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Após o colapso da exchange de criptomoedas FTX no mês passado, surgiram dúvidas em todo o setor sobre a confiabilidade das finanças de outros grandes players do mercado. E com os auditores profissionais saindo abruptamente do espaço cripto, essas questões podem continuar.
A Binance, a maior exchange de criptomoedas por valor de mercado, tentou conter as preocupações levantadas pela rápida queda da rival FTX anunciando que divulgaria sua prova de reservas (espécia de diagrama com informações sobre os recursos dos clientes).
Esses relatórios, embora não sejam auditorias convencionais, descrevem a quantidade de criptomoedas que uma exchange está segurando – uma tentativa de dissipar os temores sobre o paradeiro do dinheiro dos clientes.
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O relatório de prova de reservas da Binance foi divulgado recentemente, mas foi removido na sexta-feira (16), quando a Mazars, empresa de auditoria contratara pela corretora cripto, anunciou que não estava mais trabalhando com a exchange. A Mazars também prestou (e cancelou) serviço para a Crypto.com e para a KuCoin.
A Mazars foi um dos poucos auditores (juntamente com Grant Thornton e BDO) trabalhando com empresas não regulamentadas e privadas da indústria de ativos digitais para garantir a transparência. Agora, no entanto, a firma francesa parece estar apreensiva.
“Estou bastante surpreso que o público e os reguladores estejam finalmente descobrindo que suas exchanges centralizadas favoritas têm camadas incrivelmente complicadas de estruturas corporativas e, como estamos descobrindo, livros não auditáveis”, disse Joseph Collement, conselheiro geral do site Bitcoin.com.
A Mazars, em um e-mail para o CoinDesk, disse que estava interrompendo o trabalho com clientes cripto globalmente devido a “preocupações sobre a forma como esses relatórios são entendidos pelo público”.
A Binance e muitas outras empresas do setor são de capital fechado, o que significa que não divulgam regularmente – ou nunca – dados financeiros. Portanto, as informações de comprovação de reservas de curta duração foram bem-vindas pela indústria.
Os relatórios da Binance e da Crypto.com, agora retirados do ar, foram muitas vezes mal interpretados como auditorias reais, ou seja, exames imparciais das demonstrações financeiras de uma organização. Mas eles são apenas um exercício de correspondência que envolve o mapeamento de ativos de clientes registrados no banco de dados interno de uma exchange com entradas em uma blockchain pública, de acordo com Francine McKenna, professora de contabilidade financeira na Wharton School, da Universidade da Pensilvânia.
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Isso gerou confusão no setor e a suposição de que essas corretoras cripto de fato tinham todos os ativos que diziam ter – o que não é necessariamente o caso, porque a exchange poderia ter escolhido a dedo os ativos que foram verificados pelo auditor.
Em teoria, é fácil auditar as provas das reservas, disse Collement. “Quando um criptoativo é depositado em uma conta destinada a um usuário específico, o CEX (sigla em inglês para exchanges) deve manter esse ativo (na proproção de) 1:1 em nome do usuário.”
No entanto, poucas CEXs aderem a esses procedimentos, disse ele. “Uma vez que ocorre a mistura dos fundos dos clientes ou dos fundos dos clientes e da empresa, as auditorias tornam-se extremamente mais difíceis.”
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Isso também ocorre porque os ativos podem ser mantidos em outras criptomoedas, em vez de dólares americanos, o que adiciona outra camada de complexidade. Além disso, “a prova de reservas significa muito pouco sem a prova de passivos”, disse.
Isso é um problema porque, embora esses relatórios provem que existem ativos para sustentar o valor de mercado de várias stablecoins ou reservas para respaldar os ativos dos clientes, eles não consideram a qualidade de crédito dos tomadores de empréstimos incluídos como ativos.
“Escolher fazer qualquer trabalho, especialmente uma auditoria real, com empresas cripto adjacentes é um risco muito alto”, disse Francine. “Não tenho certeza se essas empresas avaliaram completamente os riscos de aceitação e continuação desses relacionamentos para sua reputação e responsabilidade legal.”
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Há muito tempo, as empresas cripto prometem aos clientes publicar auditorias regularmente para fornecer uma sensação de segurança e transparência. Poucas realmente cumpriram sua promessa, e a maioria argumentou que é simplesmente muito difícil encontrar um auditor com quem trabalhar.
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“A Mazars está tentando reduzir seu perfil de risco”, disse RA Wilson, CTO da plataforma 1GCX. “Sua equipe provavelmente descobriu que está com falta de pessoal e não tem tanto conhecimento sobre a indústria cripto quanto precisaria para conduzir uma auditoria abrangente.”
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A saída de Mazars não significa, no entanto, que os auditores convencionais não possam examinar os livros das empresas de criptomoedas. A Coinbase é uma exchange de capital aberto baseada nos EUA e, portanto, divulga relatórios completos sobre suas finanças, auditados por uma das maiores empresas de auditoria do mundo, a Deloitte.
Essas empresas “preferem trabalhar com grandes empresas pré-IPO ou públicas”, disse Francine. “Os sócios que desejam fazer algo novo ou mais arriscado geralmente são retidos por várias camadas de verificações e contrapesos que gerenciam a responsabilidade da empresa.”
Por outro lado, empresas como Mazar e Grant Thornton, bem como a auditora da Tether (USDT), a Cayman Moore, viram uma oportunidade de criar um nicho em um novo setor, disse ela.
“Acho que essa ‘pausa’ da Mazars criará um efeito assustador”, falou ela. “O fato de a FTX ter feito auditorias significa que alguém está começando a pedir mais garantias. Isso agora se tornou um clamor muito alto, e duvido que as quatro grandes firmas [de auditoria] entrem em cena e preencham o vazio”.