Queda forte em setembro

Era do minério a níveis recordes está perto do fim: por que isso não deve preocupar os investidores de Vale?

Cotação da commodity nos níveis atuais nunca esteve no preço dos ativos da Vale, apontam analistas

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SÃO PAULO – Apesar de ainda acumular uma forte alta no ano, superior a 30%, o minério de ferro tem perdido o brilho nas últimas sessões por uma combinação tanto de maior oferta dos produtores quanto pelos temores de que a demanda vinda da China tenha sido superestimada. Assim, após chegar aos US$ 130, a commodity apresenta desempenho mais fraco nas últimas sessões.

No acumulado do mês até o dia 24 de setembro, a commodity negociada à vista no porto chinês de Qingdao e com pureza de 62% passou de US$ 124,35 a tonelada para US$ 117 a tonelada, uma baixa de 6,8%. O minério de ferro com pureza maior, de 65%, também registrou uma baixa parecida, passando de US$ 136,85 no final de agosto para US$ 127,4 a tonelada até o dia 24 (uma queda de 6,9%).

“Agora, é um ponto de inflexão”, disse Ban Peng, analista da Maike Futures, em entrevista à Bloomberg na última semana. “As recentes exportações do Brasil têm sido um pouco melhores do que nossas expectativas, e a oferta das maiores mineradoras, incluindo a Vale, deve aumentar no quarto trimestre, que normalmente é uma temporada de pico.” Ban também destacou os estoques portuários.

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E a expectativa é de que o minério caia ainda mais. Yuri Pereira, analista da XP Investimentos, aponta ser esperado que o minério siga nessa trajetória tanto com alta de produção quanto pelo arrefecimento na demanda da China. Nos últimos meses, o gigante asiático tomou medidas de fortes estímulos à economia em busca de recuperação para amenizar os efeitos da pandemia do novo coronavírus.

Para o analista, a projeção é de que o minério vá a US$ 95 até o fim do ano, com quedas gradativas a US$ 85 ano que vem, US$ 80 em 2022 e, no longo prazo, atingindo um preço de equilíbrio a US$ 75 a tonelada.

De acordo com Pereira, a baixa recente ocorre principalmente por conta da queda da demanda de aço na China uma vez que o aumento da produção, principalmente no Brasil, já estava no radar dos mercados. Porém, mais para frente, será justamente a maior produção da mineradora que levará os preços mais para baixo.

Se, para 2020, a companhia ainda terá dificuldades para atingir o seu guidance de produção entre 310 milhões e 330 milhões de toneladas anuais – Pereira projeta uma produção um pouco abaixo, de 305 milhões -, nos próximos anos a Vale (VALE3) pode recuperar a sua capacidade de produção antes datragédia de Brumadinho, ocorrida em janeiro de 2019. Além disso, a produção foi afetada posteriormente (entre janeiro a março deste ano) pelo maior volume de chuvas em importantes sistemas de extração e também pela pandemia. A projeção do analista é de que ela produza 350 milhões de toneladas em 2021, chegando a cerca de 390 milhões em 2024.

A própria Vale destacou, durante reunião com analistas, o foco em chegar aos 400 milhões de toneladas em capacidade até 2022 e, no futuro, ao patamar de 450 milhões de toneladas. Já a BHP Billiton também colocará mais minério no mercado a partir de 2021, com o projeto Flanco Sul.

Na mesma linha, o UBS apontou expectativa de que a commodity ainda terá maiores quedas, mas que se mantenha no patamar de US$ 105/t no segundo semestre. Os analistas do UBS Evidence Lab ressaltam que os embarques de minério no Brasil cresceram 5% na semana passada, chegando a 6,8 milhões de toneladas enquanto que, no comparativo anual, foi registrada queda de 16%.

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Os analistas do banco suíço projetam para 2021 o minério a US$ 85 a tonelada, enquanto que, para 2022, a cotação deve ser de US$ 75. Já o Itaú BBA vê o preço médio do minério em 2020 a US$ 102 (elevando suas projeções em relação à expectativa anterior de US$ 90) e US$ 80 para 2021 (projeção anterior de US$ 70).

