Rede D’Or (RDOR3) e Hapvida (HAPV3): 2º tri testou sinergias na saúde e mostrou que ainda há espaço para aquisições

Mesmo com dívidas das recentes aquisições, empresas têm caixa robusto; oportunidades de compra devem surgir com pressão de salários da enfermagem

Mitchel Diniz

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Os resultados do segundo trimestre de 2022 mostraram que as empresas do setor de saúde melhoraram seu desempenho operacional, mas seguem pressionadas na parte financeira. O crescimento de companhias como Hapvida (HAPV3) e Rede D’Or (RDOR3) via aquisições continua cobrando seu preço, em um cenário de juros ainda bastante altos. No entanto, os analistas avaliam que as sinergias dessas operações evoluíram de forma positiva no período. Alguns também apostam que a consolidação do setor tende a continuar.

O novo piso de salários para profissionais de enfermagem tende a elevar os custos dos players menores, a ponto de inviabilizar as operações de alguns deles. Prato cheio para empresas com caixa suficiente para continuar crescendo pela via inorgânica.

A Rede D’Or, que adquiriu dezenas de hospitais nos últimos anos, parece ter finalmente conseguido destravar sinergias, na visão de Rafael Ragazi, sócio e analista de ações da Nord Research.

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“Agora que as coisas estão normalizando em relação à pandemia, a Rede D’Or está voltando a fazer um trabalho mais ativo em relação a ganhos de eficiência e rentabilidade nos hospitais que foram adquiridos”, avalia. Ele destaca o crescimento das receitas em oncologia (R$ 585,9 milhões) no período e ganhos de eficiência na aquisição de materiais e equipamentos, apesar de aumento nos custos

Gabriel Gaspar, analista de ações da Levante, tem visão diferente. “A Rede D’Or não conseguiu demonstrar evolução consistente nos processos de sinergia, com ticket médio estável e um endividamento líquido superando o caixa e disponibilidades”, afirmou. O ticket médio é a relação entre receita bruta total e número de pacientes-dia. No segundo trimestre, ficou em R$ 9.224 praticamente estável em relação ao três primeiros meses do ano e 1,3% menor que no mesmo período em 2021. A Rede D’Or explicou que a cifra foi impactada pelo menor número de pacientes graves em leitos UTI Covid-19.

A dívida líquida da companhia terminou o segundo trimestre em R$ 14,8 bilhões, uma alta de 4,4% em relação aos três primeiros meses do ano. O caixa, por sua vez, ficou em R$ 14,1 bilhões, crescendo 29,5% em relação ao primeiro trimestre. Já a relação dívida líquida e Ebitda (lucro antes juros, impostos, depreciações e amortizações), em um ano, cresceu de 1,7x para 2,9x. Mesmo assim, Ragazi avalia que a empresa tem caixa para honrar dívidas até 2028 e enquanto o indicador estiver abaixo de 3x, não é preocupante.

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“Mas a alavancagem financeira está consumindo grande parte dos resultados operacionais e prejudicando a recuperação do lucro líquido”, apontam os analistas da XP. A cifra na última linha do balanço ficou em R$ 358,4 milhões, queda anual de 25%. “As margens ainda estão sofrendo com os processos de integração de aquisições, mas esperamos que assim que os tickets comecem a aumentar, as margens também cresçam”, complementa a XP, que acredita em uma recuperação ainda este ano.

A Rede D’Or ainda não apresentou estimativas de sinergia com a SulAmérica (SULA11), fusão anunciada em fevereiro. Na teleconferência sobre os resultados do segundo trimestre, o presidente da rede, Paulo Moll, afirmou que espera que a operação seja aprovada e explicou que as análises estão sendo feitas dentro do prazo esperado. A transação já conta com o aval da Superintendência de Seguros Privados (Susep) e precisa ser aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Hapvida foi melhor em sinergias

A Hapvida, por sua vez, definiu meta de R$ 46 milhões em sinergias sobre o Ebitda para fevereiro de 2023 e de R$ 115 milhões até 2025. De acordo com a empresa, R$ 29,1 milhões se refletiram nos resultados do segundo trimestre de 2022. “Está evoluindo de acordo com o cronograma da empresa e é para isso o que o mercado está olhando”, afirma Ragazi, da Nord Research.

