Diferentes empresas, diferentes cenários

Pressão de margens, mudanças no Brasil e novas estratégias: quais os impactos para as ações de JBS, BRF e Marfrig?

Exportações devem seguir guiando resultados de JBS e Marfrig, enquanto BRF pode se beneficiar do maior de consumo doméstico de frango

carne frango
(Shutterstock)

SÃO PAULO – Em meio ao apetite dos chineses pela carne brasileira, principalmente após a peste suína africana afetar os rebanhos de porcos no gigante asiático, muitas casas de análise destacaram que esse ano seria bastante benéfico para as companhias do setor de frigoríficos.

Contudo, com exceção da Marfrig (MRFG3), e a despeito dos resultados recordes de algumas empresas do setor, as ações das empresas de proteínas acumulam queda no Ibovespa em 2020, entre baixa de 8% (JBS – JBSS3) e 35% (BRF – BRFS3).

E, de acordo com análise do final de novembro publicada pela Bloomberg, o boom da carne bovina no Brasil já pode ter atingido o pico, pelo menos em termos de rentabilidade – o que afetaria principalmente as operações de Marfrig e JBS no Brasil.

As exportações seguem fortes, lideradas pela China, enquanto o real desvalorizado favorece os embarques brasileiros. Mas a alta demanda também ajudou a reduzir a oferta de gado e a elevar os preços do boi gordo em 50% este ano, para níveis recordes, o que leva a dificuldades para que o repasse de custos mais elevados aos consumidores brasileiros continue, pressionando as margens.

Para Cesar de Castro Alves, consultor de agronegócios do Itaú BBA, a oferta de animais para abate deve continuar baixa no próximo ano, mantendo os preços do gado em alta. Os custos recordes do gado já significam margens mais estreitas do que há um ano, destacou. Mesmo com a queda nas últimas três semanas da cotação da arroba do boi do preço do boi, o consultor apontou, em análise recente, não acreditar que os preços devam cair muito.

Se, no Brasil, as margens podem pressionar essas duas companhias, por outro, os analistas do Credit Suisse também destacaram em análise recente que as operações delas nos Estados Unidos no segmento de carne bovina mostram tendências positivas.

Em relatório do final de novembro, os analistas Victor Saragiotto e Felipe Vieira, do Credit Suisse, reforçaram a recomendação de compra para os papéis de Marfrig e JBS, com preferência pela primeira companhia.

Eles ressaltaram que o spread – diferença entre o preço da carne bovina e do boi – nos Estados Unidos atingiu US$ 21 por arroba em 24 de novembro, avanço de 64% na comparação com o início do mês e de 63% ante um ano antes, refletindo a maior demanda no mercado interno americano e também nas exportações de carne dos EUA. Eles ressaltam que há um surpreendente aumento das exportações de carne bovina americana pela China.

Para os analistas, a Marfrig é a empresa mais exposta ao bom momento da indústria americana, uma vez que por volta de 80% do lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) da companhia é gerado pela controlada National Beef, quarta maior indústria de carne bovina dos EUA.

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Voltando à produção do Brasil (e, em alguns casos, voltada ao consumo interno), em conversa com os analistas do Bank of America, Luis Rua, diretor de mercados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a expectativa é positiva para outros segmentos, como de carne suína e de frango em 2021, apesar da alta dos custos de ração.

Na avaliação do diretor da ABPA, as exportações devem continuar a crescer por três motivos: i) impulsionadas por um déficit de oferta de proteína em China e normalização das exportações para o Oriente Médio; 2) a produção deve crescer modestamente; e 3) os altos preços da carne bovina continuam sustentando os preços de aves e suínos em níveis mais elevados. Assim, além de também destacarem recomendação para a JBS, dona da Seara, também reforça recomendação de compra para a BRF, dona da Sadia e Perdigão.

