Hawkish e dovish são termos do jargão econômico americano utilizados para designar comportamentos de bancos centrais e de pessoas associadas à política monetária de um país. Dada a importância da economia dos Estados Unidos e a globalização, estas figuras de linguagem se disseminaram e hoje são usadas por economistas e publicações especializadas ao redor do mundo.

“São expressões assimiladas no Brasil não faz muito tempo. Eram usadas, mas não de forma predominante [até o início dos anos 1990]”, aponta o economista chefe da corretora Planner, Ricardo Martins. “Com a abertura da economia e o Plano Real, o Brasil se tornou mais atrativo para os investidores estrangeiros e hoje estes conceitos fazem parte do dia a dia”, explicou.

O professor de Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV) em São Paulo, Henrique Castro, acrescenta que palavras assim vão parar nos livros dos estudantes de economia e acabam incorporadas ao vocabulário da profissão. “E alguns termos são de difícil tradução”, observou.

Hawkish vem da palavra em inglês “hawk”, que significa “falcão”. Descreve um comportamento agressivo, de ataque. Na outra mão, “dovish” é uma referência à palavra “dove”, ou pomba. Aponta para uma ação branda, leve.

O principal objetivo da política monetária é o controle da inflação. Nessa seara, a missão do Banco Central é trabalhar para manter o índice de variação de preços na meta, aumentando ou reduzindo os juros básicos.

Um movimento de elevação das taxas de juros, ou seja, de aperto monetário, é chamado de “hawkish”. Já a ação contrária, de redução dos juros, de expansão, é “dovish”. É como se, por um lado, o Banco Central atacasse a inflação para contê-la e, por outro, com os preços sob controle, deixasse a economia rolar mais solta.

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No Brasil, quem define a meta de inflação é o Conselho Monetário Nacional (CMN). O indicador oficial utilizado é o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central é responsável por perseguir a meta, aumentando ou reduzindo a Selic, que é a taxa básica de juros. Nos EUA, essa reponsabilidade cabe ao Federal Open Market Committee (Fomc) do Federal Reserve, ou Fed, que é a autoridade monetária do país.

Nos EUA, porém, são objetivos da politica monetária, além da estabilidade dos preços, maximizar os empregos e manter as taxas de juros de longo prazo moderadas. Não é uma tarefa fácil, pois um ciclo de aperto tende a afetar negativamente o mercado de trabalho.

O que é Hawkish

Hawkish é um comportamento agressivo, incisivo e, na economia, indica uma postura de combate à inflação por meio do aumento dos juros. Taxas mais altas fazem o crédito ficar mais caro, inibem os empréstimos e financiamentos e, como consequência, o consumo e os investimentos das empresas.

A economia desacelera, o que deprime o mercado de trabalho, e os preços tendem a cair, ou pelo menos passam a subir menos. Isso reduz o ritmo da inflação. O objetivo é levá-la para a meta.

O que é Dovish

Dovish é o contrário, uma conduta voltada ao estímulo econômico, de redução ou manutenção dos juros em patamares baixos. Nesse cenário, os empréstimos e financiamentos ficam mais baratos, o consumo e os investimentos das empresas avançam. A economia aquece, diminui o desemprego e pode haver aceleração da inflação.

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Os termos hawkish e dovish podem ser aplicados à abordagem de pessoas sobre a política monetária. No Copom ou no Fomc, por exemplo, pode haver membros mais hawkish ou dovish. É hawkish quem que vê mais risco na inflação elevada e acha importante controlá-la subindo os juros.

Quem é dovish está mais preocupado com os efeitos de um crescimento fraco e a preferência é por medidas expansionistas, como a redução da taxa ou sua manutenção em nível baixo. “Há uma corrente que tenta equilibrar, fazer uma sintonia fina”, comentou Castro.

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Qual a diferença entre Hawkish e Dovish

São abordagens opostas. Um BC hawkish sobe os juros para controlar a inflação. Um BC dovish reduz as taxas ou as mantém em patamar baixo para estimular a economia. Os termos não dizem respeito à intensidade da política adotada, mas aos ciclos de alta e baixa dos juros.