Para Gaspar, da Levante, a Hapvida foi mais consistente do que a Rede D’Or no desafio de extrair sinergias e reduzir a alavancagem. “Apresentou indicadores mais fortes no trimestre, com a redução da sinistralidade”, observa o analista. A sinistralidade caixa da Hapvida no segundo trimestre ficou em 72,3%, com queda de 3,5 pontos percentuais em relação a um ano antes. “Está acima da media histórica, mas começa a apresentar uma evolução. A perspectiva é que os níveis de sinistralidade fiquem mais baixo daqui em diante”, diz Ragazi.

Rafael Barros, analista de saúde e educação da XP, afirma que ainda não é possível ver com clareza as sinergias de sinistralidade. “A questão são as aquisições menores que tanto Intermédica Notredame quanto Hapvida fizeram ao longo de 24 meses e estavam em fase de integração”, explica. Segundo ele, a empresa ainda não consegue mostrar de maneira precisa em que ponto de captura de sinergias está.

A XP avalia que o efeito relacionado às empresas adquiridas pode persistir nos resultados da Hapvida, atrasando o retorno da sinistralidade da empresa para os níveis históricos. De qualquer forma, Barros acredita que alguma perda de rentabilidade por índices de sinistralidade elevados tendem a ser compensados pelos ajustes nos preços dos planos de saúde coletivos no segundo semestre.

Itaú BBA e Credit Suisse, em suas análises sobre os resultados, também destacaram o crescimento orgânico da Hapvida, com a adição de 139 mil beneficiários no segundo trimestre. No entanto, os analistas ressaltam que a margem bruta da empresa continua pressionada, pois os tickets estão abaixo da inflação, enquanto os custos e despesas evoluem.

“Neste contexto, nossos analistas acreditam que a reversão dos índices de sinistralidade pode levar alguns trimestres, pois dependem de ajustes de tickets para compensar sinistros pressionados pela inflação e utilização”, avalia o Credit.

Piso da enfermagem alimenta consolidação

No começo deste mês, foi sancionada a Lei 14.434/2022, que estabelece um salário mínimo nacional para a categoria de enfermagem no Brasil: R$ 4.750 para enfermeiros, R$ 3.325 para técnicos de enfermagem e R$ 2.375 para auxiliares de enfermagem e parteiras. Um levantamento da CMB (Confederação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas) calcula que, com isso, os custos das instituições serão ampliados em R$ 6,3 bilhões por ano.

“Muitos hospitais que vinham com resultado positivo, poderão reverter para negativo”, disse o CEO da Rede D’Or na teleconferência de resultados do segundo trimestre da companhia. Essa visão é endossada pelos analistas. “Hospitais menores, que tem níveis de eficiência menores, podem ficar com a lucratividade zerada ou mesmo negativa. Os hospitais maiores também vão sofrer, mas por terem uma gestão mais disciplinada, conseguem digerir melhor o aumento dos custos”, diz Barros, da XP.

Para Ragazi, a medida tem impacto maior em Hapvida, por se referir a um custo que tem maior peso no Ebitda da companhia. A diferença entre o piso instituído pelo governo e o salário que a categoria recebe hoje também é maior nas regiões norte e nordeste do país, onde estão concentrados os negócios da empresa.

Medidas compensatórias estão sendo discutidas, como a desoneração da folha de pagamento. O piso da enfermagem também está sendo motivo de medidas judiciais, movidas pelas instituições de saúde. De qualquer forma, ainda que venha a impactar as empresas do setor, também tende a aumentar a concentração do segmento em prazos maiores. “Pressiona os custos de hospitais que estão operando sozinho e favorece os grandes na hora de discutir preços”, diz Ragazi.

Segundo Barros, da XP, mesmo endividadas, as empresas ainda tem caixa para aproveitar oportunidades e fazer novas aquisições. “A questão é se elas empresas vão querer usar esse colchão de liquidez pra continuar consolidando ou se vão guardar o caixa, para ver como vai rodar a operação com custos mais elevados”, conclui.

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Mitchel Diniz

Repórter de Mercados