Planos ambiciosos

Sobre a BRF, cabe ressaltar, a companhia realizou o seu Investor Day na última terça-feira, com um ambicioso plano de investimento para os próximos dez anos, que abrange uma série de transformações para levar a companhia à liderança do mercado de industrializados. Dentre os pilares, a consolidação da empresa no segmento de produtos com alto valor agregado, a ampliação na participação do mercado de pratos prontos, a diversificação de canais e a expansão internacional. Para isso, até 2030, a companhia pretende investir mais de R$ 55 bilhões e espera alcançar uma receita anual superior a R$ 100 bilhões na próxima década – em 2019, o faturamento da BRF foi de R$ 33,5 bilhões.

As ambições da companhia vão em linha com novas tendências de consumo, em parte evidenciadas pelo maior tempo dos consumidores dentro de suas casas por causa da pandemia do coronavírus. A previsão da BRF é aumentar a parcela do portfólio com alimentos industrializados como parte do faturamento de 50% para mais de 70%, focando menos em venda de aves e suínos in natura, de menor valor agregado.

Além do mercado interno, o mote é a diversificação geográfica com o estabelecimento de novas bases de produção da BRF, destacando três regiões que chamam a atenção: América do Norte, Europa e África. No evento da véspera, os executivos também reforçaram que o principal mercado da empresa no exterior continua sendo o de produtos halal, que seguem preceitos islâmicos de produção e abate.

Conforme destacam os analistas do Credit Suisse, o plano de crescimento dos próximos dez anos da BRF é ousado e trouxe, na véspera, um forte movimento de cobertura de posição dos acionistas que estavam vendidos no papel, guiando a alta de quase 9% para o papel na sessão da última terça.

Contudo, os analistas apontam que o desafio de entregar margem com crescimento não parece trivial. Eles destacam que a empresa teve um crescimento a uma taxa composta anual (CAGR) de 3% entre 2010 e 2019 no mercado doméstico e o plano indica 8% para os próximos seis anos.

A BRF indicou no evento que a cadeia é longa e complexa e os analistas ainda recordam que há um atraso no repasse de preços de grãos. “Estamos um pouco mais cautelosos com o resultado de 2021 em função de esperar uma pressão vinda de preços de grãos, final do auxílio emergencial [que impulsionou o consumo] e a recente apreciação do real. A combinação de aumentar a participação de processados atrelado a bons retornos no mercado internacional também não nos parece fácil. Preferimos adotar uma postura um pouco mais cautelosa e continuamos com recomendação neutra para o papel”, apontam os analistas do banco suíço.

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Larissa Pérez e Leonardo Alencar, analistas da XP Investimentos, também destacam ver o plano como bastante ambicioso, ressaltando os desafios que a companhia terá que passar, como as condições macroeconômicas desafiadoras no Brasil, competição com outras proteínas e com outras marcas do setor no Brasil e no mundo.

Por outro lado, estão otimistas com o consumo de carne para o próximo ano, com carne bovina e suína devendo ter um desempenho melhor em termos de exportações, e seguindo a avaliação de que a carne de frango deve crescer principalmente no mercado interno. “Frigoríficos com mix de produtos mais amplo devem ser beneficiados: uma maior demanda por alimentos processados poderia compensar, ainda que parcialmente, a alta no custo das matérias-primas observada neste ano”, afirmam os analistas.

Adicionalmente, tendo em vista o cenário macroeconômico desafiador – e o fim do auxílio emergencial -, sem grande espaço para aumentos de preço, a avaliação é de que o momento do frango poderia finalmente estar chegando, após um 2020 estelar para a carne bovina e suína, apontam. Nesse sentido, eles reiteram a recomendação de compra para BRF, com preço-alvo para final de 2021 de R$ 30, um potencial de alta de 40,98% em relação ao fechamento da véspera.

Outro otimista com a BRF é o Bradesco BBI, que vê com bons olhos as iniciativas da companhia, mas ainda não alterou as estimativas para a companhia com base no seu plano de crescimento anual. “Gostaríamos de ter mais clareza sobre os principais catalisadores de crescimento e oportunidades inorgânicas potenciais”, avaliam.