São abordagens opostas. Um BC hawkish sobre os juros para controlar a inflação. Um BC dovish reduz as taxas ou as mantém em patamar baixo para estimular a economia. Os termos não dizem respeito à intensidade da política adotada, mas aos ciclos de alta e baixa dos juros.

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Quais os efeitos de Hawkish e Dovish na economia

Via de regra, política monetária hawkish resulta em redução da atividade econômica e postura dovish tende a incentivar a economia, como visto acima.

Há, no entanto, efeitos nas áreas cambial e fiscal também. O comportamento hawkish implica no aumento dos juros e, consequentemente, das taxas pagas por papeis de renda fixa, como títulos do Tesouro Direto. Isso atrai o interesse de investidores estrangeiros. Mais dólares entram no país e, no caso do Brasil, o real tende a valorizar. Do lado fiscal, a retração da atividade econômica reduz a arrecadação e deixa menos espaço para gastos públicos.

Como impactam nos investimentos

Juros altos decorrentes da abordagem hawkish tornam mais atrativos o investimentos em renda fixa. Vale lembrar que a Selic foi de 2% para 13,75% em menos de um ano e meio entre 2020 e 2022, então aplicações que sequer chegavam a cobrir a inflação no início de 2021 passaram a dar bons retornos.

Além de atrair investidores estrangeiros, títulos de renda fixa em alta despertam o interesse de quem investe na bolsa, pois a renda variável tem mais riscos e as possibilidades de retorno diminuem, até pelo arrefecimento da economia resultante dos juros altos. Pelo mesmos motivos, caem as aberturas de capital e minguam projetos que requerem grandes investimentos.

Por outro lado, quando o cenário vira dovish, há reversão deste movimento. Títulos públicos e outros de renda fixa perdem atratividade pela queda dos juros, o aquecimento econômico favorece as empresas e suas ações, e voltam a surgir grandes projetos que demandam capital.

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É possível dizer que num ciclo hawkish, os juros elevados garantem uma zona de conforto aos investidores, que não precisam trabalhar tanto em busca de opções mais rentáveis. Isso é especialmente verdade do Brasil, onde as pessoas estão muito mais acostumadas com investimentos em renda fixa do que na bolsa.

“As altas taxas de juros representam um porto seguro para o investidor”, destacou Martins. Títulos atrelados ao IPCA, por exemplo, garantem proteção contra a inflação e pagam juros reais. “Neste cenário, as pessoas tendem também a poupar mais”, acrescentou Castro.

Como o Banco Central decide entre Hawkish e Dovish

O Banco Central leva em consideração diferentes indicadores. Por exemplo, os juros estão elevados e os bancos passam a reportar altos níveis de endividamento e inadimplência dos consumidores, e tornam-se mais seletivos na concessão de crédito; e os índices de produção da indústria, comércio e serviços se estabilizam ou começam a cair. Há redução no ritmo da economia.

São sinais que apontam na direção do objetivo da política hawkish, que é reduzir a inflação para a meta. Pode ser hora de inverter a estratégia, adotar uma abordagem dovish e começar a cortar os juros. Os efeitos das mudanças nas taxas para cima ou para baixo não são imediatos, e intervenções mais intensas têm impactos mais profundos e de reversão mais lenta.

O BC não vai esperar a meta ser efetivamente atingida para começar a reduzir as taxas. A intensidade dos efeitos de uma política na economia vão definir a velocidade da aplicação de outra.

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O Copom se reúne a cada 45 dias para decidir sobre a Selic. É um colegiado, e a decisão de subir, baixar ou manter os juros é resultado de uma votação.

O que costuma acontecer quando a inflação está em alta?

Inflação fora de controle, achata os salários e corrói o poder de compra da população. Os produtos e serviços aumentam de preço, mas não a remuneração das pessoas. Os consumidores compram menos e passam a recorrer a produtos mais baratos, geralmente de pior qualidade ou quantidade.