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Poder do Voto: Aplicativo aproxima eleitores de políticos e promete alternativa ao "populismo digital"

Lançado há pouco mais de um mês, app já foi baixado por mais de 40 mil usuários. A ferramenta capta a preferência dos eleitores sobre temas específicos em discussão no Congresso Nacional e envia diariamente relatórios aos representantes, além de possibilitar a troca de informações entre as duas pontas

Poder do Voto
(Divulgação)

SÃO PAULO - Um binóculo gigante apontado para o Congresso Nacional marcou, há pouco mais de um mês, o início dos trabalhos do Poder do Voto, aplicativo que tem a missão de acompanhar os passos de cada um dos 513 deputados federais e 81 senadores no exercício de seus mandatos e promover a interlocução entre uma classe política desgastada em busca de recuperação de imagem e os eleitores interessados em maior participação no processo decisório em Brasília.

Conforme conta o empresário Paulo Dalla Nora, cofundador da iniciativa, a missão da ferramenta é facilitar, sem qualquer posicionamento ideológico, o engajamento de eleitores e seus representantes em um debate sobre as principais proposições em discussão no parlamento. Cada usuário que baixar o aplicativo tem o direito de seguir um deputado federal e dois senadores de seu estado, o que reforça a ideia de monitoramento dos trabalhos do representante escolhido – o que não necessariamente significa voto na última eleição.

Para Nora, há uma mudança significativa no comportamento dos eleitores em curso desde a última corrida às urnas, mas o grau de envolvimento com a política ainda estaria distante do desejável. "Nos últimos anos, observamos o aumento do interesse das pessoas por política. Mas é muito claro que essa é uma primeira aproximação ainda muito superficial, de pessoas que nunca prestaram atenção em política. Não estou dizendo que não é importante, mas é muito insuficiente para se considerar o engajamento político", diz em entrevista ao InfoMoney.

"Nosso esforço é aproveitar este momento e disposição, que é positivo, e apresentar uma ferramenta que fossem vários passos a mais. Política não é só eleição, política não é só o impeachment, política não é só pressão para a votação da aprovação de uma coisa específica das medidas contra a corrupção. Política é o dia a dia do que acontece no Congresso. Para você ter uma consciência política um pouco mais profunda, você precisa se envolver nas discussões ou pelo menos começar a entender o que está sendo discutido", complementa o empresário, que trabalha voluntariamente pela causa, que não tem fins lucrativos.

De um lado, o Poder do Voto oferece aos usuários opiniões e argumentações variadas, de figuras públicas e organizações da sociedade civil – da UGT (União Geral dos Trabalhadores) ao Instituto Millenium –, sobre temas que estão em discussão no parlamento.

A ferramenta capta a preferência dos eleitores e envia diariamente relatórios aos respectivos representantes no Poder Legislativo, com informações sobre correção de posicionamentos, críticas e avaliações dos usuários. Seria uma espécie de via de mão dupla, auxiliando eleitores a conhecerem melhor seus representantes e os parlamentares a entenderem as preferências cidadãos que compõem sua base.

Mas para quem pensa que o método se parece com as enquetes que viraram moda em votações populares, o fundador avisa: "Não tem nada a ver com enquete de Facebook, por alguns motivos: 1) Lá tem um bocado de robô que vota várias vezes. Nós não temos robô nem fake, porque pegamos o número do celular e o Facebook, e o sujeito não pode fazer outra conta; 2) Não pode votar mais de uma vez e não pode baixar em outro celular [com os mesmos dados]; 3) Não é algo no calor da votação, mas de dois meses antes. Há uma série de entidades dando opinião e damos a oportunidade de o parlamentar ver aquilo todo dia, falar de volta e mudar de opinião".

"É muito arriscado supor que o que está na rede social representa seu eleitor, representa o sentimento do Brasil, de uma cidade etc. Quando um projeto de lei tem o malefício localizado e o benefício difuso, muito provavelmente uma enquete dessa vai gerar um entendimento de que o projeto é ruim", explica.