Nem os próprios executivos da Vale acreditam que os atuais patamares de preços do minério são sustentáveis, conforme destacaram no evento recente com analistas.

De acordo com o apontado pelo Credit Suisse, a mineradora enxerga que as condições de demanda de minério na China estão bastante saudáveis e há boas perspectivas para os próximos 5 anos, além de haver também sinais de recuperação em outras partes do mundo (como Europa e Japão). No entanto, a visão da empresa é que, uma vez que a oferta da Vale chegue aos mercados chineses até o final deste ano, os preços devam começar a sofrer pressão (algo que, em menor grau, já está sendo observado).

Volta do pagamento de dividendos no radar

Apesar de mais quedas para o minério serem esperadas, o mercado segue com uma visão bastante positiva para a Vale – e para as suas ações. No acumulado do ano até o fechamento da última quinta-feira, os ativos subiam 23,65%, ante queda de 16,37% do Ibovespa.

“A queda recente do minério, obviamente, acaba afetando a performance dos ativos da mineradora, já que há uma grande correlação entre a commodity e os papéis na Bolsa. Contudo, essas movimentações não costumam ter tanto impacto em uma visão de mais longo prazo no mercado como um todo. Isso porque ninguém colocava na cotação da Vale o preço no minério atual, já que ele está muito acima do patamar sustentável”, avalia Fernando Fontoura, gestor da Persevera.

Na mesma linha, Pereira, da XP, aponta que o mercado atualmente precifica nas ações da Vale o minério de longo prazo a US$ 68 a tonelada, ainda abaixo da projeção do analista para a commodity no longo prazo.

A recomendação do analista para as ações da Vale é de compra, com preço-alvo de R$ 85 para o final de 2021 – potencial de valorização de 45% em relação ao fechamento da véspera, em meio a um cenário de forte geração de caixa, de prêmio de qualidade do minério e do forte desconto em relação aos pares do setor. Para os ADRs (American Depositary Receipts, na prática, as ações da companhia negociadas na bolsa americana), o preço-alvo é de US$ 16, representando um potencial de alta de 49,5%.

A perspectiva positiva se estende por outras casas de análise que cobrem os ADRs da mineradora – segundo compilação da Refinitiv, as 22 casas que cobrem a empresa têm recomendação de compra para o ativo, com preço-alvo médio de US$ 15 (ou um potencial de valorização de 40,2%).

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Apesar de haver temores com relação a uma possível redução da demanda da China em meio a menores estímulos para o setor de infraestrutura, o analista da XP avalia que o gigante asiático seguirá tendo uma demanda forte pela commodity, principalmente por ainda ter uma taxa de urbanização baixa. Mais a curto prazo, outra questão é a guerra comercial com os Estados Unidos, que ainda demandará por estímulos mais pesados à economia chinesa.

Além disso, cabe destacar a demanda do país por minério de maior qualidade, tanto por questões de eficiência quanto por ambientais – e este é justamente o produzido pela Vale. A mineradora produz o “Brazilian Blend Fines (BRBF)”, mistura de minério entre diferentes tipos que aumenta a qualidade média do produto.

Com relação a possíveis temores sobre excesso de oferta nos próximos anos, Pereira ressalta que a produção é concentrada em poucos players e, caso o minério tenha uma queda na cotação além do esperado, as companhias poderão reduzir a entrada da commodity no mercado. “Elas estão desalavancadas e, assim, não têm a necessidade de vender o minério a qualquer preço”, avalia o analista.

Outro ponto que reforça o otimismo é o potencial de dividendos, após mais de um ano sem pagá-los por conta da tragédia de Brumadinho. A XP espera um retorno com dividendos mínimo de 7% em 2021, considerando um preço de minério de ferro médio em US$ 85 a tonelada.

De acordo com Pereira, o novo foco recente que a Vale adotou sobre as suas metas – e que a princípio pode reduzir o pagamento de dividendos extraordinários – não diminuiu a projeção para pagamentos significativos de proventos pela companhia.