Eles complementam: “Dito isso, achamos que o anúncio marca uma mudança para a BRF de uma história de reestruturação para uma história de crescimento, o que pode melhorar o sentimento do investidor para a ação. Caso a BRF tenha sucesso na entrega deste plano de crescimento, vemos valorização relevante para a ação”. A recomendação outperform (desempenho acima da média) atual, com preço-alvo de R$ 28 (upside de 31%), dos analistas é baseada na visão de que seu segmento de alimentos processados vai ganhar participação frente o segmento de  alimentos in natura nos próximos trimestres, levando a uma reprecificação da ação.

O BofA, por sua vez, reforça a recomendação de compra para o papel BRFS3(com preço-alvo de R$ 31, ou upside de 45,7%) destacando que a ação está barata, sendo negociada abaixo dos múltiplos históricos e que o crescimento dos lucros tem sido sustentado por uma melhor execução no Brasil e um cenário setorial relativamente favorável. Em contraponto, o Morgan Stanley tem recomendação underweight (exposição abaixo da média do mercado), com preço-alvo de R$ 19 (queda de 10% em relação ao fechamento da véspera), mas ponderando que o evento de terça possa levar a uma reclassificação das estimativas para cima.

Conforme mostra abaixo o quadro com a recomendação dos analistas da Refinitiv para as ações do setor, os analistas de mercado ainda se mostram divididos quando o assunto é BRF, com 6 recomendações de compra, 4 neutra e 1 venda. Para a JBS, a recomendação de 12 casas é de compra para ação, enquanto Marfrig tem 9 recomendações de compra e 1 neutra.

 

EmpresaTickerRecomendação de compraRecomendação neutraRecomendação de vendaPreço-alvo médioUpside frente o fechamento da véspera Desempenho em 2020 
JBSJBSS31200R$ 35,50+55,36%-7,80%
BRFBRFS3641R$ 28,00+31,58%-35%
MarfrigMRFG3930R$ 18,83+30,40%+45,68%
MinervaBEEF3640R$ 15,84+56,83%-19,48%

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Em relatório em que comentou as exportações das companhias, o Morgan destacou que a JBS continua sendo a escolha preferida do setor por contar com diversificação geográfica, com  exposição às exportações de carne bovina e um mercado doméstico de carne bovina muito favorável nos Estados Unidos (mitigando eventual fraqueza nas exportações do Brasil).

Vale destacar que, enquanto os papéis da Marfrig tiveram forte alta no ano, os papéis da JBS registram perdas, também sendo afetada por passivos judiciais, apesar de reportar bons resultados no segundo e no terceiro trimestre (veja mais aqui). Na última segunda-feira, por sinal, a revista Veja afirmou que os representantes de Joesley e Wesley Batista, donos da companhia, chegaram a um acordo com a equipe de Augusto Aras, da Procuradoria Geral da República (PGR), com a finalidade de preservar o contrato da delação premiada assinado em 2017, na gestão de Rodrigo Janot. Para o Credit Suisse, se a notícia for confirmada, ela é positiva, uma vez que a validade da delação é um tema observado de perto pelos investidores.

Assim, o cenário que se aponta é positivo para esse segmento do setor de alimentos, com a carne bovina podendo repetir o bom desempenho em termos de exportações, enquanto carne de frango deve ganhar força por aqui. Com isso, os temas a serem monitorados de perto, em termos macro, são: i) o câmbio, uma vez que as receitas das companhias estão altamente expostas ao dólar, tanto por meio de suas operações nos Estados Unidos quanto por meio de exportações da América do Sul; com isso, a valorização do real poderia impactar negativamente o setor; ii) o ritmo de recuperação da economia e iii) os preços dos insumos, como animais vivos e grãos. Se eles permanecerem em patamares elevados, as margens das empresas devem seguir pressionadas, principalmente para frigoríficos e, em particular, para aqueles expostos a suínos e aves, ressalta a XP Investimentos.

Já com relação ao que se atentar especificamente nas empresas, os investidores vão acompanhar de perto o progresso do plano de investimentos da BRF, a resolução das questões judiciais da JBS e se ela continuará registrando fortes números, assim como a Marfrig.

(com informações da Bloomberg e Agência Estado)

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