Análise

De alta de 5% à queda de 0,39%: o que explica o movimento da ação do Santander Brasil após o resultado?

Desempenho reflete visão ainda diversa para o papel: de 13 casas que cobrem SANB11, 7 têm recomendação neutra e 1 de venda, enquanto 5 recomendam compra

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SÃO PAULO – Ao contrário do que ocorreu com o resultado do Itaú Unibanco (ITUB4) na véspera, com os ativos caindo 2%, os números apresentados pelo Santander Brasil (SANB11) para o quarto trimestre – e o consolidado de 2020 – foram bem recebidos pelos investidores, com os papéis chegando a subir até 5,17% no intraday.

Contudo, ao longo do pregão, os ativos SANB11 foram amenizando os ganhos e fecharam em leve queda de 0,39%, a R$ 40,84, tanto por conta dos investidores embolsando os lucros após a alta inicial depois do anúncio da recompra de ações quanto pela visão ainda bastante dividida entre os analistas de mercado sobre o setor em geral com o cenário nebuloso para a economia.

Analistas de mercado destacaram os ponto positivos do balanço da instituição financeira, cujo lucro líquido gerencial totalizou R$ 3,958 bilhões nos últimos três meses do último ano, alta de 6,2% na comparação com igual período do ano passado e de 1,4% na base de comparação trimestral. Com isso, o retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) ficou em 20,3% no trimestre.

Em 2020, o lucro do Santander Brasil somou R$ 13,849 bilhões, queda de 4,8% sobre o ano anterior, com o ROAE de 18,9%, o que, segundo o Safra, é “um resultado bastante decente se considerarmos que seus pares privados podem apresentar uma queda de dois dígitos em seus respectivos resultados financeiros”.

Vale ressaltar que o responsável pela queda do lucro foi o aumento da provisão para créditos de liquidação duvidosa que foi de R$ 15,7 bilhões em 2020, montante 30,2% na base de comparação anual. Os valores da provisão extraordinária foram concentrados no segundo trimestre, em um movimento divergente ao de outros bancos. Além disso, apesar do montante ser bastante significativo, o montante pode ser considerado exíguo quando comparado ao Itaú, por exemplo, cuja provisão para perdas avançou 66,4% no ano passado em relação a 2019, para R$ 30,2 bilhões.

Sobre isso, a XP Investimentos destaca um ponto de atenção: as menores provisões impactaram positivamente os lucros, porém devem ser vistas com cautela pelos investidores. O banco consumiu 10 pontos percentuais em índice de cobertura  – relação entre empréstimos inadimplentes e provisões – de 90 dias para 290%, embora o índice de inadimplência tenha permanecido em 2,1%.

Com relação ao tema, os executivos do Santander Brasil destacaram em teleconferência que a tendência é de que a inadimplência e o custo de risco tenham uma leve deterioração nos próximos meses. Porém, por enquanto, o banco não está vendo sinais disso – avaliando que tudo depende do ambiente macroeconômico.

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Contudo, outros pontos foram destacados como positivos para o Santander Brasil: o Credit Suisse, por exemplo, aponta que os números foram sustentados pelo forte desempenho de tarifas e um leve aumento na margem com clientes. A aceleração de tarifas também se destaca como positiva.

O ritmo no crescimento da sua carteira de crédito no ano (alta de 16,9%) foi considerado bom pelos analistas da Levante Ideias de Investimentos, porém levemente abaixo do visto no resultado do Itaú (alta de 20,3% de crescimento em 2020)

Outro destaque positivo foi o crescimento 6,6% no ano da margem financeira bruta, que atingiu R$ 51,1 bilhões, um resultado expressivo em que a baixa taxa de juros Selic e os programas de crédito do governo impactam negativamente o resultado. Mais uma vez para efeito de comparação, o Itaú apresentou queda em 2020 de 6,1% nessa linha em seu resultado divulgado dois dias antes. O Santander atribui o desempenho à boa performance da margem de produtos, por maiores volumes, e de mercado.

Além disso, o índice de Basileia de melhor qualidade (CET1) continua em um patamar confortável de 12,9% o mesmo observado ao final de 2019, mostrando a eficiência na alocação de capital ponderada pelo risco e sem a futura necessidade de aumento de capital, o que implicaria em diluição dos acionistas e menor ROE, aponta a Levante. Em contraste, o Itaú apresentou um CET1 de 11,5% e comunicou na conferência de resultados que pretende limitar o pagamento de dividendos ao payout mínimo (fração do lucro líquido que paga aos seus acionistas) de 25% enquanto este índice não atingir 13,5%.

Os analistas do BBI também apontam que o Santander Brasil está de volta aos níveis pré-pandêmicos no que diz respeito a índices de capital, “indicação sólida de deve haver capital suficiente para financiar o crescimento esperado do banco acima do mercado nos próximos anos”.

O Credit também apontou que as tendências de qualidade dos ativos foram positivas, sem grandes preocupações no radar, ainda mais levando em conta as tendências de inadimplência razoavelmente estáveis. Os analistas do banco suíço possuem uma projeção de lucro líquido de R$ 15,3 bilhões para 2021, mas avaliam que ela ainda é conservadora, havendo também espaço para revisões para cima do consenso de lucros de R$ 14,7 bilhões após o resultado do quarto trimestre.

Na mesma linha, os analistas do Safra destacam otimismo com a continuidade da dinâmica de lucro ao longo de 2021, apontando que o retorno sobre patrimônio médio do banco pode fechar 2020 perto da marca de 19%.

