Repercussão do balanço

Petrobras (PETR3;PETR4): resultado decepciona, mas dividendo estelar de R$ 100 bi ganha destaque – e expõe dilema da estatal

Destaque negativo ficou para o Ebitda com impacto de importações de GNL, mas dividend yield acima de 20% ganha destaque; ADRs sobem 3%

Por  Lara Rizério

Os resultados da Petrobras (PETR3;PETR4), divulgados na noite da véspera (23), ainda que aparentemente fortes, com a companhia divulgando um lucro líquido de R$ 31,5 bilhões no quarto trimestre de 2021, não agradaram totalmente o mercado.

O destaque negativo ficou para o lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) ajustado de US$ 11,5 bilhões (ou R$ 63,8 bilhões), que decepcionou a estimativa de consenso em cerca de 10%. O Bradesco BBI, por exemplo, esperada por um Ebitda de US$ 13,5 bilhões.

Os números decepcionantes vieram principalmente devido às margens de downstream, que concentram as atividades de refino, transporte e distribuição e comercialização dos produtos derivados, deprimidas, enquanto a expectativa é de que eles deveriam ser maiores devido aos ganhos de estoque.

O Credit Suisse ressalta ainda que os principais culpados foram os custos mais elevados associados às importações de GNL – Gás natural liquefeito – devido a um aumento significativo dos preços internacionais que não foram integralmente repassados ​​aos preços domésticos durante o trimestre. “As perdas com GNL são de cerca de US$ 4 bilhões em termos anualizados, uma clara demonstração do impacto negativo que os subsídios aos preços podem ter”, apontam os analistas do banco suíço.

Contudo, apesar do Ebitda abaixo do esperado, o fluxo de caixa foi novamente positivo no trimestre. A Petrobras reduziu a dívida líquida em US$ 500 milhões na comparação trimestral, para US$ 47,6 bilhões no final do ano. Os fluxos de caixa também foram ajudados por desinvestimentos de US$ 1,9 bilhão no trimestre.

Dividendos são destaque

Esses números, por sinal, permitiram com que a Petrobras anunciasse a proposta de mais dividendos. A companhia informou que vai encaminhar à Assembleia Geral de Acionistas, prevista para 13 de abril de 2022, a proposta de distribuição de dividendos complementares equivalentes a R$ 2,8610762 bruto por ação preferencial e ordinária em circulação.

“Considerando as antecipações realizadas em agosto e dezembro de 2021, a remuneração aos acionistas total proposta para o exercício social de 2021 é equivalente a R$ 7,773202 por ação ordinária e preferencial”, destacou a empresa.

Com os dividendos adicionais de R$ 37,3 bilhões, somados aos R$ 63,4 bilhões já anunciados, o total geral é de R$ 100,7 bilhões (ou cerca de 22% de rendimento a preços atuais das ações) para o ano fiscal completo de 2021, ressalta o Credit.

O Morgan Stanley destacou que, embora à custa do baixo capex (investimento em capital) no trimestre, a Petrobras continuou a gerar um fluxo de caixa livre forte, de US$ 5,7 bilhões (queda de 17% na base trimestral e alta de 59% na comparação anual). E, mesmo com um pagamento de dividendos significativo de US$ 7,4 bilhões no trimestre, ela ainda conseguiu reportar uma relação entre dívida líquida e Ebitda mais baixa sequencialmente, agora em 1,1 vez.

O banco ressalta que o mercado já esperava que dividendos complementares fossem anunciados ao longo do quarto trimestre, e a Petrobras não decepcionou. A distribuição incremental adiciona um rendimento de 7,9% para as ações ordinárias da companhia e 8,4% para as preferenciais, colocando o dividend yield (valor do dividendo sobre o preço da ação) total do ciclo 2021 em 21,4% para as ações ON e 22,7% para as preferenciais.

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Além disso, os investidores estão otimistas com as perspectivas de dividendos em 2022, com a maioria dos investidores esperando um rendimento de 25 a 30%.

