Análise do setor

Reação exagerada ou justificada? Analistas se dividem sobre impacto das fintechs para as ações dos “bancões”

Apesar da turbulência recente, analistas do Credit Suisse, XP Investimentos e HSBC estão positivos com os grandes bancos, enquanto Bradesco BBI está mais cauteloso

SÃO PAULO – Depois de perder US$ 27 bilhões em valor de mercado em agosto ao apresentar resultados que desapontaram os investidores, os grandes bancos vêm tendo pregões mais tranquilos neste mês.

O motivo central da melhora de humor foi a informação de que o Banco Central pode reduzir depósitos compulsórios, o que deve permitir flexibilidade na alocação de capital e maior crescimento do crédito (veja mais aqui).

Ainda assim, as ações de bancos continuam com um desempenho abaixo do Ibovespa no ano. Enquanto o benchmark da Bolsa avança 18% no acumulado de 2019, os papéis do Itaú Unibanco (ITUB4), do Banco do Brasil (BBAS3) e do Bradesco (BBDC4) sobem cerca de 7%, enquanto as units do Santander (SANB11) valorizam 9% no mesmo período.

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A má vontade de muitos investidores com os bancões é explicada pelo crescimento das fintechs e a possibilidade de elas atingirem escala suficiente para reduzir de forma considerável o retorno das instituições tradicionais.

O impacto das fintechs para as operações dos bancos é incerto, o que também suscita análises diversas sobre se as ações de bancos tiveram uma reação exagerada ou se este é mesmo um assunto que promete dar dor de cabeça para as companhias do setor.

Os analistas de Credit Suisse, XP Investimentos e HSBC mantêm visão positiva para as maiores instituições financeiras do Brasil, considerando que elas têm escala e plataformas integradas para reagir às novas entrantes.

De acordo com o Credit Suisse os papéis de bancos do setor privado estão negociando com um desconto de 15% em relação à média dos últimos dez anos.

Na avaliação do Credit, as cotações atuais dos ativos assumem que a rentabilidade será entre 280 pontos-base a 350 pontos-base inferior à linha do consenso do mercado para os papéis (a análise usa o modelo de desconto de dividendos para chegar ao ROE implícito que iguale o fluxo de dividendos com o preço atual dos papéis).

Os números abaixo do consenso, avaliam, podem ser considerados piores do que os ocorridos desde 2005, e esse intervalo inclui o cenário de competição “predatória” dos bancos públicos em 2012 e 2013 e recessão entre 2015 e 2017.

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Para os analistas, por mais que a competição possa aumentar, parece um pouco agressivo assumir que as fintechs terão o mesmo impacto que Caixa Econômica Federal, BNDES e Banco do Brasil tiveram, considerando que os bancos públicos tinham quase 50% de participação de mercado naquela época.

Além disso, parece razoável esperar uma queda de participação dos bancos públicos nos próximos anos. “Acreditamos que o mercado exagerou em algumas premissas e continuamos mais construtivos com os bancos locais”, avaliam os profissionais do CS, que dão recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para os papéis do BB, Bradesco e Itaú, tendo recomendação neutra apenas para os ativos do Santander Brasil.

O HSBC é outra instituição que tem uma visão positiva com os bancos, em razão do avanço da agenda de reformas e dos preços razoavelmente atrativos. Para os analistas do HSBC, os balanços foram bons em um ambiente de economia andando ainda a passos lentos.

Logo após a temporada de balanços do segundo trimestre, a XP também publicou relatório (veja aqui) apontando uma visão estruturalmente positiva com o setor apesar do desempenho dos ativos pós-balanços. A avaliação era de que, apesar da maior concorrência, os grandes bancos podem mitigar riscos por meio de sua escala e plataformas integradas.

O analista André Martins, da XP, aponta ver o processo de disrupção ganhar força, mas avalia que uma transformação total da indústria não é um fato repentino já que, no caso do crédito, está se falando de um mercado concentrado e gigantesco de R$ 3,3 trilhões.

Ele reforça que há outras cinco forças dos bancos: i) confortável posição de capital frente a exigências nacionais e internacionais; ii) espaço para iniciativas de redução de custos e digitalização; iii) oportunidades em fusões e aquisições; iv) centros de empreendedorismo e tecnologia, como Cubo (Itaú) e Inovabra (Bradesco) e v) modelos de crédito robustos.

Além disso, os bancos devem ser participantes vitais e se beneficiar do ciclo benigno econômico e de crédito. A preferência da XP é pelas ações do Bradesco.

Sem tanto ânimo…

Enquanto essas análises mostram otimismo, Victor Schabbel, do Bradesco BBI, ressaltou uma visão bastante cautelosa para o setor.

O ceticismo do analista é consequência justamente da entrada de novos players uma vez que, embora robustos e bem preparados, os grandes bancos terão a sua agilidade testada. Assim, Schabbel avalia que este é o momento de ser mais seletivo, escolhendo a ação de um player com preparo para uma briga longa à frente.

A preferência é pelo Santander, com recomendação overweight (exposição acima da média do mercado) e preço-alvo de R$ 50 para as units (potencial de valorização de 13% frente o fechamento de quarta-feira).

O “menos preferido” é o Banco do Brasil, com recomendação neutra e preço-alvo de R$ 48 (sem potencial de valorização), enquanto a recomendação intermediária é pelo Itaú Unibanco, também neutro e com preço-alvo de R$ 36 (potencial de alta de apenas de 2%).

Ao contrário do Credit, Schabbel acredita que ROEs de 20% ou mais podem não ser sustentáveis por muito tempo, tendo estimativas de lucro líquido entre 4% e 5% abaixo do consenso em 2020, resultando em um crescimento modesto dos ganhos de 6% para os grandes bancos.

Para o analista, a expectativa de retorno a tais patamares não parece refletir as condições potencialmente mais severas vindas de uma combinação de: (i) queda das margens e (ii) menores taxas de serviço, sendo apenas parcialmente compensadas pela melhora de eficiência.

Com relação a taxas de serviços, Schabbel reforça que elas representam entre 36% e 44% das receitas operacionais dos grandes bancos, sendo que grande parte delas podem ser pressionadas nos próximos dois a três anos. Neste sentido, o Santander Brasil parece ser o mais bem posicionado ao ter menor dependência das “fees”, com as estimativas já refletindo a sua resiliência.

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