Já para o Bradesco BBI, apesar da qualidade geral dos resultados devendo ser vista como positiva pelo mercado e com  espaço para revisões de lucros para cima, as projeções para maiores ganhos devem ser limitadas. Para os analistas do banco, a margem financeira de produtos como principal destaque positivo, totalizando R$ 10,3 bilhões (com avanço de 0,7% ante o terceiro trimestre).

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“As expectativas para Itaú e Santander eram para margem financeira de produtos começarem a recuperar no primeiro trimestre de 2021, com estabilização esperada no segundo e terceiro trimestres. Com os resultados do quarto trimestre, a expectativa é de que as margens continuem em tendência de alta”, afirmaram os analistas. Eles também apontam que os resultados devem ser vistos como “um colchão” para o Santander absorver o custo de crédito mais alto esperado à frente, com um possível aumento da inadimplência.

Cisão da Getnet e recompra de ações no radar

Além do resultado em si, outros anúncios foram feitos pelo Santander, um com potencial maior para impactar as ações e outro, de certo modo, já precificado pelos investidores.

Em primeiro lugar, a companhia anunciou um programa de recompra de ações de 1% das units, o que representa cerca de 10% do free float (livre negociação do mercado). “Acreditamos que o programa tenha influenciado na reação dos investidores no início do pregão dado seu tamanho relevante”, aponta o analista da XP, uma vez que os ativos chegaram a subir mais de 5% na máxima intradiária. Campos avalia ainda que uma possível redução no volume médio de negociação diária (ou ADTV na sigla em inglês) do banco não deve afetar sua liquidez dado o tamanho da instituição, com R$ 150 bilhões de valor de mercado.

Outro fator a ser monitorado pelos investidores é a cisão da Getnet. Na véspera, o conselho de administração do Santander aprovou o início de um estudo para separar as participações acionárias na credenciadora por meio de uma cisão parcial. Desta forma, os acionistas do Santander se tornariam acionistas diretos da Getnet. A cisão depende da finalização do estudo e de obtenção de aprovações necessárias.

Em teleconferência com jornalistas, Sérgio Rial, presidente do Santander Brasil, destacou que “não é impossível pensar em listagem da Getnet no terceiro trimestre”. O executivo apontou que até 31 de março esse processo interno de governança deve ser aprovado, sendo submetido para o órgão regulador em seguida. Com uma aprovação sendo possível entre dois e três meses, a listagem pode ocorrer no terceiro trimestre deste ano.

Rial, contudo, destacou que não haverá oferta de ações atrelada ao processo: “Importante dizer que não é um IPO, isso porque o controlador não está vendendo a Getnet, mas, sim, [os acionistas do Santander] passam a ser detentores de uma nova ação”.

O executivo apontou ainda que a listagem ocorre para dar mais transparências dos dados da credenciadora ao mercado em meio à maturidade da Getnet no segmento.

O volume de pagamentos processados pela credenciadora foi de R$ 93,3 bilhões no quarto trimestre, 35,8% superior no trimestre e com alta de 52,7% em 12 meses. Do volume faturado, R$ 55,1 bilhões foram de cartão de crédito e R$ 38,2 bilhões de cartão de débito enquanto que, em número de transações, o total foi de 892 milhões.

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O Santander destacou: “Continuamos com o menor custo por transação do mercado. Destacamos nosso protagonismo na participação de mercado no e-commerce que atingiu 25% em 2020, sendo líderes na Black-Friday. Isso reflete nossa estratégia de ter soluções no âmbito físico e digital. Em dezembro, lançamos o split de pagamentos para lojas físicas em que é possível dividir o valor da venda diretamente no POS digital”. A  Getnet teve lucro líquido de R$ 289,960 milhões no ano passado.

De acordo com Angel Santodomingo, diretor financeiro do Santander, a Getnet segue com espaço para crescimento, principalmente entre os microempreendedores.

Os analistas da Levante Ideias de Investimentos destaca que o segmento da Getnet ganhou destaque após os executivos da companhia aprovarem em novembro de 2020 estudos sobre um possível “spin-off” com listagem na bolsa de valores. O plano parte também do controlador do banco, o Santander da Espanha, e consiste em criar um player global de pagamentos para competir com plataformas globais no setor.

Santodomingo também fez uma análise mais geral sobre o banco, destacando que a carteira de crédito deve continuar crescendo de forma mais robusta em linhas com garantias, como imobiliário, agro, auto e consignado, enquanto o crédito para pequenas e médias empresas também deve subir acima da média. O cenário é mais conservador, contudo, para grandes empresas e corporações.

Em linhas gerais, o resultado do Santander Brasil foi comemorado pelos analistas de mercado, mas os papéis diminuíram fortemente os ganhos durante a sessão e passaram a operar perto da estabilidade durante a tarde também refletindo o cenário mais ambíguo que os investidores veem para os papéis. De treze casas que cobrem a unit do banco, segundo dados da Refinitiv, 7 têm recomendação neutra e 1 de venda, enquanto 5 recomendam compra.

“Vemos os múltiplos do banco em patamares altos quando considerados o nível de disrupção do setor bancário e os múltiplos de seus pares”, aponta a XP, que tem recomendação neutra e preço-alvo de R$ 32, mesma recomendação do BBI, que possui preço-alvo maior, de R$ 44.

Dentre os que recomendam compra, estão o Credit Suisse, que possui preço-alvo de R$ 53 para os papéis, enquanto o Safra tem preço-alvo de R$ 51, com a mesma recomendação.

Entre os principais gatilhos daqui para a frente, ainda que o resultado não seja um tão forte, a Levante Ideias de Investimentos destaca a retomada da economia brasileira com o começo da vacinação da população e novos desenvolvimentos quanto ao spin-off da Getnet, que deve dar aos acionistas do banco ações da nova empresa.

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