Neste cenário, o Bradesco BBI questiona: no que o mercado se concentrará? O resultado abaixo ou os dividendos anunciados e o fluxo de caixa? Para os analistas da casa, no cenário atual com ambiente de taxas de juros crescentes, o fluxo de caixa e os dividendos são os mais importantes.

“Apesar dos riscos eleitorais este ano, acreditamos que os dividendos trimestrais devam continuar sólidos (o que não deve trazer pressa para que os investidores saiam do papel) e ainda vemos potenciais de alta”, avaliam.

Os níveis de caixa da estatal de US$ 11,1 bilhões ainda estão acima dos níveis ótimos de US$ 8 bilhões considerados pela administração, com a empresa ainda tendo que angariar mais valores pela vendas de ativos. Isso poderia fornecer um impulso incremental aos dividendos quando se olha para 2022, avaliam.

O Credit Suisse também ressalta que, em tempos de acalorado debate político sobre o papel da Petrobras na economia, “vale destacar o extraordinário valor que devolve à sociedade”, uma vez que o acionista majoritário é o governo brasileiro, que é o maior beneficiário dos dividendos. De fato, a participação do governo (37%) nos dividendos foi de cerca de R$ 37 bilhões para o ano fiscal de 2021. Além disso, a Petrobras também pagou cerca de R$ 202 bilhões em impostos no
ano, totalizando R$ 239 bilhões devolvidos à sociedade em 2021.

Para o banco suíço, o valuation da companhia ainda parece muito descontado, apesar do recente desempenho positivo da ação. O desconto, apontam os analistas, vem por conta do risco.

“Entre todos os riscos, destacamos a precificação do combustível precificação e risco de capex. Especialmente agora que o balanço foi desalavancado, exige diligência e disciplina significativas para evitar más alocações de capital e subsídios. A Petrobras é uma empresa estatal, o que significa que as eleições são de particular importância importância para os investidores”, ressaltam os analistas, destacam que, com as  eleições presidenciais em 2022, os investidores
devem esperar volatilidade nos próximos meses.

Contudo, a recomendação da casa para os ADRs PBR segue outperform (desempenho acima da média do mercado), com preço-alvo de US$ 14, ainda que 3,85% do valor de fechamento do ativo na véspera, de US$ 14,56. O Bradesco BBI também tem recomendação outperform para os ativos, com preço-alvo de R$ 42 para as ações PETR4, um potencial de alta de 22% em relação ao fechamento da véspera.

O Morgan, por sua vez, tem recomendação equalweight (exposição em linha com a média do mercado, equivalente à neutra), com preço-alvo de US$ 14,10 para os ADRs PBR.

“O trimestre exemplifica o dilema da Petrobras: os resultados não foram tão bons quanto o esperado, mas os dividendos extras para 2021 adicionaram um rendimento de cerca de 8% a uma distribuição já forte no início de 2021. A visão comprada em Petrobras pode ser justificada por dividendos de curto prazo, mas uma armadilha de valor de médio prazo é plausível com as eleições”, apontam os analistas do banco americano.

Segundo eles, apesar de não haver aparentes mudanças ou desvios de estratégia sob a nova gestão, a percepção de uma potencial intervenção governamental na política da empresa é preocupante, especialmente enquanto a agenda de privatização das refinarias não estiver concluída (apenas três refinarias foram vendidas neste ponto, enquanto a empresa enfrenta desafios para vender outras três). “Preferimos ficar de fora por enquanto, pois achamos que nossos cenários base e pessimista parecem igualmente plausíveis”, avaliam.

No pré-mercado, os ADRs PBR registram ganhos de cerca de 3% durante a manhã, com os investidores também repercutindo a forte alta do petróleo com o aumento da tensão na Ucrânia, mas também repercutindo os dividendos, que devem se sobrepor aos números mais fracos. Contudo, mais para frente, são esperadas, mais volatilidade é esperada.

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