Ibovespa fecha em baixa de 2,15%, apesar de queda da Selic: o que explica movimento?

Apesar de Copom ter cortado juros no Brasil, decisão do banco central americano acabou minguando o otimismo, ao menos momentaneamente.

Vitor Azevedo

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Mais um corte da Selic e, curiosamente, mais uma vez, o Ibovespa fechou em forte baixa, acelerando as perdas no fim do pregão e encerrando as negociações em queda de 2,15%, aos 116.145 pontos. O principal índice da Bolsa brasileira, a princípio, teria ignorado a movimentação do Comitê de Política Monetária (Copom) da véspera, que cortou a taxa Selic em 50 pontos-base, para 12,75%. Porém, os sinais dados pelo Copom e também pelo Federal Reserve na véspera ajudam a explicar o movimento do mercado.

Usualmente, um corte de juros pela autoridade monetária é positivo para a Bolsa brasileira. Há fluxo de saída da renda fixa, que passa a pagar menos, para ativos de risco; as empresas veem seus faturamentos e financiamentos aumentarem, já que o crédito está mais barato; e companhias gastam menos com suas dívidas. Mas não foi essa a reação de curto prazo no mercado.

A explicação, segundoa especialistas, é que outra autoridade monetária também “acabou com a festa”. O Federal Reserve, dos Estados Unidos, que manteve a fed funds no intervalo entre 5,25% e 5,50% na última reunião da véspera, trouxe um tom duro no seu comunicado – sinalizando que vê a taxa avançando de novo nesse ano, com outra alta de 25 pontos-base, e que não a vê caindo durante 2024.

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“A gente tem que lembrar que tivemos uma decisão de uma manutenção de taxa de juros, mas com tom hawkish [duro], como a gente diz no jargão de mercado, por parte do banco central americano. Isso, obviamente, contamina os ativos brasileiros de alguma forma”, fala Luis Garcia, CIO da SulAmerica Investimentos.

“Acho que a queda é reflexo de aversão ao risco após um discurso um pouco mais duro do Federal Reserve ontem. Como consequência, vemos a curva de juros nos EUA abrindo, o dólar se valorizando e as bolsas recuando”, menciona Luís Fernando Azevedo, head de Equity Research da Oriz Partners.

Os treasuries yields para dez anos ganharam 14,1 pontos-base, a 4,488%, e os para dois anos, 2,4 pontos, a 5,14%. Quando os títulos do tesouro americano, que são considerados os ativos “mais seguros do mundo”, pagam mais, cria-se um fluxo de capital para os Estados Unidos. Com isso, o DXY, que mede a força da moeda americana frente a outras divisas de países desenvolvidos, subiu 0,23%, aos 105,37 pontos. Frente ao real a alta foi de 1,13%, a R$ 4,934 na compra e a R$ 4,935 na venda.

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“Nesta manhã, as taxas de juros dos títulos do governo dos EUA atingiram os níveis mais altos desde 2007,”, fala a equipe da Monte Bravo investimentos. “Nas suas Projeções Econômicas, os membros fizeram ajustes significativos nas expectativas em relação às taxas de juros. A nova perspectiva elevou a média das taxas de juros para 2024 para 5,6%, em comparação com os 5,1% anteriores”, completam.

Fora isso, os benchmarks americanos caíram. Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq recuaram, na sequência, 1,08%, 1,64% e 1,82%.

Já há algum tempo, especialistas mencionavam que a Bolsa brasileira estava muito suscetível às decisões monetárias americanas. O Ibovespa, com as falas do Fed, sofre até mesmo mais do que os índices de Nova York, já que países emergentes costumam perder mais quando a aversão ao risco sobe.

No Brasil, a curva de juros acompanhou a americana, apesar da queda da Selic. Os DIs para 2024  ficaram estávei, a 12,25%, mas os para 2025 e 2027 subiram, respectivamente, quatro e 5,5 pontos, a 10,57% e 10,53%. As taxas dos contratos para 2029 e as dos para 2031 ganharam, ambas, sete pontos, a 11,06% e 11,36%, respectivamente.

