Decifrando a estatal

Ações da Petrobras fecham com queda de 6% com falas de Bolsonaro, apesar de dividendos: armadilha ou oportunidade?

Analistas celebram mais um excelente balanço da estatal, mas seguem atentos aos riscos para a companhia em meio ao noticiário vindo de Brasília

Por  Lara Rizério -

SÃO PAULO – Como no último trimestre, o resultado da Petrobras (PETR3;PETR4) foi celebrado, com números que ultrapassaram as estimativas mais positivas dos analistas, com um robusto lucro de R$ 31,1 bilhões entre julho e setembro. Além disso, um robusto pagamento de proventos depois da nova antecipação de remuneração de R$ 31,8 bilhões após o anúncio de R$ 31,6 bilhões de agosto, que leva a um dividend yield (valor do provento sobre o preço da ação) de cerca de 17%.

Porém, mais uma vez, a política segue impactando a companhia e gerando sentimentos mistos para o mercado, o que ficou especialmente evidenciado na véspera, com efeitos também na sessão pós-resultado.

Ontem, um pouco antes da estatal divulgar seu balanço, Jair Bolsonaro criticou os altos lucros da companhia e também o que chamou de lei de preços da Petrobras (que tem guiado os recentes bons números da empresa) afirmando que busca um meio de mudá-la. “A Petrobras é obrigada a aumentar o preço porque ela tem que seguir a legislação e nós estamos tentando aqui buscar uma maneira de mudar a lei nesse sentido”, disse o presidente.

Após a fala, os ADRs (American Depositary Receipts) da estatal chegaram a cair mais de 4% no início da noite da véspera, zerando as perdas só após o anúncio dos altos dividendos que, ironicamente, tiveram como origem os números da companhia criticados por Bolsonaro.

Nesta manhã, no pré-market, os papéis PBR (equivalentes aos ordinários) operavam em leve alta e, no início da sessão, as ações PETR3 chegaram até a subir na B3.

Contudo, o cenário negativo voltou a predominar, justamente por conta da incerteza com os próximos passos para a companhia, ainda mais levando em conta a proximidade do ano eleitoral. A baixa se acentuou na reta final do pregão, para uma queda de 6%, após Joaquim Silva e Luna, presidente da estatal, apontar que o Congresso está estudando soluções com o governo para resolver a questão da alta dos combustíveis. Os ativos PETR3 fecharam em baixa de 6,49%, a R$ 27,67, enquanto os papéis PN tiveram queda de 5,90%, a R$ 27,25.

Cabe destacar que, na véspera, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou que terá uma reunião com a diretoria da Petrobras logo após o feriado de 2 de novembro para discutir uma solução para o preço dos combustíveis. A data não foi anunciada, mas deve ocorrer na semana que vem, de acordo com o senador.

Outro fator que está no radar é a possível paralisação dos caminhoneiros no dia 1, que pode ser mais um instrumento de tensão para a companhia.

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Nesse sentido, o Morgan Stanley reiterou sua recomendação equalweight (exposição em linha com a média do mercado) para os ADRs PBR, com preço-alvo de US$ 12,60, ou um potencial de valorização cerca de 22% em relação ao fechamento de quinta-feira.

“Um outro bom trimestre apoiou o anúncio de mais dividendos em 2021, atingindo um rendimento de 17%, e se aproximando (embora ainda não lá) de níveis que achamos que a Petrobras pode pagar potencialmente. Mas as eleições podem tornar a estrada acidentada. A Petrobras é um player de dividendos de dividendos, mas pode ser um value trap de médio prazo [ou armadilha de valor]”, apontam os analistas Bruno Montanari e Guilherme Levy.

Como analisar o resultado de uma empresa de commodity? Confira no vídeo abaixo: 

Os analistas do banco ressaltam que, com o anúncio do pagamento adicional de dividendos em relação ao exercício fiscal de 2021 de R$ 31,8 bilhões, proporcionando um yield adicional de cerca de 8% aos acionistas e, juntamente com a distribuição de R$ 31,6 bilhões anunciada em agosto, o dividend yield total do ano é de cerca de 17,5%, considerando a cotação média das ações dos últimos três meses. “Digno de nota, isto se compara às majors, atualmente negociando a cerca de 4,4% de dividend yield e os pares russos, a 8,5%”, apontam.

Em um trimestre forte, sustentado por maiores preços e produção mais elevados do petróleo, juntamente com o caixa proveniente da venda de ativos e o acordo de coparticipação no campo de Búzios, a empresa atingiu sua meta de dívida bruta abaixo de US$ 60 bilhões, prevista anteriormente para o fim de 2022. A dívida bruta da petroleira estatal atingiu US$ 59,6 bilhões, ante US$ 63,7 bilhões no trimestre anterior.