A administração da empresa mencionou, durante evento com analistas, que agora está olhando para uma meta de “dívida líquida expandida + compromissos” de US$ 10 bilhões – ela, atualmente, é de US$ 15,3 bilhões. Este número servirá de base para a alocação de capital e, consequentemente, para o pagamento de dividendos, conforme destaca o BBI.

“Antes, os investidores e nós assumíamos uma meta de US$ 10 bilhões para ‘dívida líquida financeira + compromissos de Brumadinho’, que atualmente é de US$ 8,1 bilhões”, apontam. Para os analistas do BBI, a nova referência reduz o espaço para dividendos extraordinários consideráveis em 2021, mesmo em um cenário de preço médio de minério de ferro de US$ 90-100 a tonelada”.

Na mesma linha da XP, o Itaú BBA avalia que, mesmo após essa mudança, a Vale deve pagar um dividend yield (divisão do valor esperado em dividendos pelo preço das ações) acima de 7% em março de 2021, dada a projeção de forte geração de caixa livre acima de US$ 7 bilhões no segundo semestre de 2020, levando a dívida líquida expandida da companhia para US$ 11 bilhões no ano, perto da meta da companhia.

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Cabe ressaltar que, no início do mês, o Conselho de Administração aprovou pagar remuneração aos acionistas, no valor bruto de R$ 2,4075 por ação, em 30 de setembro, totalizando R$ 12,4 bilhões. As ações da Vale passaram a ser negociadas ‘ex-direitos‘ no último dia 22 de setembro.

Questão de imagem

Fontoura, da Persevera, avalia que a volta do pagamento de dividendos foi uma sinalização forte da Vale de que a situação após a tragédia de Brumadinho foi razoavelmente contornada e que a empresa está mostrando segurança a respeito das contingências.

A performance da Vale, contudo, também seguirá dependente do desenrolar do acordo com o Ministério Público sobre Brumadinho, aponta o gestor. Porém, ele reforça otimismo, apontando que a empresa passa por uma contínua trajetória de de-risking – ou diminuição de riscos.

As reparações sobre o caso Brumadinho avançam, com mais de R$ 10 bilhões já desembolsados e a  Vale continua confiante de que o valor provisionado é exato (com base em extensos estudos com comunidades e autoridades), e espera que cerca de 90% sejam desembolsados até 2022, conforme aponta o BBI.

Ainda que haja avanços, o gestor da Persevera reforça que muitos investidores estrangeiros em potencial seguem sem ter posição em Vale pela forte crise de imagem enfrentada pela empresa. Além disso, os estrangeiros não estão posicionados em Brasil como um todo.

Assim, aponta, será questão de tempo – e de que a companhia prove que as medidas que está tomando para reduzir os riscos de suas operações estão sendo efetivas – para que a ação da empresa reduza o desconto com seus pares nas bolsas internacionais, notoriamente as australianas.

Durante encontro com acionistas, a Vale apontou que continua comprometida em melhorar seu desempenho com foco nos princípios ESG (environmental, social and governance, em inglês), que buscam integrar nos investimentos as melhores práticas ambientais, sociais e de governança das empresas.

Leia mais: Dá para pensar em ESG com Vale e JBS na carteira?

Sobre governança, o fim do acordo de acionistas em novembro implica, em sua maioria, membros do Conselho totalmente independentes. Além disso, a “descarbonização” é um foco (emissões de escopo 1 e 2 devem ser reduzidas em 33% até 2030, enquanto uma meta para emissões de escopo 3 está em análise) da empresa.

A descaracterização das barragens também está em andamento (14 barragens de rejeito, 3 para serem concluídas até o final do ano), apontou a empresa. A Vale já tem cerca de 70% de adesão aos novos padrões de barragens de rejeitos do ICMM ( Conselho Internacional de Mineração e Metais, fundado em 2001 para melhorar o desempenho do desenvolvimento sustentável na indústria de mineração e metais) e pretende chegar a 100% em um ano.

Com a volta do pagamento de dividendos e o contínuo processo de “de-risking”, a queda do minério acaba não assustando tanto, ainda mais levando em conta o patamar alto em que a commodity opera em boa parte do ano, reforçando assim o otimismo com as ações da companhia.

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