção sobre se isso irá se seguir mais à frente.