A Petrobras também se beneficiou da reversão de R$ 16,4 bilhões na baixa contábil pela perda do valor recuperável (impairment) de alguns campos, devido à revisão da curva do preço do petróleo no curto prazo.

Os analistas do banco também destacam que o lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda) ajustado, de R$ 60,744 bilhões, um crescimento de 81,7% na comparação com o mesmo período do ano passado, superou o consenso em 4% e os números do banco em 15%, principalmente devido à produção e volumes maiores do que o esperado (relatado na semana passada), que também impulsionou o resultado final, parcialmente compensado por resultados financeiros.

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Porém, os analistas ressaltam que, apesar de não haver mudanças aparentes ou desvio de estratégia sob a nova equipe de gestão, a percepção de uma potencial intervenção do governo na política da empresa é uma preocupação, especialmente enquanto a agenda de privatização das refinarias não está concluída (apenas duas refinarias foram vendidas até o momento, enquanto a empresa enfrentou desafios para vender outros três). “Preferimos ficar de fora por enquanto, pois achamos que nossos cenários base e pessimistas parecem igualmente plausíveis”, avaliam.

O Bradesco BBI também ressaltou que, no meio do debate acalorado em Brasília sobre uma possível mudança na política de preços da estatal, a companhia divulgou um outro excelente trimestre. Porém, ao contrário do Morgan, Vicente Falanga e Gustavo Sadka, analistas do banco, possuem recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para os ativos PETR4, com preço-alvo de R$ 42, ou potencial de alta de 45% em relação ao fechamento da véspera.

Falanga e Sadka avaliam que “tomar uma posição sobre a Petrobras nunca será uma decisão fácil” ressaltando que, se por um lado, há o ruído político, por outro há excelência operacional, o que leva à ironia de por que o Ebitda da companhia
se aproxima ao da Exxon, uma das principais do mundo, enquanto sua avaliação se aproxima da argentina YPF, que é cercada de problemas.

Para os analistas, contudo, há oportunidades de ganhos com o papel da estatal brasileira. “Embora tenha havido maior volatilidade recentemente levando em conta o cenário político e macroeconômico, o valuation já está muito deprimido, enquanto seus dividendos devem continuar robustos, o que deve dar suporte às ações em relação ao desempenho do Ibovespa”, apontam, o que reforça a recomendação positiva para os papéis.

Enquanto isso, ponderam os analistas da casa, um risco de curto prazo é a potencial greve dos caminhoneiros programada para a próxima segunda-feira (1 de novembro), o que pode levar a um risco cada vez maior se o governo não conseguir negociar.

Com relação aos dividendos, os analistas apontam que mais pode estar por vir. E destacam que, até agora, a empresa pagou um valor de cerca de R$ 20 bilhões ao governo federal, que pode ser usado para fomentar novos programas sociais como o recentemente anunciado voucher de vale-gás.

“O uso ativo dos dividendos da Petrobras como uma ferramenta de financiamento para programas sociais alinha o interesse do controlador com os acionistas minoritários. Acreditamos que mais dividendos podem ser anunciados com os resultados do quarto trimestre de 2021, suportados pelo balanço saudável da empresa”, afirmam.

O Credit Suisse também ressaltou que, embora os resultados tenham sido impressionantes mais uma vez, foi o anúncio de um adicional de R $ 31,8 bilhões (8,3% de rendimento) que roubou a cena, dando uma “aula” de retorno aos acionistas.

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Os analistas do banco suíço também ressaltam o valuation descontado e também questionam: “se o argumento do valuation é tão claro, por que existe esse desconto?” A resposta é o risco, em nossa opinião, e entre todos os riscos destacamos o preço do combustível e o risco de alta do capex (investimentos em capital).

“Um potencial investimento mais alto é a variável mais importante que pode prejudicar o fluxo de caixa livre. Em nossa opinião, agora que o balanço patrimonial foi desalavancado, será difícil resistir à pressão para aumentar os gastos de capital, principalmente com essa alta geração de caixa de fluxo livre. Os níveis de capex podem aumentar com o tempo, o que não é necessariamente ruim, mas o risco é que capital adicional possa ser alocado para projetos com retornos mais baixos. Não acreditamos que esse risco se materialize imediatamente, mas esperamos um capex mais alto no próximo plano de negócios”, avaliam.

Conforme destaca a Levante, enquanto a Petrobras divulga ótimos resultados, a população reclama dos preços dos combustíveis e os políticos buscam aumentar seus gastos visando as eleições, os dividendos anunciados podem servir de
alívio, caso tenham uma boa destinação.

“De qualquer forma, enquanto as cotações do petróleo e do dólar estiverem altas, melhor serão os resultados da Petrobras e maior serão os riscos de uma intervenção, como já aconteceu em governos anteriores”, concluem os analistas.

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