“Para mim, investidores trabalhavam com a hipótese de que o Banco Central brasileiro poderia trabalhar com cortes de 75 pontos-base. A sinalização do Fed afastou essa possibilidade e o mercado está passando por esse ajuste, com [a visão de] um corte menor”, fala Alan Martins, analista da Nova Futura Investimentos.

Fernando Ferreira, estrategista da XP, também apontou que na curva de juros havia alguma probabilidade de uma aceleração desse corte, talvez para 0,75 nas próximas. “Então o mercado tem que continuar se ajustando a essa é a magnitude de corte 0,5. Além disso, o comunicado fala sobre a questão fiscal das metas estabelecidas, o que coloca ali uma dúvida de que, caso o governo tenha que mudar a meta ou não cumpra a meta, se isso pode impactar a magnitude dos cortes futuros ou quanto que o Copom vai continuar cortando”, aponta.

Ferreira complementa ao dizer que o Copom também trouxe no comunicado falas sobre a alta de juros nos Estados Unidos.

Entre as maiores quedas do Ibovespa, ficaram companhias alavancadas e ligadas ao mercado interno. As ações ordinárias do Grupo Soma (SOMA3) perderam 6,71%, as da MRV (MRVE3), 4,83%, e as da CVC (CVCB3), 5,42%. Magazine Luiza (MGLU3) e Grupo Casas Bahia (BHIA3), antiga Via, recuaram 6,75% e 1,33%, respectivamente.

Cabe ressaltar que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central lançou mão de várias mensagens consideradas pelos analistas mais duras (“hawkish”, no jargão do mercado) no comunicado sobre a decisão de cortar em 50 pontos-base a taxa Selic nesta quarta-feira (20). Segundo os especialistas, análises do cenário externo e interno colocaram obstáculos para que seja adotada alguma aceleração no ritmo de cortes da Selic até o final do ano.

Marco Caruso, economista chefe do PicPay, cita também o reconhecimento da piora de condições no exterior como alguns desses pontos a serem considerados, especialmente a piora na expectativa do crescimento chinês e a discussão sobre o juros longos nos Estados Unidos. “As duas coisas podem se traduzir num câmbio mais desvalorizado, o que pode ser inflacionário para o Brasil”, comentou.

Fora as decisões monetárias, Alan Martins, da Nova Futura, destaca ainda o risco do petróleo, que  vem subindo e que puxa a inflação para cima e aumenta o risco de novas altas dos juros – hoje a commodity teve um dia volátil e fechou em leve queda, mas há preocupações sobre um possível avanço dela  após a Rússia anunciar um corte temporário das suas exportações de gasolina e diesel.

Por fim, além do peso dos juros americanos, o Ibovespa sofreu também com o recuo das companhias do setor de minério e de siderurgia. As ações da Vale (VALE3) perderam 2,61%, acompanhando o preço da commodity na China – em grande parte causado também por conta da aversão ao risco imposta pelo Fed.

Ao mesmo tempo, de acordo com a Reuters,  investidores optaram por aguardar os detalhes da promessa da China de acelerar a implementação de mais políticas para consolidar sua recuperação econômica, enquanto o conturbado setor imobiliário do país manteve-os cautelosos.

Apesar do recuo no curto prazo, há, contudo, quem esteja animado com a Bolsa brasileira.

A equipe de estrategistas e analistas da XP, ao analisar o ciclo de queda de juros no Brasil, aponta que o primeiro sinal de que o mercado já precificava um início de ciclo de cortes na taxa de juros foi em 8 de março — desde então, o Ibovespa já valorizou mais de 10% (apesar da queda do índice em agosto, mês do primeiro corte de juros), também puxado pela expectativa de reduções na Selic.

Mesmo com esse movimento, os analistas que assinam o relatório acreditam que ainda há espaço para a Bolsa valorizar daqui para frente.