Juros nas alturas

“Se Temer não abrir os olhos, Brasil seguirá se arrastando”, diz empresário que defende Selic a 3%

Instituto Democrativa, que José Alves preside, defende juros mais baixos como forma de reduzir os custos da economia - e afirma que política do BC está equivocada

SÃO PAULO – Se os investidores já estavam surpresos com o Copom (Comitê de Política Monetária) “hawkish”, que frustrou as expectativas de um corte de juros mais rápido, a ata do Comitê divulgada na terça-feira da semana passada acabou esfriando ainda mais as expectativas de de uma alta velocidade no corte, ao mostrar preocupação com a inflação de serviços. Desta forma, um corte expressivo de juros pode demorar ainda mais para acontecer. 

O debate sobre os juros é bastante intenso no Brasil. Há quem defenda uma redução drástica dos juros e aponte até que a alta deles é causa da alta da inflação. Por outro lado, há muitas alegações, conforme pôde ser observado nos primeiros anos do governo de Dilma Rousseff, de que uma queda de juros sem levar em conta os outros aspectos da economia levaria a uma alta vertiginosa da inflação. 

No primeiro grupo se encontra o Instituto Democrativa, que busca consolidar a tese de que o Brasil tem que abandonar definitivamente a elevação das Selic como modelo para combater a inflação. “Propomos a redução da Selic como modelo para retomar o crescimento da economia nacional, acelerar a retomada da empregabilidade, reduzir a dívida bruta do governo federal e, consequentemente, reconquistar a disponibilidade de recursos para saúde, educação, transporte, segurança e infraestrutura”, afirma o Instituto. 

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Presidente do Democrativa, o empresário e membro do conselho superior de economia da Fiesp José Alves, destaca ser extremamente importante que o Brasil tenha juros internacionalmente competitivos. “Hoje temos juros de até 400% no cartão de crédito, isso não nos leva a lugar algum. Muito pelo contrário, estamos matando nosso consumidor e a nossa economia”, afirma, defendendo a Selic a 3%. Ou seja, uma queda de 11 pontos percentuais frente aos 14% atuais. 

Alves ainda afirma: “enquanto o Brasil não tiver uma taxa de juros básica anual de juros alinhada, competitiva como no resto do mundo, não adianta ficar brigando por reforma tributária. Todo mundo fica abismado com o cartão de crédito a 400%, mas nada acontece. Nos EUA, o juro do cartão de crédito é 10%. Ou o governo Michel Temer abre os olhos em relação a isso ou a nossa economia vai decolar muito devagar e daqui a 5 anos nós tropeçaremo de novos, sempre teremos um voo de galinha. Pode observar, nós não temos consistência [no crescimento da economia]”.

O estudo apresentado pelo Instituto aponta ainda que as grandes economias mundiais, como EUA, Espanha e México, deixaram de utilizar os juros para combater ou controlar a inflação. “Ao contrário, estas grandes potências, quando a inflação sobe, demonstram operar com juros baixos, fazendo assim com que a economia se mantenha operando sem travas aos negócios, e a concorrência tem se demonstrado eficaz para forçar a redução dos preços, quando existe pressão inflacionária”. Alves defende que não se combate inflação quando se aumenta juros. “[Juro alto] é outra coisa que mata a economia. Vamos combater a inflação com competitividade”, afirma. 

O estudo faz comparações sobre os juros no Brasil com os EUA e com o México. No último caso,em 2008, o México estava com uma inflação ao redor de 6,53% ao ano. “Derrubaram a taxa de juros para 4,5% a.a, mantendo-a neste patamar por quatro anos. Em 2014, reduziram para 3% a.a. Atualmente, a taxa de juros é operada a 3,25% a.a, com taxa de juros reais de 1,12% a.a”, afirma. 

A alegação do instituto é de que os juros baixos levam à manutenção dos negócios, dos empregos e também reduzem a inflação. Para tanto, os consultores afirmam que, com juros baixos, os consumidores continuam comprando, as empresas vão ao mercado e captam recursos para investimentos e, com isso, as empresas crescem e geram empregos. Isso faria com que os produtos fossem vendidos com preços estáveis ou em queda; devido ao aumento da concorrência entre as empresas, o que contribuiria eficazmente no controle da inflação.

“A Selic a 3%, resulta também em menor esforço fiscal, pois quanto menor o juro real, menor o esforço fiscal”, diz o Instituto, apontando ainda que um problema que agrava ainda mais a situação do País, é o pagamento dos juros mensais da dívida que o Governo Federal é obrigado a “contabilizar” com juros tão altos. 

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“Só em janeiro de 2016, contabilizou-se aproximadamente R$ 56 bilhões de juros, o que resultará num custo anual de juros de aproximadamente R$ 670 bilhões. Caso o Brasil operasse com uma taxa Selic de 7,00%, teríamos que contabilizar juros ao redor de R$ 28 bilhões, traduzindo uma economia mensal de R$ 28 bilhões e anual de R$ 336 bilhões. Operando com a taxa básica de 3%, o custo da dívida em juros, a ser contabilizada, cairia para R$ 12 bilhões ao mês, traduzindo uma economia mensal de R$ 44 bilhões e anual de R$ 528 bilhões”, afirma. 

Segundo Alves, no atual cenário brasileiro, o governo tem optado pelo modelo que eleva fortemente a Selic e, com isso, acaba provocando um supertrauma na economia.

“Como resultado, chegamos ao caótico quadro de depressão com forte desemprego. Hoje temos empresas sendo fechadas em volumes assustadores, setores inteiros em crise. Nós estávamos até 2014, numa conjuntura onde empresas estavam investindo acreditando na continuidade da evolução econômica, consequentemente alavancada em financiamentos, inclusive as pessoas físicas, os Consumidores. Da mesma forma, os governos estaduais e municipais, na trajetória de investimentos para o crescimento do País. Eis que em 2015, o governo federal mudou o cenário de uma hora para outra. Reduziu drasticamente os prazos para financiamentos, as taxas de juros foram elevadas a patamares altíssimos, com essas medidas, todos os participantes da Economia do País entraram em colapso”, afirma Alves.

Ele aponta que mais de 100 mil empresas de varejo já foram fechadas e quatro mil indústrias fecharam as portas nos últimos doze meses, isso só no Estado de São Paulo.  “A cada 100 apartamentos vendidos em 2015, 41 foram devolvidos. Ou seja, uma conjuntura extremamente complicada para o País”, explica José Alves.