A recente onda de enquetes de parlamentares e de exibicionismo de votos, que se evidenciou sobretudo nas eleições para a presidência do Senado Federal em fevereiro, apesar de indicar maior preocupação do mundo político em incluir a opinião pública no debate político, também pode oferecer riscos de tentações do populismo digital.

"Na democracia tem que existir esse espaço [de divergência]. Inclusive, o parlamentar pode discordar de sua base, porque talvez haja uma medida necessária naquele momento, mas impopular. Não podemos tirar esse direito porque é muito fácil ser um parlamentar que diz que vai votar somente com o clamor da rede social. As pessoas podem entender isso como transparência, mas é abrir mão da responsabilidade do que é ser um representante da população, que às vezes, inclusive, requer tomar posições que não sejam populares", aponta o empresário.

"O parlamentar não pode abrir mão de seu mandato, porque, se ele apenas fizer seu posicionamento de acordo com o que está na rede social, ele perde a capacidade até de argumentar de volta e tentar contrapor opiniões. Eu vejo com muita preocupação isso, principalmente nessa forma rasa do debate, que é o imediatismo. Tentar tratar o voto dessa forma, no calor da coisa, sem diálogo, pode entrar na tese da multidão, o que se chama de 'efeito manada'", complementa.

Para Nora, o imediatismo promovido pelas redes sociais e debates rasos podem levar a decisões equivocadas para a sociedade no longo prazo. Segundo ele, a proposta do Poder do Voto é justamente combater este estado de coisas e oferecer alternativas a quem quer um maior engajamento político, sem comprometer a liberdade de decisão dos eleitos.

"Normalmente a opinião pública converge para estar certa, mas muitas vezes demora um tempo. O parlamentar tem que ter a flexibilidade de, algumas vezes, considerar que aquele timing ainda não é apropriado. Por isso que digo que o imediatismo das redes sociais vai levar a decisões ruins para a sociedade", sustenta.

Evidentemente, uma persistente baixa taxa de correspondência entre as posições dos parlamentar e os eleitores que se inscreveram para segui-lo gera consequências. Neste caso, é possível parar de seguir os atuais representantes e escolher outros deputados e senadores no variado cardápio oferecido.

Os políticos mais populares
O Poder do Voto é um projeto sem fins lucrativos, feito com doações dos fundadores e pessoas. Não são aceitas doações de empresas e entidades, apenas colaborações com trabalhos pro bono em casos específicos. O sistema é todo automatizado e os funcionários são, em sua maioria, voluntários. 

Após o lançamento, o projeto tem como objetivo ganhar relevância e iniciar campanhas para doações pequenas de usuários apenas para cobrir os custos de manutenção. Os dados são de propriedade de cada usuário e não podem ser usados pelos donos do aplicativo.

Até agora, mais de 40 mil usuários já baixaram o app gratuitamente e estão acompanhando os trabalhos de seus representantes escolhidos, que podem mudar ao longo da legislatura. Eleitores que estiverem insatisfeitos com seus representantes podem escolher outros parlamentares para seguir.

Entre os senadores mais populares no aplicativo, estão os Major Olímpio (PSL-SP), com 4.253 seguidores; Mara Gabrili (PSDB-SP), com 4.107 seguidores, e José Serra (PSDB-SP), com 4.083 seguidores.

Do lado dos deputados, estão Tabata Amaral (PDT-SP), com 2.691 seguidores; Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), com 1.931; Joice Hasselmann (PSL-SP), com 1.017; e Kim Kataguiri (DEM-SP), com 943.

Já entre os partidos, as siglas com representantes (deputados e senadores) mais seguidos são PSDB (11.725), PSL (5.916), MDB (5.167), PSD (3.344) e Podemos (2.694).

Até o momento, os temas com maior interação dos internautas são a lei geral de licenciamento ambiental (8.297), a proposta de reforma da previdência do governo Michel Temer (8.297), a prisão em segunda instância (7.760), o fim do foro privilegiado (6.824) e a criação de aplicativos para controlar obras públicas (6.144).

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